Título: MP diz que depoimento confirma propina
Autor: Junqueira , Caio
Fonte: Valor Econômico, 08/08/2008, Política, p. A8

O procurador da República Rodrigo de Grandis disse ontem que Hugo Chicaroni, apontado pelo Ministério Público como emissário do banqueiro Daniel Dantas para articular o pagamento de propinas a policiais federais, confirmou em seu depoimento à Justiça que detinha R$ 865 mil do grupo Opportunity destinados a subornar delegados envolvidos na Operação Satiagraha. O objetivo seria de livrar o banqueiro e familiares das investigações. Dantas também prestou depoimento ontem, mas se manteve em silêncio.

Nem os advogados de Chicaroni nem de Dantas comentaram o teor do depoimento de Chicaroni no que se refere a esse valor. "O dinheiro será oportunamente apreciado. Os valores ainda serão objeto de deliberação do juiz", disse Alberto Carlos Dias, que defende Chicaroni no caso. Para ele, o mais relevante no interrogatório foi o relato de seu cliente acerca do que teria sido um flagrante armado dos policiais. "O fato é que o flagrante foi preparado. O delegado Protógenes era amigo de Chicaroni havia sete anos e se utilizou de sua amizade para preparar uma operação. Protógenes apresentou o Victor Hugo (delegado supostamente alvo da propina) a Chicaroni para preparar uma operação que deflagrou em sua prisão." A Polícia Federal negou as declarações de Chicaroni.

Sobre o valor, Nélio Machado, advogado de Dantas disse que só falaria sobre o depoimento de seu cliente. "Eu posso falar sobre o meu cliente e a parte relacionada com o depoimento dele. Isso é um direito meu e eu posso exercê-lo em plenitude", afirmou. De acordo com ele, Dantas silenciou em razão das fitas que gravaram o encontro entre Hugo Chicaroni, Humberto Braz e o delegado Victor Hugo estarem inaudíveis. Um novo depoimento foi marcado para o dia 14 de agosto.

Machado também voltou a criticar a forma como o processo esta sendo tocado. "Vou apresentar uma petição ao juiz onde reitero as várias imperfeições, várias irregularidades. Eles têm o dever de arrumar essa forma de autuar o procedimento. Eu tenho o direito de ver os autos no original. Enquanto essa situação perdurar dessa maneira, meu cliente vai se abster", disse.

Questionado se seu cliente não queria "desabafar", como disse anteontem, respondeu: "A expressão ´desabafar´ é uma expressão minha diante de todas essas injustiças, diante de toda essa quadra persecutória".

Renato de Morais, advogado de Humberto Braz, outro suposto emissário de Dantas para articular o pagamento da propina, também esteve ontem na Justiça Federal junto com seu cliente, já que o juiz Fausto de Sanctis cogitou fazer uma acareação entre os envolvidos, o que não ocorreu.

Na chegada ao prédio, Morais disse que pediria ao juiz esclarecimento sobre a informação dada por Braz de que Chicaroni prestaria serviços à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e que esse teria sido a razão da aproximação a ele por parte de de seu cliente. Braz alegou ter sofrido uma campana de agentes da Abin e queria obter informações sobre isso. Essa foi a razão de ter procurado Chicaroni, pois fora informado de que ele prestava serviços terceirizados à Abin. Entretanto, o órgão informou que o órgão não trabalha com serviços terceirizados