Título: Violência é inimiga, mas não impede o bom desempenho
Autor: Totti , Paulo
Fonte: Valor Econômico, 31/07/2008, Especial, p. A5

A secretária municipal da Educação do Rio, Sônia Mograbi, diz que a violência nas regiões carentes da cidade é uma constante e que, em determinadas circunstâncias, chega a ser "a maior inimiga da educação". Ela conta que no complexo do Alemão, um conglomerado de favelas a meio caminho entre o centro e o aeroporto do Galeão, policiais militares irromperam no ano passado numa escola e mandaram professoras e crianças se jogarem no chão. "Subiram para o teto e de lá ficaram trocando tiros com os bandidos."

Em junho de 2007, às vésperas dos Jogos Pan-Americanos, o Ciep Gregório Bezerra teve que abrigar alunos de outros sete Cieps do bairro da Penha e adjacências, onde o confronto armado impediu o funcionamento das escolas por vários dias. Isso acontece com freqüência, mas há casos de queixas da "comunidade" contra operações da polícia em horário escolar, visivelmente destinadas a dar mais proteção à ação dos traficantes do que à segurança da população infantil.

A secretária diz que, apesar dessa violência, houve avanços na qualidade do ensino municipal. Mograbi não distingue os Cieps do restante da rede ("o município do Rio tem a maior rede de ensino público do mundo": 1.061 escolas, 245 creches, 744.858 alunos, 35.649 professores na ativa e cerca de 40 mil aposentados) e considera que, em relação a 2005, 80% das escolas que participaram das duas provas do Ideb melhoraram em 2007 e que, entre as 20 piores no Estado, na 4ª ou na 8ª séries, nenhuma pertence à prefeitura do Rio.

A secretária mostra alguns dados. Na 4ª série o Ideb médio de 2005 foi de 4,2; o de 2007, 4,5, superando a meta fixada pelo Ministério de Educação, de 4,3. Alcançaram índice superior a 5 1.294 escolas e outras 13 ficaram acima de 6. Na 8ª série, o avanço foi de 3,8 para 4,3, superando em um décimo a meta que só se pretendia atingir em 2011 (4,2).

" O ministro da Educação, Fernando Haddad, explicou bem o que se procura com a avaliação do Ideb: o importante é que a escola cresça em relação a ela mesma", diz a secretária, que, enquanto recebia a reportagem, telefonava à diretora da Escola Municipal Bangu, na Zona Oeste, para cumprimentá-la pelo 6,2 obtido no Ideb. Os cumprimentos eram transmitidos em nome do prefeito César Maia.

O Ideb, como é sabido, é um índice que combina taxa de aprovação, repetência e evasão de cada escola com os resultados das avaliações de desempenho da 4ª e da 8ª séries (Prova Brasil). A Prefeitura desagregou dados sobre a performance específica dos Cieps e constatou que dos 80 que fizeram as provas de 2005 e 2007, 66 melhoraram, nove repetiram seu índice e cinco pioraram. O destaque é para os Cieps Pablo Neruda e Aracy de Almeida, que avançaram de 5,3 para 5,7 (meta de 2009) e de 4,6 para 5,9 (meta de 2,015), respectivamente. E o Gregório Bezerra, o da conflagração do mês de junho, cresceu de 3,1 para 4, uma meta para ser atingida somente em 2011.

Tais índices provam pouco, mas demonstram que, se o desempenho nos Cieps é ruim, isso acontece mais no Estado do que na capital. O problema, portanto, pode não estar no prédio, nem no apelido que o prédio tenha, mas na orientação das autoridades e "até na dedicação do diretor de cada unidade", pois tudo isso influi no desempenho de professores e alunos, como constata, pragmática, a secretária estadual, Teresa Porto, que antes de ser secretária já integrava o governo de Sérgio Cabral como presidente da Proderj, a empresa de processamento de dados do Estado.

Sonia Mograbi, formada em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduada em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que a principal contribuição que os Cieps trouxeram à educação foi o princípio do tempo integral, e que, segundo ela, pode ser cumprido na própria escola ou em outros locais, como as vilas olímpicas e os clubes escolares que a prefeitura mantém nos subúrbios.

