Título: IGP-M tem deflação com tombo dos agropecuários
Autor: Lamucci , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 28/08/2008, Brasil, p. A6

Com o tombo dos preços agropecuários no atacado e dos alimentos no varejo, o Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M) de agosto teve deflação de 0,32%, a primeira variação negativa desde abril de 2006. O número ficou abaixo do cerca de 0,2% esperado pelo mercado e do 1,76% do mês anterior. O resultado foi bem recebido pelos analistas, que não acreditam, porém, em deflações nos próximos meses. A questão é que o comportamento dos preços industriais no atacado ainda não é dos mais benignos. O

IGP-M acumula alta de 8,35% no ano e de 13,63% em 12 meses.

Depois da subir 3,69% em julho, as cotações agropecuárias no atacado tiveram queda de 4,81% no IGP-M de agosto. "A queda de preços das commodities como soja, milho e trigo, iniciada em meados de julho, se aliou à estabilidade nos preços de bovinos e no bons resultados dos produtos in natura, como o tomate", diz o economista Luís Fernando Azevedo, da Rosenberg & Associados. A soja recuou 13,32%, o milho, 11,46%, e o trigo, 14,48%. Os preços dos bovinos, por sua vez, caíram 0,68%, depois de terem subido 7,59% em julho. As cotações do tomate despencaram, fechando o mês em baixa de 30,66%.

Os preços industriais no atacado mostraram uma desaceleração forte em relação ao 1,63% do mês anterior, mas mesmo assim tiveram uma alta considerável, de 0,87%. Azevedo destaca como um dos pontos positivos o comportamento do grupo óleos e gorduras vegetais, que saiu de uma alta de 3,17% para uma queda de 10,14%. A questão é que ainda houve altas significativas, como a de 14,08% do aço semi-acabado ao carbono.

O economista Fábio Romão, da LCA Consultores, diz que a "descompressão dos preços industriais é bem mais lenta" do que a dos agropecuários. "As cadeias metalúrgica e siderúrgica continuam a repassar aos seus preços o expressivo encarecimento do aço observado na primeira metade do ano." Romão ressalta o comportamento do núcleo do atacado industrial, que exclui combustíveis e produtos alimentares. O indicador subiu 1,41% em julho e 1,28% em agosto, alta ainda salgada.

Segundo relatório do Credit Suisse, a inflação permaneceu elevada no atacado industrial, "pressionada pela forte alta dos preços dos produtos industriais intermediários, como os derivados de petróleo, produtos químicos e de metalurgia básica". Os economistas do banco notam ainda que "a inflação de bens industriais finais segue em elevação nos últimos meses, movimento que tende a repercutir nos preços industriais ao consumidor no curto prazo".

O Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que responde por 30% do IGP-M, teve alta de 0,23%, uma desaceleração significativa em relação ao 0,65% de julho. O grande destaque foi o grupo alimentação, com deflação de 0,46% - em julho, houve aumento de 1,41%. "A desaceleração no IPC só não foi maior porque o grupo habitação subiu de 0,39% para 0,82%", diz Azevedo, notando que a tarifa de eletricidade residencial e o telefone residencial causaram a alta. Com peso de 10% no IGP-M, o Índice Nacional do Custo da Construção (INCC) teve alta de 1,27% em agosto. Com a demanda aquecida, o grupo material e serviços subiu 2,18%. O aço teve aumento de 10,33%.

Azevedo considera improvável que haja novas deflações do IGP-M nos próximos meses. "A desaceleração dos preços foi concentrada exatamente no período de coleta do indicador deste mês, entre 21 de julho e 20 de agosto. Os preços das commodities já mostraram alguma recuperação nos últimos dias e é possível que haja alguma alta dos alimentos in natura", afirma ele, que aposta num aumento de 0,3% a 0,4% do IGP-M em setembro. Romão, por sua vez, acredita num indicador de 0,25% no mês que vem. Ele reviu a sua previsão para o IGP-M no ano de 11,1% para 10,6%, estimativa que embute ainda um aumento dos combustíveis em novembro. Mesmo com esse alívio inflacionário, ele acredita que o Banco Central (BC) deve elevar a taxa Selic em 0,75 ponto percentual na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de setembro. Para os dois encontros restantes, ele aposta em aumentos de 0,5 ponto em cada uma, levando a Selic para 14,75% em dezembro.