Título: Crise de confiança nos bancos globais continua
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 21/08/2008, Opinião, p. A12
Boatos de quebra de bancos ainda persistentes são o sintoma mais claro de que a crise iniciada com o setor periférico das hipotecas americanas continua a se aprofundar. As bolsas mundiais colecionam seqüência memorável de quedas e, o que é o pior, a inflação não dá sinais de descanso. Algumas das principais economias do mundo - União Européia e Japão - caminham para uma recessão.
De todos os fatores que se alinham para configurar tempos difíceis para os mercados, os mais preocupantes dizem respeito à saúde das instituições financeiras. Depois que o Bear Stearns, o quinto maior banco global, foi à lona e transferido ao JP Morgan Chase por US$ 2,1 bilhões - com ajuda de US$ 30 bilhões do Federal Reserve, que ficou com uma carteira toda recheada de títulos considerados imprestáveis - , o Lehman Brothers tornou-se a bola da vez. Desde o começo do ano passado até agora suas ações declinaram 87% e seu valor de mercado hoje é de apenas US$ 9,4 bilhões - um quinto do que valem os brasileiros Bradesco ou Itaú.
As estripulias irresponsáveis com o subprime podem ter sido o canto de cisne do modelo bancário que serviu para alavancar anos seguidos de crescimento global com crédito abundante e barato. Para alguns analistas, os bancos de investimento ocuparam parte das funções dos bancos comerciais, como a de captar e emprestar recursos, utilizando-se de uma alavancagem crescente à medida que os riscos aparentes diminuíam e as taxas de juros estacionavam nos mais baixos níveis em 50 anos. A criatividade desses bancos foi tão grande que eles chegaram a conceber o instrumento financeiro definitivo, inacreditáveis "veículos" e obrigações securitizados com uma tal mistura de débitos que na hora H ninguém no mercado conseguiu, para usar o jargão, "precificá-los", quanto menos saber quem carregava que tipo de risco.
A derrocada do Bear Stearns foi emblemática, pois quando as perdas começaram a se acumular não havia como arregimentar capital para deter a sangria em tempo hábil. Este pode ser também um problema grave para bancos comerciais, mas de menor magnitude. Há quem especule que não sobrarão muitos bancos de investimentos da atual tropa de elite que inundou o mundo de instrumentos de crédito e que de 2000 a 2006 emitiram US$ 3 trilhões desses papéis - multiplicando por doze o estoque original. Uma das previsões é de que eles serão engolidos pelas grandes instituições de varejo.
Com o grau de desconfiança alto e generalizado entre os bancos, os mercados de crédito internacionais estão sendo alimentados, em última instância, pela garantia de liquidez dada pelos bancos centrais, em primeiro lugar o Fed, que está no epicentro da crise, e, depois, pelo Banco Central Europeu, que não está muito distante dele. Leilões de dinheiro com garantias menos confiáveis que as exigidas em "tempos de paz" tornaram-se parte da paisagem normal em que se movem as instituições financeiras. A taxa dos seguros de proteção contra defaults não apresenta permanente tendência de queda, o que indica que os empréstimos interbancários, que asseguram a fluidez do dinheiro, não estão funcionando a contento.
A crise do crédito, então, é uma das causas de da desaceleração econômica, que, por sua vez, pode trazer mais e maiores problemas para os bancos. A economia americana tem sido bastante resistente à recessão, embora, com o estouro da bolha imobiliária e a inflação cada vez mais alta, qualquer índice acima de zero para o PIB do país poderia ser considerado um bom desempenho. Mas as coisas pioraram substancialmente na zona do euro, que apresentou queda nas atividades econômicas pela primeira vez desde que a nova moeda foi lançada. O Japão vai pelo mesmo caminho.
Com bancos sólidos, o Brasil tem sentido o efeito da crise pela derrocada das bolsas, queda das commodities e fuga de investidores em portfólio. Um quarto efeito se intensificará em breve - EUA e UE, destino de cerca de 40% das exportações brasileiras, perderam o apetite comprador. Os saldos comerciais continuarão declinando em uma velocidade que depende igualmente da desaceleração argentina e dos países emergentes em geral.