Título: Sem vacilo com a inflação
Autor: Cotias , Adriana
Fonte: Valor Econômico, 27/08/2008, EU & Ivestimentos, p. D1
O investidor não titubeou e, ao menor sinal de que o fantasma inflacionário voltou a rondar as gôndolas dos supermercados e o valor dos serviços, destinou parte das economias para papéis federais atrelados ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Essa é a fotografia revelada nas estatísticas mais recentes do Tesouro Direto. Até julho, foram vendidos pelo sistema de negociação de títulos públicos pela internet R$ 235,3 milhões em Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B), 40% mais do que o observado no mesmo intervalo de 2007. Só no mês passado, esses papéis responderam por 41% do total.
Mas, com os sinais de arrefecimento dos indicadores de custo de vida e das projeções do mercado, a percepção é de que o melhor momento para indexar investimentos pode ter ficado para trás. Para estratégias de diversificação de longo prazo, porém, esses títulos ainda mantêm a atratividade. Há, por exemplo, títulos com vencimento em 2010 pagando retorno de mais de 9% ao ano mais IPCA.
No boletim Focus do Banco Central (BC) de segunda-feira, a média das estimativas do mercado apontava um IPCA em 6,34% em 2008 e de 5% no ano que vem. Há quatro semanas, as projeções eram de que o IPCA, referencial do sistema de metas brasileiro chegaria a 6,58% em dezembro, com os mesmos 5% para 2009. O que mudou de lá para cá foi a divulgação do IPCA de julho, no início do mês, de 0,53%, uma desaceleração sensível em relação ao de junho, de 0,74%. O IPCA-15, que mede um período diferente e serve de prévia para o índice mensal, assinalou alta de 0,35% em agosto, para 0,63% em julho.
"Os índices vão continuar cedendo, mas a impressão que se tem é que daqui por diante o BC vai olhar mais para outros dados, como a atividade industrial, do que para a própria inflação", diz o gerente de private banking do Banco Fator Walter Ferreira. Para ele, o Comitê de Política Monetária (Copom) pretende observar se os indicadores estão recuando em resposta à alta dos juros ou se refletem também o desaquecimento econômico e a desvalorização das commodities. "Não sei se é o momento exato para comprar títulos de IPCA, o grande 'boom' inflacionário já foi." A grande demanda por esses títulos em meio à ameaça de perda de poder aquisitivo, acrescenta, se justifica pela memória inflacionária que ainda reside na cultura do brasileiro, que viveu os anos de instabilidade da economia na fase pré-Plano Real.
As NTN-B são um instrumento interessante de proteção monetária, mas têm de ser encaradas como alternativas de médio e longo prazo porque, no intervalo até o vencimento, esses papéis estão sujeitos até à perda do principal, diz o gerente de renda fixa da Unibanco Asset Management (UAM), Paulo Certain. "Quando o investidor adquire um título indexado, ele não está comprando só a inflação e sim o IPCA mais uma taxa pré", explica. Isso quer dizer que, no curto prazo, o preço do título pode subir caso o juro caia e cair se o juro subir. "Como esses títulos têm, em geral, maturidade longa, qualquer mudança de percepção que mexa com o cupom (o juro nominal além da inflação) de quatro ou cinco anos - se sai de 8% para 7%, por exemplo - vai aparecer no valor presente do título."
Foi exatamente o que se constatou no mês passado, quando o Copom apertou o passo nos ajustes da Selic, impondo um aumento de 0,75 ponto percentual à taxa básica, para 13% ao ano, ante a dosagem de 0,50 ponto percentual adotada nos dois encontros anteriores. "Ao aumentar o ritmo das elevações, o BC mostrou que estará vigilante, que não vai permitir que os preços saiam do controle e isso desinchou a inflação implícita nos papéis", diz Certain.
Por conta disso, todas as NTN-B negociadas no Tesouro Direto com vencimento a partir de 2015 tiveram desvalorização em julho. Os maiores prejuízos foram no vencimento de 2045 (-1,63%) e na NTN-B Principal (que não paga cupom semestral) com resgate em 2015 (-1,13%), uma das mais demandadas pela pessoa física.
Os papéis indexados são indicados principalmente para aquele perfil que pensa numa reserva de longo prazo, como a aposentadoria, sugere o operador de Renda Fixa da Ativa Corretora, Fernando Marques. Ele cita que há uma corrente de analistas que acredita que o retorno recente da inflação para níveis mais confortáveis é apenas um respiro, e que o índice pode voltar a assustar nos próximos meses. "Nesse cenário, as NTN-B mantêm a atratividade." Conforme exemplifica, o papel com vencimento em 15 de agosto de 2010 garantia ontem um retorno anual de 9,17%, o que, somado a uma inflação na casa dos 5%, daria uma rentabilidade total de mais de 14%. A NTN-B Principal com resgate em 2015 pagava 7,81%, enquanto a NTN-B Principal de 2024, 6,87%.