Título: Relutante, Lula vai ao Chile hoje para cúpula da Unasul que discutirá crise
Autor: Bittar, Rosângela; Ulhôa, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 15/09/2008, Internacional, p. A11

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viaja hoje ao Chile, onde participará da reunião de emergência dos presidentes de países da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) para discutir a crise da Bolívia. A cúpula foi convocada no sábado pela presidente do Chile e da Unasul, Michelle Bachelet, que, segundo informação passadas ao governo brasileiro, fez muitos convites na região para que o debate seja amplo. O encontro será às 15h30, em Santiago, capital do Chile.

Lula embarca ao meio-dia, do Rio de Janeiro, onde passou o fim de semana. Antes de viajar, o presidente participa de cerimônia de inauguração do Centro Logístico Volkswagen Caminhões e Ônibus em Resende. Mas a agenda da tarde foi cancelada. Lula iria para o Paraná, participar da inauguração do projeto de expansão da unidade Klabin Monte Alegre. O presidente retorna a Brasília às 20h desta segunda-feira.

Em um primeiro momento, o presidente brasileiro pensou em não ir, por duvidar da eficácia de uma reunião como esta. Achou a proposta estranha, tudo ocorreu muito rapidamente, ao longo do dia de sábado, e precisou tomar decisões entre a manhã e a tarde. Lula considera este tipo de conversa, na América Latina, em situações de crise, bastante delicada e de poucos resultados. Não estava propenso a ir, ainda mais se tratando de Bolívia.

Se houvesse uma convocação, principalmente do próprio presidente boliviano Evo Morales, a sua reação seria outra. Mas a Bolívia não pediu que fosse feita a reunião. Pelo contrário, havia recusado, na semana passada, a visita dos representantes do Grupo de Amigos que lá iriam para tentar mediar o impasse. O Brasil estaria representado nessa missão pelo assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia e pelo secretário geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães.

Lula quer evitar qualquer tipo de iniciativa que pareça intervenção em assuntos internos da Bolívia. Morales enfrenta muitas dificuldades além da disputa com a oposição. Há divisão no governo, onde se digladiam uma ala mais radical, ligada a vários movimentos sociais, e uma ala mais pragmática. O presidente oscila entre os grupos. Lula percebeu que, ao aceitar e depois rejeitar a visita do Grupo de Amigos, Morales temeu aprofundar a divisão no governo e desajustar o precário equilíbrio obtido pelo menos na aparência.

Na avaliação do presidente brasileiro, esta reunião da Unasul não deixaria de ser uma interferência, tal qual foi vista a ajuda do Grupo de Amigos. Não seria possível saber, por antecipação, como as diferentes correntes bolivianas reagiriam às deliberações do encontro.

Com tantas dúvidas, o presidente determinou ao chanceler Celso Amorim que telefonasse a todos os participantes, para uma avaliação. À tarde decidiu comparecer.

Se Lula não fosse e os presidentes deliberassem soluções importantes para a Bolívia, sua liderança ficaria reduzida, o presidente ficaria mal também por não ter participado das discussões. O pior cenário, porém, seria o de não ir e a situação da Bolívia degringolar ainda mais nos próximos dias. Lula teria se recusado a contribuir para a busca de instrumentos que tornem a Bolívia mais estável.

O presidente ficou sem escolha: a não ser que fossem muito fortes os indícios de que a reunião seria infrutífera, não teria como não ir. Sua ausência poderia ser interpretada como tendo enfraquecido a reunião que pode levar a uma solução positiva para a Bolívia.