Título: Setor volta a fechar contratos de longo prazo
Autor: Maia , Samantha
Fonte: Valor Econômico, 28/07/2008, Brasil, p. A5

Plínio do Amaral Pinheiro, vice-presidente executivo da Duratex: contrato de fornecimento de energia até 2027 Depois de quase um ano sem conseguir chegar a um acordo, geradores e consumidores livres de energia voltaram a fechar contratos de longo prazo. As perspectivas da maior disponibilidade de gás a partir de 2011 e de mais chuvas no segundo semestre, com base na tendência verificada este ano e em previsões meteorológicas, impulsionam esse movimento, que também reflete um amadurecimento dos agentes envolvidos neste mercado.

Apesar dos dias secos de julho no Sul e Sudeste, de fevereiro a junho, as chuvas ficaram um pouco acima da média das expectativas do Operador Nacional do Sistema (ONS), diferente do ano passado, quando elas ficaram abaixo do esperado. Além disso, há projeções de aquecimento das águas do Oceano Pacífico, fenômeno chamado El Niño, o que aumentaria as chuvas nas regiões Sul e Sudeste. As melhores condições poderão colocar o valor da energia negociada no curto prazo - conhecido como Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) - em queda. Foi essa expectativa que permitiu aos agentes do setor chegar a um meio termo sobre os preços a serem negociados para o futuro.

O cenário que preponderou desde meados de 2007 foi de poucas chuvas e de falta de combustíveis, além da insegurança sobre a oferta futura sem novos projetos licitados. Isso jogou para cima o PLD já que as geradoras podem liquidar a energia sobre esse preço caso ela não seja contratada. Acima de R$ 150 desde setembro do ano passado, em janeiro de 2008, o PLD chegou aos R$ 500 o megawatt/hora (MW/h), mas condições favoráveis podem derrubar fortemente esse preço, como em fevereiro do ano passado, quando foi para R$ 17,59 o MW/h. Em junho, ele ficou em R$ 76,20.

Com a mudança de situação, as geradoras estão sendo orientadas a buscar contratos de longo prazo, já que não se mostra mais tão vantajoso segurar sua energia. O volume do insumo negociado hoje pela comercializadora Comerc no longo prazo (mais de cinco anos), já é 55% maior que há um ano. "Isso demonstra o interesse dos consumidores, bem como dos geradores, em já buscar um instrumento de hedge de longo prazo, ao invés de aguardar e negociar contratos futuramente", diz Marcelo Parodi, presidente da Comerc.

Os consumidores, por sua vez, estão aceitando que o preço justo da energia é mais alto do que consideravam no ano passado. Segundo Paulo Toledo, da comercializadora Ecom Energia, a percepção do comprador hoje é diferente. "Compradores começam a aceitar preços em outros patamares, e geradores estão melhorando o seu preço desde que vendam no longo prazo." No ano passado, Toledo diz que cerca de 20% dos clientes achavam vantajoso fechar contratos no longo prazo, mas poucos conseguiam. Hoje, a porcentagem de interessados já chega a 50% dos clientes, e as ofertas aumentaram. "Estamos conseguindo fechar alguns acordos de venda por até 10 anos", diz.

A situação mais favorável permitiu que a fabricante de materiais de construção Duratex assinasse recentemente um contrato de fornecimento de energia até 2027, assegurando assim seus projetos de expansão da produção. Além da segurança, Plínio do Amaral Pinheiro, vice-presidente executivo da Duratex, diz que os preços obtidos foram vantajosos. "Faz parte da nossa estratégia de redução de custos." Outra grande empresa que conseguiu garantir energia contratada foi a Votorantim, que no fim de junho acertou com a Light o fornecimento de 100 MW médios até 2027, um negócio de aproximadamente R$ 2 bilhões.

Segundo Parodi, as geradoras estão fechando contratos em dois patamares, com um preço mais alto até 2012, em média R$ 175 MW/h, caindo para R$ 135 MW/h a partir de 2013. A entrada de 6,45 mil megawatts no sistema elétrico vindo das usinas do Rio Madeira a partir de 2012 e a finalização do plano da Petrobras que elevará a oferta de gás para 70 milhões de m³/dia em 2011 permitirão os preços menores no mercado livre.

João Carlos Mello, presidente da consultoria Andrade e Canellas, vê mais maturidade no mercado, e a busca de soluções para fechar contratos de longo prazo mostra que os agentes perceberam que ficar sem contrato não é bom para nenhum dos lados. "O preço no PLD é imprevisível." Segundo ele, no ano passado os acordos não eram fechados por conta da intenção de cobrir todo o contrato com base no preço mais caro.

Todos esses pontos são indícios de que o mercado caminha para um período de equilíbrio, segundo Paulo Pedrosa, presidente da Abraceel, representante das comercializadoras de energia. Ele alerta, no entanto que ainda há pouca oferta de energia no mercado, e dessa forma, a assinatura de contratos de longo prazo está concentrada em grandes empresas. "Esse fenômeno infelizmente ainda é restrito", diz. A comercializadora Tradener, por exemplo, diz que ainda não está fechando contratos com mais de cinco anos. "Algumas empresas conseguem, mas entre as menores há grande dificuldade", diz Walfrido Ávila, presidente da Tradener.

Apesar dessa falta de lastro, estima-se que estejam sendo liquidados cerca de 3 mil MW todo mês no mercado spot, volume significativo que poderia ser contratado a prazos longos. Felipe Barroso, da consultoria Bio Energias diz que realmente há energia disponível para ser contratada, mas nem sempre é interessante vendê-la. "Começa a haver uma reversão da expectativas. Pode ser que o PLD atinja seu mínimo. Esse sistema de formação de preços é míope, e uma grande chuva já joga o preço de energia para baixo."

Para Ricardo Lima, presidente da Abrace (grandes consumidores de energia), apesar de algumas negociações fechadas, a situação ainda preocupa quem está em busca de novos contratos. "O déficit de contrato ainda é grande, e as empresas têm encontrado dificuldades para expandir a produção", diz. Segundo último levantamento da Abrace do ano passado, há cerca de 10% do consumo de empresas do mercado livre descontratados para os próximos anos e que estão sendo cobertos com contratos de curto prazo.