Título: Defesa de Dantas reclama áudio de suposto suborno
Autor: Junqueira , Caio
Fonte: Valor Econômico, 07/08/2008, Politica, p. A10
banqueiro Daniel Dantas ficará no início da tarde de hoje frente a frente com o juiz federal Fausto de Sanctis, que o levou por duas vezes a prisão em julho. No entanto, ele pouco deve falar no depoimento do processo em que é acusado de determinar a auxiliares que tentem subornar policiais federais no intuito de livrar a si e a seus familiares das investigações que deflagraram a Operação Satiagraha.
A estratégia, explicitada ontem por seu advogado, Nélio Machado, é de que a defesa não teve acesso a todas as provas, que há trechos inaudíveis da fita em que os dois supostos emissários conversam com os policiais e que está havendo um pré-julgamento de seu cliente, encampado pelo juiz e pelo Ministério Público.
Ainda assim, seu advogado afirmou que Dantas pode vir a "desabafar" no depoimento. De acordo com ele, seu cliente esta com "angústia existencial". "Ele quer desabafar um pouco. Quer botar para fora tudo o que passou, tudo que padeceu. Mas tenho que ter uma postura racional e não emocional. É possível que o meu cliente exerça o direito de não falar. Por outro lado, ele também tem uma certa angústia existencial compreensível de deixar claro que na realidade ele é vítima de um processo que não vem de agora", disse.
Sobre a argüição de suspeição do juiz, Machado disse que ela foi negada por De Sanctis, que se considerou isento para conduzir o caso. O juiz agora submeterá sua decisão ao Tribunal Regional Federal.
Ontem, Humberto Braz, um dos acusados de tentar subornar um policial federal, manteve-se calado em depoimento ao juiz De Sanctis. A alegação de seu advogado, Renato de Morais, foi semelhante a do advogado de Dantas: o áudio da suposta tentativa de suborno está incompreensível. Foi requerida ao juiz a elaboração de um laudo que identificasse o áudio, o que foi indeferido. Com a negativa, Braz silenciou.
"A qualidade do áudio e péssima, você não consegue identificar os interlocutores, os diálogos relatados pela autoridade policial. A defesa vai reiterar o pedido (do laudo) em defesa prévia e se for novamente indeferida a defesa terá que produzir de forma particular esse laudo. Ele é fundamental", afirmou Morais.
Ele disse ainda que seu cliente foi vítima de cilada por meio da preparação de um flagrante. "Houve uma provocação da autoridade policial que levou àquela situação, uma provocação da autoridade policial para que aquele encontro se realizasse de forma que as conversas fossem gravadas. E por conta disso precisamos do áudio para confirmar. Não há como ter interrogatório sem que a prova fundamental utilizada pelo Ministério Público venha aos autos."
Alem de Dantas, também presta depoimento hoje Hugo Chicaroni, que teria, segundo a denúncia do Ministério Publico, atuado junto com Humberto Braz. O advogado de Braz nega. Disse que seu cliente conhecera Hugo depois de ser vítima de uma campana da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
"A única informação que eu tenho é a que ele teve: de que esse cidadão (Chicaroni) prestaria serviços para a Abin normalmente, terceirizado. Ele o conheceu por uma indicação de um advogado como uma pessoa que prestava serviços a Abin e por conta da campana que ele sofrera quis saber dele se teria conhecimento dos motivos da campana."
No apartamento de Chicaroni foi encontrado cerca de R$ 1,2 milhão, que seria o montante destinado ao suborno. Para a Polícia Federal, Chicaroni disse que o montante foi dado a ele por representantes do Opportunity. A empresa nega. A Abin não quis se pronunciar.