Título: Dificuldade técnica pode atrasar estréia da portabilidade
Autor: Borges , André
Fonte: Valor Econômico, 08/08/2008, Empresas, p. B3
Pauletti, presidente da Abrafix, associação das teles fixas: riscos à implantação comercial sem fazer todos os testes A portabilidade numérica, mudança nas regras da telefonia que permitirá que um usuário troque de operadora sem ter que mudar de número, corre sérios riscos de não entrar em vigor no dia 1º de setembro, prazo estipulado há 18 meses pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
A maioria das empresas de telefonia fixa e celular evita comentar o assunto e o órgão regulador, por ora, não dá sinais de que está disposto a alterar o cronograma.
A três semanas da estréia nas cidades pré-determinadas, muitas operadoras não superaram uma série de dificuldades técnicas - principalmente em seus ambientes internos de informática, que ainda não conseguem integrar, de forma precisa, as centenas de mensagens automáticas que o serviço exigirá. Segundo fonte que acompanha de perto as implementações, a maior parte dos problemas ocorre com os sistemas de relacionamento com o cliente, os programas que as teles adotam para gerenciar seus serviços com os usuários.
Nas operadoras, existe o temor de que se repita a pane generalizada que emudeceu os telefones durante a introdução dos códigos de seleção de prestadora nas ligações de longa distância, em 1999.
Os entraves técnicos e o pouco interesse das grandes operadoras contribuíram para encolher prazos que já eram exíguos. Conforme resolução da Anatel, as empresas deveriam reservar 90 dias antes da estréia para fazer testes. Com os atrasos, eles limitaram-se a, no máximo, 45 dias.
Em julho, as associações das concessionárias de telefonia fixa (Abrafix) e celular (Acel) enviaram cartas à agência expondo suas dificuldades. Não pediram, abertamente, mudança no cronograma, mas a mensagem ficou subentendida. "Alertamos para os riscos à entrada comercial sem que todos os testes sejam feitos de forma adequada", diz o presidente da Abrafix, José Fernandes Pauletti. "Os sistemas e as áreas de tecnologia de cada operadora eram diferentes. Quando se coloca isso em conjunto, vai funcionar? Só Deus sabe."
Até um mês atrás, foram realizados testes com operadoras fictícias, mas há pouco mais de duas semanas começaram as verificações reais entre as companhias. "Ainda tem muito trabalho braçal, e isso acontece porque as empresas não conseguem alterar os sistemas", diz fonte que acompanha o assunto. "O complicado é que, se uma operadora falhar, atrapalha todas as outras e compromete o resultado."
A portabilidade requer a criação de diferentes bancos de dados. Além das informações que cada operadora armazenará, um banco de dados paralelo ficará centralizado na Associação Brasileira de Recursos em Telecomunicações (ABR Telecom), entidade escolhida pela Anatel para administrar as migrações dos usuários. Essa migração, embora pareça simples, envolve uma infinidade de troca de mensagens entre as empresas.
A transição do cliente de uma operadora para outra pode gerar cerca de 300 combinações de mensagens. Estas, integradas aos sistemas internos das teles, chegam a até cerca de 3 mil combinações. Paralelamente, há dificuldades para fechar os procedimentos de cobrança entre as empresas. "Isso tudo ainda não está funcionando plenamente", diz fonte do setor.
Segundo Luiz Antonio Vale Moura, coordenador do grupo de implementação de portabilidade da Anatel, essas dificuldades já eram esperadas. "O projeto está em sua fase mais crítica, mas é normal", diz. "Por enquanto, ninguém apresentou problemas sérios para nós, e a implantação não será adiada."
A hipótese de que a troca de informações entre operadoras poderia gerar atrasos para completar uma ligação feita pelo usuário é descartada por Moura. "O tempo de consulta ao banco de dados é imperceptível, não haverá esse transtorno."
Nesta semana, o presidente da Anatel, Ronaldo Sardenberg, também reiterou que não há motivos para postergar a implantação.
A portabilidade estava prevista desde a privatização do setor, dez anos atrás, mas ficou engavetada. Em março do ano passado, a Anatel aprovou a regulamentação necessária e definiu o cronograma. A expectativa do mercado é de que, a partir do momento em que o usuário tenha liberdade de levar seu número para qualquer operadora, haja um aumento de competitividade, principalmente na telefonia fixa, onde a concorrência é menos intensa do que na móvel.
Por isso mesmo, o assunto desperta reações distintas nas empresas. As concessionárias de telefonia fixa - Telefônica, Oi e Brasil Telecom - são as mais refratárias. Como enormes bases de clientes, matematicamente são elas que mais têm a perder. Além disso, telefone fixo, no Brasil, já foi considerado um patrimônio e muita gente ainda reluta em abrir mão do número que conquistou após anos na fila. Companhias competidoras - como GVT, Net e Embratel - têm mais a ganhar, pois deixa de existir um importante inibidor para que um cliente em potencial mude de operadora.
A TIM, empresa de celular que desde o ano passado também presta serviços de telefonia fixa, demonstra otimismo. O presidente da operadora, Mario Cesar Pereira de Araujo, vê dois focos de oportunidades. "Na telefonia móvel, temos a possibilidade de conquistar clientes da concorrência, principalmente nas regiões em que somos a terceira ou a quarta operadora. Na fixa, muitos clientes não mudam porque consideram importante manter o número", afirma.
No entanto, o executivo admite que o prazo é apertado. "Evidentemente que um processo dessa monta, se é para entrar, tem que entrar com garantia de qualidade", afirma. "Senão, mais uma vez as operadoras se tornam alvo de reclamações sobre a qualidade do atendimento."
A ClearTech, que presta serviços para a ABR Telecom, estima que serão feitas de 400 mil a 600 mil migrações de usuários entre operadoras por mês, a partir de 2009. O Brasil tem hoje mais de 130 milhões de celulares e cerca de 40 milhões de linhas fixas em serviço.
Para se adaptar, calcula-se que as empresas já tenham investido R$ 2 bilhões, sem contar custos com manutenção. Nos Estados Unidos, país que adotou a portabilidade em 1998, o sistema gera custo anual de US$ 200 milhões.