Título: Capitais atraídos por juro não são só 'especulativos'
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Fonte: Valor Econômico, 04/08/2008, Opinião, p. A10
Atraídos pelo aumento da taxa básica de juros, investidores estrangeiros voltaram a aplicar em títulos públicos negociados no mercado doméstico. O movimento, forte e repentino, alimenta receios de que estejamos assistindo à volta dos capitais especulativos ao país. O exame detalhado das estatísticas, porém, mostra que esses investimentos são mais estáveis do que aparentam, ajudam a reduzir os custos de financiamento do Tesouro Nacional e alongam os horizontes de planejamento e investimento da economia brasileira.
Em julho, até o dia 28, os ingressos de investimentos estrangeiros em renda fixa, sobretudo títulos públicos, superaram as saídas em US$ 3,227 bilhões. É mais do que três vezes os US$ 907 milhões observados em maio.
Em março, o Ministério da Fazenda criou uma alíquota de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 1,5% justamente para desestimular a aplicação de estrangeiros em títulos públicos. A taxação fez com que o fluxo desses capitais caísse de US$ 4,276 bilhões em março para apenas US$ 36 milhões em abril.
Os capitais estrangeiros voltaram a ingressar no país depois que o Banco Central iniciou um ciclo de aperto monetário. Em abril, os juros básicos subiram pela primeira vez, de 11,25% para 11,75% ao ano. Hoje, a taxa já se encontra em 13% e as expectativas mais otimistas projetam 14,75% para o fim do ano.
O aperto monetário amplia o diferencial de juros internos e externos e estimula as chamadas operações de "carry trade". Investidores estrangeiros, geralmente "hedge funds", tomam empréstimos no exterior, em países onde os juros são mais baixos, para aplicar no Brasil. O lucro é representado não apenas pelos altos juros vigentes no país, mas também pela apreciação do câmbio - intensificada justamente pela entrada de capitais externos.
É possível que uma parte dos investidores que hoje aplicam em títulos públicos seja "hedge funds". Mas é fato que os papéis do Tesouro despertam interesse crescente de investidores institucionais, como fundos de pensão e seguradoras, sobretudo depois que o Brasil recebeu o grau de investimento por duas agências de classificação de risco.
Uma evidência da presença de investidores de longo prazo é o ambiente relativamente tranqüilo observado no mercado de títulos públicos desde o acirramento da crise das hipotecas americanas, em agosto de 2007. É bom lembrar que um ano antes, em maio de 2006, quando os "hedge funds" respondiam pelo grosso das aplicações estrangeiras em títulos públicos, o mercado de papéis do Tesouro foi sacudido por fortes turbulências, reagindo com exagero a um período de moderada incerteza no cenário financeiro internacional.
A maior parte dos investimentos estrangeiros em renda fixa é dirigida a ativos de longo prazo. As estatísticas do BC mostram que, dos US$ 10,171 bilhões que ingressaram no país no primeiro semestre, 81,5% eram aplicações de longo prazo (maiores que um ano) e 18,5% investimentos de curto prazo (até um ano).
Em março, quando a Fazenda taxou essas aplicações com IOF, houve repercussões imediatas na curva de juros de longo prazo, que subiu. Ficou claro neste episódio que, sem a presença dos estrangeiros, o Tesouro é obrigado a pagar juros mais altos no financiamento da dívida interna.
Em maio, investidores estrangeiros tinham participação de 6,2% da dívida pública. Eles ampliaram a aplicação no mercado doméstico a partir de fevereiro de 2006, quando o governo concedeu a eles isenção de Imposto de Renda. Desde então, observou-se um expressivo alongamento no prazo médio da dívida interna, que passou de 33,3 meses em dezembro de 2005 para 41,3 meses em junho passado.
Mais importante: graças à presença dos investidores estrangeiros, o Tesouro tem sido capaz de criar uma curva de juros de longo prazo, que serve de referência para as captações do setor privado. Por falta de um referencial de longo prazo, a maior parte das captações das empresas do setor privado ainda tem juros pós-fixados, acompanhando a variação da taxa Selic. Após anos de trabalho, o Tesouro começa a consolidar uma curva de juros indexados a índices de preços, que hoje vai até 2045. As captações prefixadas do Tesouro já chegam a até 2017. Sem a presença de investidores estrangeiros, isso seria muito mais difícil