Título: Queda traz potencial para ações de construção civil
Autor: Monteiro , Luciana
Fonte: Valor Econômico, 18/08/2008, EU & Investimentos, p. D2
A alta da taxa de juros não deve ser vista como um motivo para que os investidores vendam as ações do setor de construção civil. A avaliação é da BullTick Brasil Consultoria, braço do banco de investimentos americano BullTick Capital Markets no país, que considera o fato de os contratos imobiliários serem indexados à inflação uma proteção para as margens das companhias.
A consultoria avalia os papéis da Rossi Residencial e da PDG como as melhores opções do setor. Pelos cálculos da BullTick, as ações das duas empresas têm potencial de valorização para os próximos 12 meses de 98,2% e 62,8%, ante as cotações registradas na sexta-feira. Já quanto aos papéis da Cyrela, a instituição mantém recomendação neutra e estima potencial de alta de 29,9%. As indicações para Company e MRV foram reduzidas de compra para neutra. Na ponta oposta, a instituição recomenda venda das ações da Gafisa, apesar de estimar um potencial de ganho com os papéis de 24% em 12 meses.
"No que se refere à inflação, as companhias parecem ser razoavelmente protegidas tanto pelo uso de contratos indexados quanto pela habilidade de implementação de estratégias defensivas para proteger margens", destaca o relatório encaminhado a clientes e assinado pelo analista Rafael Pinho. "A cadeia produtiva do setor está pronta para manter o crescimento do setor de construção."
A instituição lembra que, nos últimos meses, os investidores desenvolveram um sentimento generalizado de que a aceleração da inflação deverá trazer fortes impactos às construtoras de imóveis residenciais. A consultoria avalia, no entanto, que a inflação percebida pelas empresas do setor nos custos de construção está em linha com o cenário de alta de preços traçado para o Brasil - um aumento em 2008, mas a volta para a meta definida pelo Banco Central no ano seguinte.
A BullTick chama a atenção, ainda, para o fato de muitas empresas estarem protegidas contra as pressões de custos da matéria-prima pelo Índice Nacional de Construção Civil (INCC), indexador usado nos contratos durante a construção.
A performance ruim das ações das construtoras parece estar ligada à percepção dos investidores de que as maiores taxas de juros podem prejudicar significativamente a demanda por imóveis, destaca o relatório da consultoria. "Os juros dos financiamentos imobiliários têm uma pequena correlação com a taxa Selic, dado o fato de que eles são financiados ou pelo FGTS ou pela caderneta de poupança", alerta o texto da consultoria.
Mas, a consultoria ressalta que, mesmo considerando os recentes aumentos, os juros reais no Brasil estão em níveis historicamente baixos. A elevação da Selic deve fazer o crescimento econômico desacelerar, mas nada que afete a estabilidade. Além disso, a queda recorde da taxa de desemprego e o aumento de renda da população devem se manter. "Em nosso ponto de vista, está claro que monitorar a confiança do consumidor e o desemprego é muito mais relevante do que acompanhar a trajetória da taxa de juros." E continua: "Enquanto as parcelas mensais do financiamento couberem no orçamento dos consumidores, o mercado imobiliário deve se manter forte no Brasil."
A BullTick destaca, ainda, que a euforia criada com a onda de aberturas de capital (IPO, na sigla em inglês) do setor imobiliário pode ter trazido excessos na estimativa dos valores das empresas. A euforia fez com que as ações de muitas das empresas que foram a mercado, em cujas ofertas o investidor estrangeiro teve relevante participação, sofressem forte queda quando a crise começou a ficar pior.