Título: Intercâmbio necessário
Autor: Nass , Luciano ; Lopes , Maurício
Fonte: Valor Econômico, 19/08/2008, Opinião, p. A9

Todos os dias as pessoas sentam-se à mesa para suas refeições sem ter a mínima idéia da origem dos alimentos que estão consumindo. Imaginemos um café da manhã com suco de laranja, banana, mamão, café, pão e geléia de morango. Afinal, qual a origem desses alimentos? Há quem aposte no Brasil, pois eles são encontrados nas quitandas, padarias ou supermercados. Entretanto, nada do suposto desjejum é nativo do Brasil. Laranja, banana e trigo são oriundos do continente asiático; mamão do norte do continente americano; o "nosso" apreciado café tem berço africano e o delicioso morango no continente europeu.

O que dizer, então, dos principais cultivos que o Brasil produz, exporta e que, felizmente, vêm sustentando a nossa economia? Vale lembrar que, há tempos, o agronegócio brasileiro tem contribuído decisivamente na composição do PIB nacional (30%, em média). Recorde se tornou palavra corrente nos últimos 10 anos, quando o país consolidou sua posição de grande produtor e exportador de diversos produtos, como café, açúcar, suco de laranja, soja e seus derivados. Talvez o espanto aumente, pois os principais produtos da nossa pauta de exportações também não têm origem no território brasileiro. O café surgiu na Etiópia, a cana-de-açúcar e a laranja na Índia, e a soja na China. Mas, afinal, temos alguma espécie genuinamente nacional? Certamente, são nossos representantes a seringueira, o guaraná, o cacau, o caju, o abacaxi, a mandioca e a castanha-do-Brasil. Temos também parentes silvestres das espécies cultivadas de amendoim, algodão e pimentas.

Apenas 15 espécies vegetais são responsáveis por 90% da dieta consumida pela população mundial (arroz, banana, batata, batata doce, beterraba açucareira, cana-de-açúcar, centeio, cevada, feijão, coco, mandioca, milho, soja, tomate e trigo). Somente o arroz, a batata, o milho e o trigo representam 60% desse total e são a base da alimentação humana.

A agricultura brasileira é fortemente dependente de recursos genéticos procedentes de outras partes do mundo. Recursos genéticos são os componentes da biodiversidade que têm valor atual ou potencial para a humanidade, e podemos afirmar que nenhum país do mundo é auto-suficiente em tais recursos. Esta dependência persistirá no futuro, pois a pesquisa sempre demandará materiais genéticos portadores de novas características adaptativas, tais como resistência a pragas e doenças, tolerância à seca e adaptação às condições adversas do ambiente, especialmente importante frente às alterações climáticas que estamos vivenciando.

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Embora o Brasil possua uma das maiores diversidades biológicas do planeta, o país é extremamente dependente de materiais genéticos (germoplasma) externos. A agricultura brasileira jamais progrediria sem a importação sistemática e crescente desses recursos genéticos para produção de alimentos, fibras e energia.

Desde a sua fundação, há 35 anos, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) operou um sistema de intercâmbio e quarentena de germoplasma que movimentou mais de 500 mil amostras de diferentes espécies vegetais. Este sistema alimenta mais de 150 bancos ativos de germoplasma vegetal, com um acervo de 270 mil amostras, dando suporte aos programas de melhoramento genético públicos e privados, desenvolvidos no país. Em Brasília, na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, situa-se a coleção de base, destinada a preservar as amostras em longo prazo. Esta estrutura conta com temperatura (-18° C) controlada 365 dias do ano. Em 2007, a coleção superou a marca de 100 mil amostras, com mais de 200 gêneros e 660 espécies vegetais distintas, fato que a tornou o 7º maior repositório mundial.

Historicamente, os Estados Unidos têm sido o nosso maior fornecedor de amostras. Em 2007, por meio de um Acordo de Cooperação entre a Embrapa e o Serviço de Pesquisa Agrícola (ARS) americano, os EUA realizaram novas contribuições para a pesquisa nacional, enviando suas coleções completas de arroz (17 mil amostras) e soja (23 mil). Em 2008, chegarão mais 10 mil amostras de diversas espécies. Isto aumentará nossa coleção em cerca de 50 mil novos acessos e fará do Brasil o quarto maior acervo do mundo, ficando apenas atrás dos EUA (500 mil), China (390 mil) e Alemanha (160 mil).

É fundamental que se compreenda que as atividades de melhoramento genético no Brasil continuarão sendo altamente dependentes dos materiais mantidos nos bancos de germoplasma, que são insumos críticos para o contínuo desenvolvimento do agronegócio nacional. O país necessita de políticas públicas que protejam o seu próprio patrimônio genético, porém é extremamente importante que se amplie o intercâmbio com outros países, garantindo ao Brasil capacidade de acessar e se beneficiar de variabilidade genética exótica, bem como de avanços obtidos em âmbito internacional na pesquisa em recursos genéticos.

Os desafios e as oportunidades que se descortinam para os setores agroalimentar e agroindustrial do país nos permitem afirmar, sem chance de errar, que em se tratando de recursos genéticos para alimentação e agricultura, intercambiar é preciso.

Luciano Nass é pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia desde 1989 e atualmente está na Embrapa Labex-USA Recursos Genéticos, no National Center for Genetic Resources Preservation (NCGRP, ARS/USDA).

Maurício Lopes é pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e atua na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).