Título: IGP-DI de agosto mostra deflação, mas preços industriais preocupam
Autor: Bouças, Cibelle
Fonte: Valor Econômico, 09/09/2008, Brasil, p. A6
A retração nos preços de produtos agrícolas possibilitou que o Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) encerrasse o mês de agosto com deflação de 0,38%, após a alta de 1,12% em julho, informou a Fundação Getúlio Vargas (FGV). A taxa negativa é a primeira obtida desde março de 2006, quando houve deflação de 0,45%. Para analistas, no entanto, alguns fatores ainda merecem atenção. O núcleo da inflação industrial aumentou; no varejo, à exclusão de alimentos, todos os grupos tiveram altas mais fortes e a perspectiva para os próximos meses é de quedas menos intensas em produtos agrícolas, o que fará o IGP voltar a ter taxas positivas.
Em agosto, o Índice de Preços por Atacado (IPA) registrou variação negativa de 0,8%, após haver subido 1,28% em julho. O índice resultou da deflação de 5,09% nos grupo de produtos agropecuários, destacando-se soja (-12,39%), milho (-12,52%) e tomate (-50,19%). O grupo de produtos industriais, por sua vez, subiu 0,86%, abaixo do 1,34% registrado em julho. Houve piora, no entanto, no núcleo do IPA industrial. Cálculo da LCA Consultores, que exclui do IPA produtos combustíveis e produtos alimentares aponta elevação do núcleo do IPA para 1,6% em agosto, ante 1,26% em julho.
"Quase toda a descompressão de preços no atacado veio de alimentos e combustíveis", resumiu o economista da LCA Fábio Romão. Entre os produtos finais, a redução do índice deveu-se à queda em alimentos processados e combustíveis. Itens da siderurgia e da indústria química, como aço semi-acabado (14,08%) vergalhão (15,12%) e etileno (13,15%) registraram aceleração em agosto, o que justificou a alta no núcleo do IPA. "Os preços industriais tendem a mostrar resultados mais modestos, mas o recuo será mais lento que o dos produtos agrícolas", disse Romão. Ainda segundo o economista, existe um risco de repasse dessas altas para o restante da cadeia. Ele estima para o IGP-M de setembro alta de 0,3% e para o IGP-DI do ano fechado, alta de 10,3%. De janeiro a agosto, o índice acumulou alta de 7,93% e, em 12 meses, de 12,8%.
O coordenador de análises econômicas da FGV, Salomão Quadros, ponderou que as altas dos itens de siderurgia, observados no IPA industrial, tendem a ser repassados ao longo das cadeias, mas seu efeito ficará restrito a bens de capital, bens duráveis e a produtos da construção civil, exercendo pouca influência sobre a inflação do varejo. "A pressão inflacionária está mais concentrada em produtos de siderurgia e químicos. Os demais apresentam um comportamento favorável", afirmou Quadros. Em agosto, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) registrou alta de 0,14%, ante 0,53% em julho. No ano, o IPC acumula alta de 4,54% e, em 12 meses, de 5,93%.
O economista da Tendências Consultoria Integrada Gian Barbosa não vê o quadro com tanto otimismo. Ele observou que a queda do grupo alimentação (com deflação de 0,71% ante alta de 0,83% em julho) permitiu que o núcleo do IPC tenha se mantido estável em 0,3%. Houve piora nos itens habitação (que passou de 0,59% para 0,72%), vestuário (que saiu de deflação de 0,54% para deflação de 0,23%), educação (de uma alta de 0,22% para 0,26%), transportes (0,19% para 0,21%) e despesas diversas (de 0,43% para 1,04%). "Os preços agrícolas e de alimentos trouxeram alívio em agosto, o que não deve se repetir em setembro", afirmou Barbosa, para quem o IGP-M neste mês terá alta de 0,25%. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) encerrou agosto com alta de 1,18%, ante 1,46% em julho.