Título: Pré-sal traz risco de acentuar valorização do câmbio
Autor: Lamucci, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 17/09/2008, Brasil, p. A3

A descoberta dos campos de petróleo na camada pré-sal é um grande trunfo para o Brasil, mas o país precisa tomar cuidado para que os dólares a serem obtidos com o produto não provoquem uma sobrevalorização adicional da taxa de câmbio, advertem economistas como os ex-ministros Antonio Delfim Netto e Luiz Carlos Bresser-Pereira e o professor da Unicamp Edgard Pereira. Os três participaram do 5 Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Delfim disse que o petróleo do pré-sal resolve os dois problemas que sempre abortaram os ciclos de crescimento no Brasil: uma crise energética ou uma crise no financiamento do balanço de pagamentos. "O pré-sal representa a liberação desses dois riscos", disse Delfim, ressaltando, porém, que é necessário fazer um uso muito cuidadoso dos recursos. "Mesmo quando o petróleo já tiver sido extraído e estiver na costa do país, ele não pode ser transformado em educação. Antes disso, é preciso primeiro transformar o petróleo em dólares e depois os dólares em reais", afirmou ele, para quem o país tem que evitar dois problemas: a "supervalorização" do real e a inflação, caso não haja um aumento da poupança pública. Para ele, o fundo soberano - um instrumento que até então era "perfeitamente inútil" - vem a calhar para abrigar o dinheiro do pré-sal.

Um primeiro uso para os recursos poderia ser a quitação da dívida externa pública, sugeriu Delfim. "Isso aumentaria a poupança do governo." Segundo ele, essa dívida está hoje na casa de US$ 90 bilhões, o que, com juros na casa de 6% ao ano, significa um custo anual de US$ 5,4 bilhões. "Daqui a 25 anos, nós seremos 250 milhões de brasileiros, e teremos que dar empregos decentes para 140 milhões de pessoas", disse Delfim, acrescentando que isso só será possível com uma indústria forte. Uma sobrevalorização do câmbio causada pelos recursos do pré-sal, advertiu ele, pode levar a uma "destruição industrial".

Bresser também considera fundamental que o Brasil evite o agravamento da tendência de apreciação do real que pode advir dos dólares do petróleo, o que aprofundaria a chamada "doença holandesa" (fenômeno pelo qual as receitas obtidas com a exportações de commodities valorizam o câmbio e prejudicam os setores industriais).

Segundo ele, isso poderia ter um impacto muito forte sobre a indústria - algo mais grave que a "doença holandesa" provocada pelas exportações de produtos como ferro ou soja. Bresser acredita, no entanto, que o governo vai tomar as providências para que o dinheiro do pré-sal não cause esse problema. Nesse cenário, ele considera muito importante a discussão aberta pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o assunto. "Eu estou absolutamente convencido de que uma taxa de câmbio competitiva é fundamental para explicar o desenvolvimento econômico."

Pereira, da Unicamp e sócio da Edgard Pereira & Associados, apresentou um estudo em que analisa a evolução da taxa de câmbio real, considerando o efeito de cinco fatores, entre eles o preço do petróleo (os outros são o diferencial entre juros externos e internos, o crescimento doméstico, o crescimento internacional e o saldo da balança comercial). Segundo o modelo, o aumento das cotações do petróleo contribui hoje para a valorização do câmbio. "Durante muito tempo, as crises internacionais que levavam à alta do produto resultavam em crise no balanço de pagamentos", notou ele.

Com a crescente importância do setor de petróleo na indústria nos últimos anos, porém, esse quadro mudou. Para Pereira, o resultado indica que o petróleo do pré-sal tende acentuar ainda mais a correlação entre os preços da commodity e o comportamento do real.

Também presente ao evento, o professor Luiz Fernando de Paula, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostrou um estudo em que estima a sobrevalorização do câmbio em cerca de 30% em março deste ano. Para ele, é importante mudar esse quadro porque a taxa de câmbio tem sido uma força "mais instabilizadora do que estabilizadora na economia."