Título: PIB extraviado
Autor: Machado, Antonio
Fonte: Correio Braziliense, 04/03/2011, Economia, p. 13

Economia cresce 7,5% em 2010, e já encolhe para repor a prioridade do investimento sem desarranjos

Tão antecipado quanto filme vencedor do Oscar, o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010, divulgado pelo IBGE, não desapontou os prognósticos. Como previsto, a economia cresceu 7,5% em relação a 2009, superando a recessão naquele ano, quando o PIB recuou 0,6% devido à crise global. No biênio, o crescimento médio foi de 3,5%.

A crise foi enfrentada com expansão de gasto público, desoneração seletiva de impostos na produção e afrouxamento geral do crédito. Deu certo, especialmente ao evitar que a recessão abrisse um vazio entre o ciclo de investimento, que começava a ganhar tração quando Wall Street afundou em setembro de 2008, e a confiança empresarial e dos investidores num horizonte sem desarranjo da economia.

De todas as providências contra a recessão, a mais responsável, e que produzirá efeitos positivos para além de uma geração, foi a de sustentar os investimentos. Fez-se isso com empréstimos do Tesouro ao BNDES, única instância de financiamento de longo prazo (para lá de cinco anos) e com custo financeiro permissível à taxa média de retorno da maioria dos projetos de expansão industrial e de infraestrutura. O BNDES recebeu, em 2009 e 2010, R$ 180 bilhões.

Tais aportes complementam o financiamento externo (que desabou em 2009 pela aversão global ao risco), a capitalização pela venda de ações (que também murchou pela crise) e a geração de caixa ¿ item mais relevante, equivalente à poupança corporativa, para o funding dos programas de investimentos das empresas privadas e estatais.

Fornido pelo Tesouro, o BNDES supriu as lacunas do financiamento privado e do mercado de capitais abertas pela crise. E as ações de incentivo ao consumo garantiram a geração de caixa das empresas. O governo fez o que devia fazer, mas faltou equilíbrio a tais ações.

Em termos de indução à demanda, investimento e consumo são apenas gastos. A diferença entre um e outro é que o consumo, em sentido lato, sustenta a atividade corrente, enquanto o investimento acena para o aumento da oferta de serviços de infraestrutura (energia, transportes, educação, sim, educação etc.) e bens industriais.

Num país com escassez de necessidades básicas, anseios de grande parte da população por bens de consumo e uma base produtiva menor que a demanda desejada pela sociedade, o consumo, deixado solto, dispara à frente do investimento, esburacando as contas externas com importações e premindo a inflação. Foi isso que modelou 2011.

Estado subiu à cabeça Passado o susto devido à crise no fim de 2008, a política assumiu o comando da economia no governo. No princípio, para evitar que o país afundasse na recessão, que de fato foi branda em 2009. O mau passo veio com a constatação de que a crise se devera aos mercados desregulados, sobretudo a atividade financeira nos EUA, salvos com intervenções maciças de fundos públicos. O Estado subiu à cabeça.

A elite desenvolvimentista do governo sofreu um racha. Uma parte deu os argumentos aos políticos para gastar no que fosse. A outra ficou rouca de avisar que a lógica era o investimento, não o gasto corrente do governo, sobretudo o gasto incompressível em lei, como salários do setor público. Nesse debate, todos foram atendidos. E a inflação, deficits externos e o Banco Central voltaram à cena.

O recuo para avançar Essa é a história que se lê no mapa dos componentes do PIB do ano passado. Pela ótica da demanda, o consumo das famílias cresceu 7% sobre 2009, sétimo ano seguido em expansão; o consumo do governo aumentou 3,3%; e os investimentos avançaram 21,9%. A contribuição externa para o aumento de 7,5% do PIB foi pequena: as exportações cresceram 11,5%, mas as importações aumentaram muito mais, 36,2%.

É essa distribuição entre os fatores de crescimento do PIB que a política econômica começa a mudar. E já começou. O PIB no último trimestre, embora superior à medida trimestral anterior (0,7% e 0,4%, respectivamente), correu abaixo de seu ritmo potencial ¿ a medida estimada para o crescimento sem desequilíbrios, número que a consultoria LCA avalia em 1,1% por trimestre ou 4,5% ao ano.

Atenção às sutilezas Por ora, só se veem a progressão da Selic, aumentada para 11,75%, a restrição do crédito ao consumo e o corte de gasto público. Ao se atentar mais para as ações do governo, nota-se uma intenção de alcance maior sobre o gasto fiscal, visando desbloquear o caminho do investimento. É nesse contexto que o Tesouro fará outro aporte ao BNDES, de R$ 55 bilhões ¿ o mínimo para manter seu programa de financiamento, mas 14% abaixo do liberado em 2010, para não inflar a demanda agregada. Ou se faz assim ou a economia capota.

Mudando sem anunciar O formulador de políticas públicas nem sempre confessa tudo o que pretende, normalmente por razões políticas. O que se deve atentar com o apoio renovado ao investimento, embora restrito ¿ em 2009, as liberações do BNDES cresceram 50%; em 2010, 23%; e neste ano devem recuar 14% ¿, é a preocupação em calibrar as ações para retornar a inflação à meta anual (4,5%) lá para 2012, com o crescimento do PIB não abaixo de 4% agora em 2011. O reforço ao investimento, mas sem agregar-se à demanda, tem sintonia com as ações do BC e sinaliza a entrada da questão da poupança nacional ¿ sinônimo de investimento na macroeconomia ¿ na agenda de prioridades. Ela pilota a dimensão dos juros e dos deficits. A conferir, se é intenção ou realidade.