Título: Ligada no 220
Autor: Cotias , Adriana
Fonte: Valor Econômico, 21/07/2008, EU & Investimetos, p. D1

O setor elétrico está com a corda toda. Num momento em que os mercados globais estão virados, com oscilações absurdas e sem tendência, são os papéis relacionados às áreas de geração, transmissão e distribuição de energia que aparecem entre os mais indicados para a Carteira Valor de Dividendos do terceiro trimestre. Além de passarem à margem dos vaivéns das commodities, as empresas tradicionalmente remuneram bem os seus acionistas e têm levado vantagem no quesito inflação, pois têm, em geral, as suas tarifas corrigidas por indexadores como o Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M) ou pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), caso das geradoras.

Na lista "top 5" do período que vai de julho a setembro, só Telesp PN (4 citações) não pertence ao setor elétrico. As mais indicadas pelas corretoras participantes são CPFL Energia ON (ordinária, com voto) e AES Tietê PN (preferencial, sem voto), com 6 recomendações; Transmissão Paulista PN, com 5, e, Eletropaulo PNB, com 3. O papel atribuído aos dividendos de ser um amortecedor de crises se reflete no desempenho médio das ações escolhidas no último trimestre. Enquanto o Índice Bovespa (Ibovespa) caiu 7,60%, a Carteira Valor de Dividendos subiu 6,71% no período. No acumulado desde que o portfólio começou a ser publicado, em abril de 2006, a seleção ganha 54,03%, em comparação aos 50,82% do índice.

"As elétricas vêm passando por um momento privilegiado em comparação a outros setores", diz a analista Rosângela Ribeiro, da SLW Corretora, casa que passa a fazer parte da Carteira Valor de Dividendos neste trimestre, em substituição à corretora do Banco Real - que passou a contratar os serviços de análise do Santander, o novo controlador. "São empresas voltadas para o consumo doméstico, que conseguem proteger as receitas da inflação e estão menos sujeitas às influências negativas da conjuntura global."

A seleção de estréia da SLW contou com Telesp PN, CPFL Energia ON, AES Tietê PN, Tractebel ON e Eletropaulo PNB. Com um retorno em dividendos projetado de 12,1% para 2008, a distribuidora de energia que atua na região metropolitana de São Paulo ainda vai se beneficiar da boa estratégia de comercialização de preços com seus clientes no mercado aberto. "Isso vai se refletir no aumento da rentabilidade e, por conseqüência, na política de dividendos", prevê Rosângela. As geradoras, por sua vez, têm as suas tarifas corrigidas anualmente, seja pelo IGP-M, seja pelo IPCA, e já têm boa parte dos seus investimentos passados depreciados. O risco do setor também diminuiu, acrescenta a analista da SLW. A fim de reduzir o déficit de energia previsto para 2010 e 2011, o governo tem acelerado os processos de avaliação de licenças ambientais. Além disso, há esforços para preservar o nível dos reservatórios, com estímulos para as usinas termelétricas.

Fortes geradoras de caixa e, na sua maioria, com o controle nas mãos de grupos estrangeiro, as elétricas já fizeram boa parte de seus investimentos para ingressar no mercado ou aumentar a capacidade e agora não há nada mais natural do que adotar políticas para reaver o dinheiro aplicado, diz o chefe de análise da Concórdia, Eduardo Kondo. Mesmo aquelas que estão investindo para bancar novos projetos, diz, têm dívidas de longo prazo, e, portanto, reúnem condições para continuar remunerando seus acionistas a contento. "É um setor oligopolizado, fundamental para a economia e a característica do negócio favorece a distribuição de resultados", diz.

Na seleção da Concórdia entraram Transmissão Paulista PN, Coelce PNA, AES Tietê PN e CPFL Energia ON. A única ovelha desgarrada é Comgás PNA, que conseguiu embutir no seu reajuste tarifário a alta do preço do petróleo e a inflação e deve vir com bons resultados, diz Kondo.

Mesmo que a desaceleração que se desenha no cenário global respingue por aqui, a área de transmissão tende a ser poupada, diz o chefe de análise da Planner Corretora, Ricardo Tadeu Martins, que colocou Transmissão Paulista PN no seu portfólio do trimestre. "A receita que a empresa apura ao longo do exercício é determinada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o que quer dizer que independente do consumo, o seu faturamento está contratado, garantido", diz. A CPFL Energia, por sua vez, mesmo levando seus investimentos adiante, sempre procurou distribuir todo o seu resultado. Em 2007, por exemplo, a proporção foi de 106,47%.

Além das duas elétricas, a Planner compôs o seu portfólio de dividendos com as preferenciais da Brasil Telecom e do Bradesco e as ordinárias da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). "Embora com altos e baixos nos seus resultados, a Brasil Telecom despontou como uma das grandes pagadoras de proventos na última década", cita Martins. Para ele, as ações da operadora ainda vão refletir os ganhos de sinergia após a aquisição pela Oi. Ele não vislumbra mudanças relevantes na política de distribuição de lucros, mesmo após a união das estruturas. A escolha das ações do Bradesco, por sua vez, reflete a periodicidade dos dividendos mensais, além do complementar no início do segundo semestre. "É como se fosse um décimo terceiro salário."

Diversificação também foi o norte da Link Investimentos para construir as indicações para o trimestre. Além das elétricas AES Tietê PN, CPFL Energia ON e Transmissão Paulista PN, a casa manteve Telesp PN e incluiu Santander PN. "Como o banco espanhol tem quase 100% das ações, a estratégia é pagar bons dividendos para enviar para a matriz e o minoritário acaba se beneficiando dessa situação", diz o chefe de análise, Celso Boin Júnior. Como tradicionalmente a distribuição ocorre em agosto, a idéia é aproveitar o evento, comprando aos poucos, já que a negociação dos papéis é bastante restrita. "Como análise de risco, o setor vai bem, o banco melhor ainda após a compra do Real e com um potencial extra de ganhos numa nova tentativa de fechamento de capital."

O porém é que, como no mercado só há sobras das ações do Santander - herança da aquisição do Banespa, sem que houvesse acordo com fatia dos minoritários para fechar o capital -, a liquidez é pequena. Telesp PN, apesar de ter um dos maiores retornos em dividendos do mercado, de 14%, também se encaixa nesse raciocínio. "Isso vai contra a característica defensiva de uma carteira de dividendos porque pode se tornar um problema, mas para quem pensa em longo prazo pode ser compensatório."