Título: Pólo naval de Rio Grande é disputado por PT e PMDB
Autor: Bueno , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 11/08/2008, Política, p. A7

Pólo naval de Rio Grande: investimento já representou R$ 1 bilhão e geração de 4,5 mil empregos Aliados em Brasília, PT e PMDB vão travar, na campanha pela prefeitura de Rio Grande, uma disputa particular pela paternidade do pólo naval que está sendo implantado na cidade gaúcha de 200 mil habitantes. O empreendimento, vinculado à Petrobras, já representou a injeção de cerca de R$ 1 bilhão desde o ano passado na até então combalida economia local, criou algo como 4,5 mil empregos e agora tanto o petista Dirceu Lopes quanto o peemedebista Fábio Branco, que corre atrás do quarto mandato consecutivo para a família, tentam faturar com a maré de euforia que tomou conta do município.

Antes mesmo do início do horário eleitoral gratuito, o complexo -- que inclui um gigantesco dique-seco destinado à construção e reforma de plataformas oceânicas para produção de petróleo e gás, previsto para ser concluído em fevereiro de 2009, e a etapa final da montagem da P-53, que deve operar ainda este ano na Bacia de Campos (RJ) - já foi cenário para os programas partidários de PT e do PMDB. E, daqui até outubro, o assunto deverá tomar conta dos debates e da propaganda dos dois partidos, diz o professor da Fundação Universidade Federal de Rio Grande (Furg), Marcelo Domingues.

"Os Branco estão surfando na onda mas o Dirceu tem o apoio do presidente Lula", comenta o professor. Depois de quase dez anos ocupando cargos fora da cidade, primeiro no governo estadual petista de Olívio Dutra (1999-2002), em Porto Alegre, e depois no Ministério das Cidades e na então Secretaria Especial da Pesca, Lopes apresenta o pólo naval como uma obra do PT e no dia 16 deste mês espera receber, na carona do batismo da plataforma P-53 que deve ser feito pelo presidente da República e pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a bênção para a própria candidatura.

Do outro lado da trincheira eleitoral, Fábio, que é primo do atual prefeito, Janir Branco, já ocupou o cargo de 2000 a 2003, quando sucedeu o tio, Wilson (pai de Janir), que havia sido eleito em 1996. A "dinastia" da família, como é tratada na cidade, é reconhecida por ter feito investimentos importantes em saúde, educação, saneamento e asfaltamento de ruas, mas agora enfrenta um desgaste natural depois de tanto tempo no poder e vai usar a participação do município ma implantação do pólo naval como argumento para tentar se manter no cargo, entende Domingues.

A prefeitura concedeu benefícios fiscais para o empreendimento que incluem a isenção de ISSQN, IPTU, ITBI e de taxas de aprovação de projetos por prazos de até dez anos, mas exigiu que os incentivos fossem explicitados pela construtora WTorre, responsável pelas obras do dique-seco, em cartazes e materiais impressos. "Agradecemos ao governo Lula, mas o município teve uma participação muito grande (no projeto), que começou em 2003 quando mostramos o potencial da cidade para a Petrobras", diz Fábio Branco.

Ele lembra que o ex-governador - também peemedebista - Germano Rigotto (2003-2006) foi outro que colaborou, com a permuta de parte da área onde está sendo montada a plataforma P-53 e com a cessão do terreno destinado ao dique-seco, que será arrendado pela Petrobras durante dez anos e depois retornará para a WTorre. "E agora estamos trabalhando para atrair outros projetos do setor naval", afirma Branco.

Lopes, porém, afirma que o pólo local e a recuperação da indústria naval brasileira foi resultado uma "aposta" do governo do PT desde a primeira eleição do presidente Lula. Segundo ele, em Rio Grande sempre houve polarização entre o PMDB e o PT e até a garantia da construção do dique-seco e da P-53 os Branco, que em 2002 apoiaram o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência da República, "não acreditavam" na implantação do projeto. O candidato também rejeita o rótulo de "ausente" que o adversário teria procurado lhe impingir: "Minha casa é aqui, minha família é daqui e mesmo quando estive fora visitava Rio Grande pelo menos uma vez por mês".

Conforme o professor da Furg, além do pólo naval a cidade atraiu, desde o início de 2007, outros projetos empresariais como novas fábricas de estruturas metálicas, de fertilizantes e de chapas de madeira para a indústria moveleira. Junto disso vieram efeitos colaterais positivos e negativos como a explosão do setor imobiliário, o aumento de mais de 11% na frota local, para mais de 65,5 veículos, e a chegada de uma população "flutuante" de 10 mil a 15 mil pessoas. O orçamento da prefeitura, que foi de R$ 158 milhões em 2006, passou para R$ 185 milhões neste ano, mas com ele também aumentaram as demandas por investimentos em infra-estrutura, relata Domingues.

"Não esperávamos que o impacto da implantação do pólo naval fosse tão rápido", afirma o presidente da Câmara de Comércio, João Touguinha. "O comércio não estava preparado, o aeroporto começou a ficar lotado e o trânsito, complicado, e os índices de violência também aumentaram", comenta o empresário. Mesmo assim, ele considera o saldo positivo para a cidade e prevê uma disputa "acirrada" entre os dois candidatos na eleição de outubro. "Vai ganhar quem aproveitar melhor o bom momento (econômico) e apresentar propostas viáveis para solucionar os gargalos que apareceram na infra-estrutura urbana", afirma.