Título: Queda de preço adia consolidação
Autor: Vieira , Catherine
Fonte: Valor Econômico, 28/08/2008, EU & Investimentos, p. D1

Apesar da entressafra no mercado de captações por meio de emissões de ações, a expectativa de que o alto preço pago nessas operações voltasse aos níveis do momento de euforia que houve em 2007 acabou atrasando também operações de fundos de investimento em participações ou mesmo consolidações entre companhias que abriram capital recentemente. Empresas de setores como construção civil, educação e saúde que ainda estão com os recursos das captações em caixa sustentam o movimento de compra de empresas fechadas de menor porte. Mas a medida em que esses recursos vão escasseando, era esperada a entrada em cena de operações entre aquelas que já são abertas ou mesmo de fundos de participações com empresas que desistiram de ofertar ações.

Executivos que acompanham esse mercado avaliam que as empresas, tanto as abertas quanto as que planejavam seguir essa trilha, ainda têm em mente os altos valores que foram obtidos pelas novatas na estréia em bolsa. E resistem a fazer negócio por preços que hoje, em muitos dos casos, podem significar até menos da metade do que foi apurado durante o "boom" do ano passado. Vale lembrar que algumas dessas companhias também fizeram ofertas secundárias no momento inicial, ou seja, os acionistas embolsaram dinheiro vendendo um pedaço da empresa aos investidores - e esses números ainda pairam como parâmetro.

Operações como a compra da Agra pela Cyrela e a fusão entre Datasul e Totvs eram esperadas, mesmo em outros setores, mas os especialistas ainda não vislumbram isso no curto prazo. "A euforia que houve em 2007 com uma série de ofertas públicas iniciais ainda faz os controladores resistirem a vender no valor de hoje, que muitas vezes é metade do que era antes", diz um executivo de uma firma especializada nessas transações.

Para Carlos Miranda, sócio da Ernst & Young na área de fusões e aquisições, os grandes negócios entre companhias abertas não ocorreram ainda na velocidade imaginada por duas razões. A primeira é que não houve grandes distorções no mercado. Ele lembra que a queda dos papéis foi generalizada e o ambiente ideal é o de correções pontuais, em que uma companhia está bastante valorizada, enquanto a outra, pouco. Um segundo ponto é que, no setor de construção civil, no qual se apostava muito, uma questão começa a aparecer: as companhias estão concentradas em administrar a carteira de terrenos que possuem e as expectativas lançadas.

O sócio da KPMG na área de fusões e aquisições Luís Motta discorda que o movimento de consolidações não esteja ocorrendo. "As companhias que se listaram e captaram recursos continuam fazendo muitas aquisições e isso é um movimento de consolidação", diz. Para ele, as operações entre as companhias que já estão no mercado de capitais ocorrem num segundo momento, depois que essa outra rodada de compra das fechadas escasseia. "Se houve queda generalizada no mercado, isso não impediria, por exemplo, uma operação de troca de ações", opina.

Para o executivo da KPMG, o momento de turbulência e de queda dos ativos denota na verdade um aumento da percepção de risco e isso, sim, faz os recursos disponíveis se retraírem, o que pode prejudicar as operações. No segundo trimestre, segundo o monitoramento da KPMG, houve uma retração das fusões e aquisições: foram 168, contra 182 no mesmo período de 2007. "Mas este ano ainda está com bom movimento. O que pode ficar mais difícil é bater 2007, que foi excepcional", diz Motta.

Já Patrice Etlin, executivo da empresa de fundos de participações Advent International, conta que a expectativa dos valores que foram apurados nas ofertas de ações gerou, de fato, grandes embates em torno do valor das negociações. "Ainda havia aquela esperança de que o mercado iria melhorar, mas agora está se realizando o fato de que houve mesmo uma mudança de patamar nos preços."

Etlin explica que o fundo costumava ter como parâmetros médios de valor do ativo algo como sete ou oito vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (lajida), sendo que, no auge da euforia, operações saíram pelo dobro disso. "Hoje, já vemos múltiplos abaixo da nossa média." Em operações entre companhias abertas, ele avalia que a questão não se restringe a números. Isso porque a maioria das novatas está no Novo Mercado e possui as chamadas 'pílulas de veneno'. "Elas dificultam bastante algumas operações."

Outro complicador, dizem os especialistas, é a pouca cultura de mercado de capitais de muitas das novatas. A maioria é empresa familiar, cujos donos resistem à idéia de se desfazer do ativo ou mesmo compartilhar o poder com alguém do mesmo tamanho, e não apenas com os minoritários.

Para o presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), Luiz Eugênio Figueiredo, porém, é uma questão de tempo para que esses múltiplos da euforia do mercado de ofertas comecem a ser entendidos pelos empresários como uma realidade que ficou para trás. "Leva um tempo, mas isso acabará ocorrendo e abrindo espaço para os fundos de participações e as fusões e aquisições." Para outro especialista, as empresas que tiverem menos fôlego financeiro devem acabar cedendo aos preços menores.