Título: A todo vapor
Autor: Felipe Frisch
Fonte: Valor Econômico, 30/12/2004, EU &, p. D1

O número de negócios registrados na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) neste ano mostra um recorde histórico: mais de 6,7 milhões de operações, de acordo com levantamento realizado pela consultoria Economática. O dado chama a atenção não apenas pelo expressivo volume que representou, de R$ 258,412 milhões - o maior desde 1997, quando atingiu R$ 287,280 milhões -, mas pelo volume médio por operação, de R$ 38.212. O número de negócios registrados na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) neste ano mostra um recorde histórico: mais de 6,7 milhões de operações, de acordo com levantamento realizado pela consultoria Economática. O dado chama a atenção não apenas pelo expressivo volume que representou, de R$ 258,412 milhões - o maior desde 1997, quando atingiu R$ 287,280 milhões -, mas pelo volume médio por operação, de R$ 38.212. Isso, segundo especialistas, reflete uma maior pulverização do mercado acionário, com mais investidores aplicando em ações, mas com um volume menor. "A possibilidade de manipulação do mercado é enorme quando há um grande volume e poucos participantes", diz Carlos Nunes, analista da corretora SLW. "Com um mercado pulverizado, essa prática é muito menor". Segundo ele, a participação do varejo nas ofertas públicas iniciais de empresas que abriram capital neste ano é uma das grandes responsáveis por essa melhor distribuição no número de negócios. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Natura, Gol, América Latina Logística, CPFL Energia, Grendene, Diagnósticos da América (Dasa) e Porto Seguro. "O rateio foi grande nas operações de marcas mais conhecidas das pessoas", diz o analista. Na média, sem os dados da Porto Seguro, a participação das pessoas físicas nas ofertas foi de 17,46%, mas em algumas operações o número foi muito maior. Foi o caso da Gol, com 35,1% para os aplicadores individuais. Contribuiu também para o recorde no total de negócios no ano o número de investidores ativos do home broker, que pulou de 19.279 em dezembro de 2003 para 28.858 em novembro. A fatia de pessoas físicas no volume da Bovespa no ano está em 27,5% até o dia 23, tendo chegado a 28,9% no mês de novembro ante os 25,6% do último mês do ano passado. Em 2000, essa faixa mobilizava 20% dos recursos. Essa maior pulverização na bolsa será colocada à prova, segundo analistas, quando a quantidade de ofertas públicas se estabilizar ou até mesmo diminuir. Isso porque sem novas ofertas, menos investidores serão atraídos para a bolsa. Mas a expectativa por novas operações em 2005 ainda é elevada, diz Nunes. A dificuldade de pensar separadamente número de investidores e de emissões é que ambos acontecem juntos quando há otimismo no mercado. O gerente de Operações de Renda Variável da Bovespa, André Eduardo Demarco, lembra que em 2002 o Ibovespa chegou a registrar 11.268 pontos e hoje está perto dos 26.000. Essa alta foi acompanhada pelo aumento dos volumes, o que dá mais consistência ao movimento. "Em dois anos, praticamente dobramos o número de negócios diários, de 60 mil para 120 mil", diz. Analistas reconhecem que o crescimento reflete também o trabalho da Bovespa em popularizar o mercado de ações e o estímulo às adesões das empresas aos Níveis 1, 2 e ao Novo Mercado de governança corporativa, aumentando a transparência do mercado. Fernando Exel, presidente da Economática, lembra que existe uma relação entre os preços dos papéis e o volume negociado. "É como uma feira, você pode ter maior volume financeiro com o mesmo número de negócios com tomate se o preço do tomate subir", explica. Luiz Antônio Vaz das Neves, da Corretora Planner, lembra que este ano foi marcado por um giro muito grande dos investimentos. "Em anos em que tudo sobe, como em 2003, há pouca procura pelo especialista e o investidor compra e fica com o papel", diz. Já em períodos de maior turbulência, como foi 2004, com incertezas externas em relação aos juros americanos e o caso Waldomiro Diniz no início do ano, há mais troca de ativos e isso aumenta o volume mesmo que o Ibovespa não suba tanto. Fazendo uma analogia com o horóscopo chinês, Vaz das Neves lembra que 2003 foi o ano do Macaco, quando o investidor "pulou de galho em galho" - de telecomunicações para siderurgia, depois elétricas e mais tarde siderurgia de novo. No ano que vem, ano do Galo, Vaz das Neves acredita em um cenário parecido para a bolsa, com o Ibovespa podendo atingir um nível entre 30.000 e 33.000, o que significaria um potencial de alta de 15% a 27%. Apesar de um potencial de alta relativamente baixo, o especialista vê espaço para ganhos, mas vai depender de orientação e esse vai ser o desafio das corretoras e especialistas. (Colaborou Angelo Pavini)