Título: Gastos de Lula preocupam tucanos
Autor: Costa , Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 31/07/2008, Política, p. A9

Os governadores da região Sudeste, onde se situam os maiores colégios eleitorais do país, estão apreensivos com os aumentos de gastos do governo federal, especialmente das despesas permanentes como a dos salários dos servidores. Eles avaliam, sobretudo os do PSDB, que o estouro nas contas públicas poderá se converter numa "herança maldita" e comprometer a administração do futuro presidente da República, a ser eleito em 2010. A estimativa é que na troca de guarda do Palácio do Planalto, em 1º de janeiro de 2011, a despesa de pessoal estará em algo em torno dos R$ 200 bilhões.

A apreensão atinge os governadores do PSDB e do PMDB que se reuniram em São Paulo, no início da semana. Além do anfitrião, José Serra, estiveram presentes Aécio Neves (MG), Sérgio Cabral (RJ) e Paulo Hartung (ES). Eles também estão preocupados com a série de despesas que o Congresso está inclinado a aprovar, como a regulamentação da emenda 29 e o estabelecimento do piso nacional dos professores.

Ontem, Serra esteve com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, numa reunião agendada tão às pressas como foi aquela com os governadores Sérgio Cabral (PMDB-RJ), Aécio Neves (PSDB-MG) e Paulo Hartung (PMDB-ES). Serra tentou realizá-la em sigilo, mas o encontro vazou quando foi divulgada a agenda de Aécio para segunda-feira última. Tinha um único item: reunião com o governador José Serra, em São Paulo. Serra e Aécio são potenciais candidatos tucanos à sucessão de Lula.

Serra viajou no meio da tarde de ontem para Brasília. Antes de se encontrar com Lula - cuja agenda estava atrasada - o governador paulista disse que a conversa se restringiria a tratar de assuntos administrativos relativos ao Estado de São Paulo. Por meio de sua assessoria, o tucano também negou que a reunião com os governadores do Sudeste, no Palácio dos Bandeirantes, tenha tratado da questão fiscal dos Estados e da União. Negou, ainda, que tenham tratado sobre o descontrole da Polícia Federal, assunto que, conforme apurou o Valor, preocupa os quatro governadores.

A agenda oficial do encontro, ontem, entre Lula e Serra, anunciado pelo governador, foi a renovação da concessão da CESP, que, segundo Serra, vence em meados da década que vem. De acordo com Serra, outras companhias, como a Copel (Paraná), Furnas e Cemig (Minas Gerais) enfrentam o mesmo problema. "Realizamos uma venda de ações da CESP mas ela não deu certo porque os próprios investidores se sentiram inseguros por conta da possibilidade de não renovação da concessão", disse, à saída da audiência.

Serra e Lula também trataram da Ferroanel, informou o governador, e de outros investimentos nos trens urbanos e no Metrô. Sobre eleições, Serra disse ter ouvido de Lula que vai participar o mínimo possível. "Também enfrento esse problema no Estado, em municípios onde há mais de um candidato da base ". Não quis comentar a polarização PT-PSDB na capital e elogiou Dilma. "Temos um relacionamento bastante cordial e, do ponto de vista administrativo, bastante profícuo". Sobre a possibilidade de enfrentá-la em 2010, brincou. "Se eu não quero comentar eleições de agora, imagine 2010".

Além de comprometer a gestão do futuro presidente, seja ele de que partido for, os tucanos também estão preocupados com as conseqüências que a gastança federal poderá ter nos Estados. A equiparação salarial dos delegados paulistas já está sendo classificada por integrantes do partido como "um canhão nas contas públicas estaduais".

Além de Serra, os outros três governadores esquivaram-se de conversar sobre o que foi tratado no Bandeirantes. Dos quatro, Serra é o que está mais bem posicionado nas pesquisas de opinião sobre a sucessão de Lula, mas Aécio Neves é um nome considerado entre os tucanos.

O resultado as eleições municipais pode ter influência na escolha do candidato do PSDB, muito embora cada vez mais os tucanos reconheçam que será muito difícil a Geraldo Alckmin, se for eleito prefeito no lugar de Gilberto Kassab, vir a se posicionar contra Serra (um candidato paulista) em favor de Aécio Neves (um nome de Minas Gerais). Muito menos terá condições de reclamar nova candidatura presidencial: Serra foi candidato em 2002; Alckmin, em 2006. Mas em todas as pesquisas Serra bate Alckmin com facilidade.

A preocupação do PSDB com o aumento de gastos é tanta que o líder do partido, José Aníbal (SP), fez em tempo recorde uma análise da Medida Provisória (MP) 437, que criou o Ministério da Pesca, publicada ontem. De acordo com o líder tucano, o estudo feito pelos técnicos da liderança detectaram a criação de 287 novos cargos, que devem custar aos cofres públicos "pelo menos R$ 14 milhões ao ano", disse. Nem todos os cargos criados são da Pesca. Há funções comissionadas nas pastas da Fazenda, Integração Nacional, Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Banco Central e até cria uma terceira secretaria dentro do Gabinete de Segurança Institucional.

"São quase 300 cargos sem concurso criados às vésperas das eleições municipais. No mínimo muita cara-de-pau. Típico de um governo licencioso, gastador e que funda os seus apoios no toma-lá-dá-cá, esse jogo ultrapassado que a sociedade repudia", disse Aníbal. Nos cálculos do líder tucano, esses R$ 14 milhões podem alcançar uma cifra maior, porque um funcionário não custa somente o salário dele, disse José Aníbal. "Se for somar gasto com telefone, energia, viagens, etc, a despesa, com certeza, dobra" - afirmou.

Os R$ 14 milhões parecem uma quantia pequena, segundo Aníbal, mas somam-se a outras despesas já autorizadas e com eles "seria possível comprar 162 ônibus escolares por ano ou efetuar mais de 85.000 novos atendimentos anuais a crianças em hospitais públicos".

O PSDB não estimou a despesa com o novo Conselho Nacional de Aqüicultura e Pesca. "Esses conselhos são verdadeiros grupos de turistas que só ficam viajando pelo país e nunca concluem nada. Gastam com passagens, hospedagens, impressões de documentos e cartões corporativos", disse Aníbal.