Título: BC resgata US$ 17,2 bilhões das reservas em bancos estrangeiros
Autor: Ribeiro, Alex
Fonte: Valor Econômico, 03/09/2008, Finanças, p. C1

O Banco Central resgatou US$ 17,202 bilhões em depósitos feitos em instituições financeiras estrangeiras, como forma de evitar perdas nas reservas internacionais em um ambiente de fragilidade do sistema financeiro mundial. O dinheiro foi redirecionado para aplicações em títulos públicos de economias desenvolvidas.

Segundo o BC, os depósitos em bancos estrangeiros somavam US$ 20,104 bilhões em junho de 2007, pouco antes do estouro da crise do mercado imobiliário americano, em agosto daquele ano. De lá para cá, o saldo foi gradualmente reduzido, chegando a US$ 2,902 bilhões em julho.

Os depósitos representavam 13,7% das reservas em junho de 2007. Esse percentual havia sido reduzido para apenas 1,5% das reservas em julho de 2008. Mesmo antes da crise, esses depósitos já vinham perdendo espaço. Em dezembro de 2004, eles representavam 39% das reservas.

O BC afirma, em nota publicada em seu balanço de junho, que reduziu os depósitos em bancos "por medida prudencial e temporária, motivada pelo cenário internacional de crise de crédito". A autoridade monetária diz ainda que os recursos foram redirecionados a aplicações em títulos públicos, seja na compra definitiva desses papéis ou empréstimos garantidos por eles.

O economista Roberto Padovani, do Banco WestLB, lembra que o BC mantém a política de investir em ativos de baixíssimo risco. "Durante a crise, vários bancos foram rebaixados, e provavelmente o BC teve que rearranjar sua carteira", afirma.

"É curioso que a situação tenha se invertido, com o Brasil sacando recursos depositados em bancos estrangeiros, e não o contrário, como historicamente acontecia", diz o economista Carlos Eduardo de Freitas, que foi diretor da Área Internacional do BC na década de 1980, quando o país enfrentou várias crises do balanço de pagamentos. "Estamos vivendo a experiência de ser o Bill Rodhes, só que numa posição contrária", disse, referindo-se a William Rodhes, ex-presidente do Citibank, maior credor do Brasil naqueles períodos turbulentos e coordenador do comitê dos bancos na renegociação da dívida.

Pelo dado mais recente, referente à posição de segunda-feira, as reservas se encontravam em US$ 205,200 bilhões. Em julho, última informação disponível sobre os tipos de aplicação das reservas, 90,7% dos recursos estavam em títulos públicos. O BC não informa o emissor dos papéis, mas sabe-se que são majoritariamente dos Estados Unidos. Naquela data, 7,2% das reservas estavam aplicadas em operações compromissadas, empréstimos de curtíssimo prazo garantidos por títulos públicos.

Os depósitos em bancos respondiam por 1,5% das reservas. As aplicações em ouro, 0,5%, com US$ 992 milhões em investimentos - apesar de, nos últimos meses, esse tipo de aplicação ter ganho visibilidade, na medida em que cresciam as incertezas sobre a economia americana e sobre o dólar, ainda a maior reserva de valor do mundo.

O fato de o BC brasileiro ter privilegiado as aplicações em títulos do Tesouro americano, porém, não elimina todos os riscos. Nos últimos meses, as cotações dos papéis do governo americano têm registrado altas e baixas, provocando também oscilações nas reservas brasileiras.

Em janeiro passado, o BC registrou um ganho de US$ 4,012 bilhões. Os papéis americanos se valorizaram porque, em meio ao acirramento da crise bancária americana, investidores sacaram recursos aplicados em investimentos de maior risco e compraram títulos do Tesouro dos EUA. Em abril, aconteceu o contrário: as reservas tiveram perda de US$ 4,022 bilhões, desta vez porque a crise perdeu fôlego e os investidores tiraram recursos aplicados em títulos americanos (que se desvalorizaram) e redirecionaram o dinheiro para ativos mais arriscados.

Freitas diz que a economia mundial vive um período de transição: de um lado, as economias emergentes acumulam reservas e ganham importância como investidores; de outro, os países desenvolvidos, que sempre foram o porto seguro para as aplicações das reservas, tornaram-se mais instáveis. "Não sabemos ainda se as mudanças vieram para ficar", observa Freitas. "Mas administrar as reservas internacionais se tornou uma tarefa mais complicada."

Com crescentes volumes de reservas, diz Padovani, os países em desenvolvimento passaram a assumir um pouco mais de risco na aplicação de suas reservas. "A crise internacional chegou no meio desse processo, e os países emergentes tiveram que reavaliar suas estratégias." No ano passado, o Brasil também anunciou sua intenção de diversificar a aplicação de reservas, assumindo um pouco mais de riscos. A idéia era investir em ativos de baixíssimo risco com prazos mais longos. Em junho, 8,5% dos investimentos em títulos estavam vinculados a operações compromissadas, de curtíssimo prazo; 2,5% eram em títulos com até 1 ano; 74% em títulos com prazo entre 1 e 5 anos; e 14,7% em papéis com prazo maior que 5 anos.

O BC também anunciou, em 2007, que iria investir mais em ativos denominados em outras moedas que não o dólar - o euro, por exemplo. O BC não divulga em que tipo de moeda investe as reservas. Mas sabe-se que, até então, as aplicações eram majoritariamente em dólares porque refletiam a composição da dívida externa pública, que também era concentrada na moeda americana.