"Há uma outra virtude em Brizola: ele trouxe à baila, nacionalmente, a questão da educação pública. Já tinha batalhado por ela no Rio Grande do Sul e aqui no Rio foi onde encontrou retumbância nacional. Ele queria a inclusão social pela educação. Por essas duas coisas, ele já merece nossas homenagens."

Mas Sônia era diretora da escola municipal Marília de Dirceu, no bairro de Ipanema, quando os Cieps foram criados numa estrutura paralela à Secretaria de Educação, comandada por Darcy Ribeiro (Programa Especial de Educação, PEE), que mobilizou a militância brizolista e entusiasmou o corpo de professores recrutados para ela. A diretora do Marília de Dirceu não estava entre os chamados. Discreta, ela agora se limita a registrar que a discriminação não repercutiu bem entre os não chamados. "A idéia era boa, mas sua implementação teve erros como esse de não mobilizar o magistério todo", diz. A secretária estadual, Teresa Porto, então entusiasta dos Cieps, reconhece a existência de ressentimento entre os "excluídos" (em São Paulo, os Ceus foram criados dentro da estrutura da secretaria municipal de Educação e, em sua maioria, desenvolvem atividades conjuntas com as escolas convencionais do mesmo bairro, o que evita ou ameniza as ciumeiras).

No Rio, o ressentimento do corpo excluído de professores e a própria personalidade de Brizola, a politizar todos os assuntos em que se envolvia e a despertar mais inimizades do que alianças, explicariam por que, aos governos que se seguiram, foi tão fácil desmontar os Cieps. Uma professora no município de Trajano de Moraes lembra que a má vontade contra os Cieps manifestou-se já no governo de Wellington Moreira Franco (PMDB, 1987-1990), que se elegera contra Brizola, mas prometera preservar a obra educacional do antecessor. Aos poucos percebeu-se que a prioridade não eram mais os Cieps. Diz a professora que, primeiro, faltou dinheiro para o sabonete do banho, depois para a merenda "e assim por diante". Os plantões de saúde - clínicos, oculistas, dentistas, pediatras - deixaram de ser diários, começaram a escassear até serem suspensos definitivamente. Como a secretaria especial acabara, os diretores tiveram que voltar à Secretaria de Educação e aí já não mais seriam diretores ou, sequer, coordenadores. O "casal social" também foi sendo gradativamente extinto, até desaparecer por completo. Era constituído pelo marido, geralmente bombeiro, e sua mulher, servente na Secretaria de Educação ou na de Saúde, que moravam no Ciep e hospedavam, de segunda a sexta, crianças que viviam em lares desfeitos ou habitações em condições precárias. Alguns Cieps chegaram a tomar conta, dia e noite, de mais de 20 crianças. Seu alojamento, garotos e garotas separados, ficava no andar superior do prédio redondo que se destaca do resto do conjunto arquitetônico.

Aos poucos tudo isso foi desaparecendo. Ou, como afirma Ana Paula Varanda, a ex-aluna do Ciep da Maré, "os prédios ainda homenageiam a arquitetura de Niemeyer, mas guardam muito pouco das idéias de Darcy Ribeiro, são como um possante computador sem software". Parece mesmo existir uma orientação para apagar, aos poucos, o próprio nome desses conjuntos de concreto pré-moldado, caros de construir e de manter, mas, duradouros e resistentes. Um exemplo disso é a bem cuidada revista "Escola e Família", publicação trimestral da secretaria Municipal de Educação. Em 18 edições consultadas pelo Valor, a palavra Ciep só apareceu impressa em um texto. Na página 19 da edição nº 3, verão de 2003, pequena nota informa que a Escola Corações Unidos do Ciep Procópio Ferreira vai desfilar no Sambódromo com o samba-enredo Caras e Formas da Negritude ("Negro é samba/ negro é bamba"), letra, melodia, figurinos e adereços de autoria dos alunos. Em dois outros exemplares, primavera de 2004 e primavera de 2005, publica-se pequeno perfil, respectivamente, do cineasta Glauber Rocha e da sambista Clementina de Jesus, "que batizam escolas da rede municipal". O texto omite, mas as fotos revelam que essas escolas são Cieps. (PT)