Título: Minério de ferro deve fazer a diferença no balanço da Vale
Autor: Durão , Vera Saavedra
Fonte: Valor Econômico, 04/08/2008, EU & S.A., p. D5

Os papéis da Vale do Rio Doce podem estar dando vexame na bolsa, mas analistas de grandes bancos como Merrill Lynch, Goldman Sachs e BES Securities estão prevendo lucro recorde para a companhia no segundo trimestre.

A alta de 65% no preço do minério de ferro e de 87% no valor das pelotas de minério, que foram incorporados neste trimestre aos contratos, foram citados pelos analistas como fatores que contribuiriam para elevar bastante a receita de ferrosos, estimada entre US$ 11 bilhões e US$ 12 bilhões no período, a ponto de anular o impacto da queda de 11% do preço do níquel. Os ferrosos representam 45% da receita da Vale.

Mas pode haver surpresas embutidas nos números financeiros, por conta de perdas com contratos de "hedge" em metais como cobre, níquel e alumínio. No primeiro trimestre, a mineradora teve uma perda de US$ 79 milhões decorrente de liquidações de posições, diz o relatório do BES Securities. A expectativa é que também ocorram perdas no segundo trimestre, mas menores, como chama atenção o relatório da Brascan Corretora.

Dos quatro analistas que fizeram projeções para o lucro da Vale, três usaram a contabilidade americana e estimaram lucro entre US$ 4,4 bilhões e US$ 5,2 bilhões para a mineradora, cerca de 20% a 28% acima do resultado do segundo trimestre de 2007, de US$ 4 bilhões, e 140% acima dos US$ 2 bilhões do primeiro trimestre. Já Rodrigo Ferraz, da Brascan, que usou as normas da contabilidade brasileira trabalhou com um ganho líquido de R$ 5,03 bilhões, 14% abaixo do lucro de R$ 5,8 bilhões do mesmo período do ano passado e 124% acima dos R$ 2,2 bilhões do primeiro trimestre deste ano.

Felipe Hyrai, da Merrill Lynch, que projetou um lucro de US$ 5,2 bilhões, a maior estimativa dentre os quatro bancos, avalia que a alta do preço do minério é reforçada pelo crescimento de 6,5% na produção do insumo, que somou 77,5 milhões de toneladas no período, garantindo aumento de receita e, consequentemente, maior ganho para a companhia. Marcelo Aguiar, do Goldman Sachs, estimou US$ 4,8 bilhões de lucro líquido no trimestre. Além da elevação dos preços e das vendas, ele espera um forte resultado financeiro, propiciado pelo câmbio, dado que boa parte da dívida da mineradora é em dólar. Aguiar destaca ainda que os custos de produção da Vale devem crescer apenas 9% ante o mesmo período de 2007. Este é um foco de preocupação dos investidores da companhia, observa.

Juliana Chu, analista de mineração do BES Securities , que estimou US$ 4,4 bilhões, aposta na alta do minério e atribui o fraco desempenho das ações das mineradoras ao receio de uma recessão na economia global, atingindo inclusive a China. Mas acredita que o fato de as usinas da Ásia terem acatado recentemente um reajuste mais alto do minério da Rio Tinto indica que a demanda pelo produto vai continuar aquecida. Assim, ela acaba de rever a estimativa de alta do minério de 5% para 15% em 2009.

Para Rodrigo Ferraz, da corretora Brascan, porém, o cenário não parece tão otimista. Ele fez uma projeção que considera cautelosa de lucro para a Vale, pois não sabe qual será o impacto das perdas com "hedge". "Não sabemos o tamanho porque não conhecemos os parâmetros dos derivativos, quantos contratos já venceram desde o primeiro trimestre e em que preço se baseia a perda. Mas não creio que a perda seja maior que a do primeiro trimestre", diz.

Na análise de Ferraz, o minério e a pelota subiram, na média, 75%, o que vai ajudar o balanço do segundo trimestre, já que a receita bruta pode bater em R$ 18,2 bilhões, empatando com a do ano passado. A projeção de lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações é de R$ 9 bilhões, 11% menor que a de 2007.