Título: Lula tem influência, mas não define voto
Autor: Agostine , Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 31/07/2008, Política, p. A11
O uso da imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assim como a presença dele em palanques municipais, terá influência limitada sobre o eleitor na disputa pelas prefeituras em todo o país. Os candidatos que apostam na vinculação de suas candidaturas ao presidente não têm garantias de que a alta popularidade de Lula transforme-se em mais votos para eles. Mais importante do que o peso do cabo eleitoral, as propostas é que definirão os vitoriosos, como analisa o cientista político Jairo Nicolau, especialista no estudo de partidos políticos e eleições.
A eleição municipal, diz Nicolau, passa "mais pelo talento" do candidato a prefeito do grupo que ele representa, ou do alinhamento com o partido do presidente. "Há influência, mas ela não é definidora", diz. "O que define voto nessas eleições são os temas locais. A imagem do presidente é uma pequena variável. Existe uma preocupação excessiva dos adversários quanto a isso, um hiperdimensionamento da eleição local", afirma.
O eleitor movimenta-se mais pela lógica municipal do que pela federal, comenta Nicolau, que é professor e pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e coordenou ontem o grupo de trabalho sobre Partidos e Eleições da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), em Campinas. Apesar disso, em todo o país candidatos do PT e de partidos aliados devem se associar à imagem de Lula. "A movimentação dos candidatos em direção ao presidente é natural. Como ele tem alta popularidade, vão querer se associar. Ele acrescenta, mas de maneira pouco relevante. Não é o que define o voto. É mais um ator na eleição, mas não é o que define. A agenda local tem mais importância".
O uso da imagem do presidente reeleito já mostrou em 2004 não ser suficiente para definir uma disputa acirrada. O pesquisador lembra a eleição de 2004 em São Paulo, quando a então prefeita e candidata à reeleição Marta Suplicy (PT) vinculou-se ao governo federal em busca de mais votos, mas foi derrotada por José Serra (PSDB). Dois anos antes, o presidente havia derrotado Serra nas urnas.
O presidente Lula participará das campanhas de São Paulo, no palanque de Marta Suplicy, e em São Bernardo do Campo (SP), no de Luiz Marinho, dois ex-ministros do governo Lula. A disputa nas duas cidades será acirrada e a vitória é simbólica para Lula. Em São Paulo, pelo peso da capital paulista e em São Bernardo do Campo, por ser o berço político do presidente e por ser a cidade que Lula deverá morar depois que deixar a Presidência, em 2010. Nas demais cidades o presidente avisou que pretende ficar de fora. "A impressão é que Lula não vai entrar onde tiver duas candidaturas aliadas ao seu governo. Mas para ele não é muito relevante a vitória dos candidatos municipais, nem em capitais. Se o candidato perder, Lula perde muito pouco", analisa.
Nicolau lembra estudos feitos por ele com dados estatísticos de outras eleições que mostram que o resultado da eleição municipal nada tem a ver com o que acontece dois anos depois, na eleição presidencial.
A imagem do governador também não é garantia nenhuma de mais votos aos candidatos. "O candidato a prefeito pode dizer que, se ganhar, as parcerias ficarão mais fáceis, que a prefeitura terá mais recursos do governo estadual. Mas para o eleitor não é o fundamental."
O candidato Marcio Lacerda (PSB), em Belo Horizonte, é um exemplo de candidato com apoio do presidente Lula, do prefeito José Pimentel (PT) e do governador Aécio Neves (PSDB). Os cabos eleitorais de peso mostram que o candidato tem prestígio, atenta o pesquisador, mas "isso não é suficiente para tirar ninguém do chão". "Se o candidato não mostrar competência, o apoio não será suficiente. Ele pode tentar convencer que é a continuidade, mas pode vir outra candidata, como a Jô Moraes (PcdoB), e mostrar que ela tem relação com o governo Lula", comenta. "Não há como convencer eleitor só por isso."
O pesquisador cita ainda o caso do Rio de Janeiro, onde o candidato do PT, Alessando Molon (PT), apesar de ser do mesmo partido do presidente não chega a 5% das intenções de voto. Ainda no Rio, o candidato Marcelo Crivella (PRB), cita Nicolau, é um caso emblemático de como as ações locais têm mais influência do que o apoio obtido. O episódio das milícias impedindo candidatos a fazer campanha em morro carioca foi um "episódio mortal para Crivella", afirma o cientista político. "Num dia os candidatos não podem subir o morro. No dia seguinte, o Crivella sobe e faz campanha. Fica claro para o eleitor que ele tem apoio das milícias", diz. "Ele fez um enorme esforço para se desvincular da imagem de candidato da Igreja Universal, começou a freqüentar rodas de intelectuais, foi a setores que ele não ia antes. Esse episódio jogou tudo por água abaixo. Isso não pega bem. No segundo turno dificilmente ele passará."