Título: Brasil financia gasoduto argentino
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 21/02/2005, Brasil, p. A2

Na recente viagem ao norte do continente sul-americano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez questão de reforçar duas mensagens sobre sua política externa. Uma delas bastante ingênua, a de que os governos de países pobres devem fazer política externa como quem comanda um sindicato, reunindo os companheiros para enfrentar com mais força o poder econômico. A outra mensagem, porém, é uma verdade que a atuação externa de Lula tem se encarregado de demonstrar na prática, contra todas as críticas: para fazer negócios na esfera internacional, um governo tem muito a ganhar se usar a política como ferramenta. Na quinta-feira, os governos do Brasil e da Argentina devem anunciar o financiamento de US$ 220 milhões do BNDES para ampliação do gasoduto da Transportadora de Gás del Sur (TGS), controlada pela Petrobras e pela Enron, que levará gás da Terra do Fogo à região central de Buienos Aires. As obras, parte das quais serão feitas pelas brasileiras Odebrecht e Camargo Corrêa, se destinam a enfrentar o risco de crise energética na Argentina, e demandaram negociações políticas com o governo Néstor Kirchner, para que a Argentina aceitasse incluir na operação garantias do Convênio de Crédito Recíproco (CCR), espécie de câmara de compensação entre bancos centrais que funciona na prática como garantia contra riscos cambiais, empresariais e o risco-país. A reativação do CCR no continente tem demandado um enorme esforço diplomático e providenciado a segurança exigida pelo BNDES para financiar obras nas vizinhanças - realizadas por empresas brasileiras. Antecederam ao anúncio na Argentina as exportações de serviços e mercadorias anunciadas na semana passada por Lula, em Caracas, Venezuela, para a hidrelétrica de La Vueltosa, a linha 3 do metrô de Caracas, e venda de colheitadeiras. Os acordos de "aliança estratégica" de Lula com o venezuelano Hugo Chávez abriram caminho para financiamentos de US$ 500 milhões em negócios da Embraer e quase US$ 100 milhões em serviços da Odebrecht no projeto de irrigação El Dilúvio. Na lista do BNDES e do Ministério do Desenvolvimento para as Américas estão ainda financiamentos para estradas na Bolívia, no Equador e no Peru. O governo peruano começará em maio a receber propostas para construção de uma estrada que atravessará o território e chegará aos portos para o Pacífico, para a qual, com o financiamento do BNDES, estarão fortemente credenciadas as empresas brasileiras. Essas oportunidades de negócios para companhias brasileiras no continente vão, aos poucos, integrando os mercados, consolidando uma estratégia adotada pelo governo Lula - defendida já pelo antecessor, Fernando Henrique Cardoso - de garantir a interligação da infra-estrutura como forma de fortalecer laços de comércio e associações de negócios no continente. Um aspecto pouco falado dessas operações garantidas com o cacife do BNDES é o efeito que trazem para os acordos comerciais entre os países da região e outros parceiros comerciais. Os interesses dos países desenvolvidos, na celebração de acordos de livre comércio, cada vez mais se dirigem às áreas de serviços e investimentos. São capítulos importantes na discussão da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e nos acordos firmados pelos Estados Unidos com os vizinhos do Brasil. Ao financiar a expansão das empresas brasileiras na região, o governo tem garantido que esses mercados não serão abandonados, para a concorrência externa. Discretamente, a "ajuda" brasileira aos vizinhos transforma a necessária política de boa vizinhança em alavanca para a presença internacional das companhias verde-amarelas.

Lula mostra a utilidade da política para os negócios

Só a política explica a presença de Lula, na semana passada, em dois dos países mais pobres do continente, a Guiana e o Suriname, com populações menores que uma cidade média brasileira e relações mais fortes com a comunidade do Caribe e as ex-metrópoles européias do que com o entorno na América do Sul. Eram os países que ainda não haviam recebido a visita do presidente brasileiro, na recém-criada (e ainda virtual) comunidade sul-americana das nações. Mas, à sombra da política, florescem negócios. No mais evidente, o governo aproveitou para oferecer uma cota de importação de arroz do Suriname em troca de redução de tarifas para produtos da Zona Franca de Manaus. Na Guiana, entre os executivos que acompanharam a caravana de Lula, estava o consultor da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única), Alfred Szwarc, que discutiu com o governo guianense as posisbilidades - pequenas - de colocação do açúcar local no mercado brasileiro, e incentivou o país a estudar seriamente a criação de um programa de produção de álcool. Numa estratégia comercial inteligente, a Única vem fazendo política e diplomacia, estimulando a produção do etanol em outros países, na prática estimulando a concorrência internacional. Há espaço para todos, garante o presidente da associação, Eduardo Pereira de Carvalho. Szwarc acrescenta que a entrada de novos produtores no mercado afastará resistências de potenciais consumidores, como o Japão, que até hoje não aderiu ao etanol combustível por temer depender de um só fornecedor. O caso do etanol é uma típica aliança de sucesso entre política externa e ínteresses comerciais. O governo ofereceu assessoria técnica sobre o tema aos caribenhos, para mostrar que, ao brigar contra os subsídios ao açúcar da União Européia, o Brasil não está mirando na produção das ex-colônias européias da América. É uma tese evidentemente esdrúxula a que compara a união de trabalhadores, com sua força de trabalho, na defesa de interesses frente ao patronato com a política externa feita por países de economias heterogêneas, situação política diversa e forças profundas enraizadas nas especificidades nacionais. Mas essa simplificação não deve servir de argumento para que se rejeite, como "ideológico" o bom uso político que vem se fazendo da política externa como instrumento de bons negócios e integração de economias dos países em desenvolvimento.