Título: A soma de todos os medos
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 18/09/2008, Investimentos, p. D1
A forte queda recente das bolsas - só nesta semana, o Ibovespa perdeu 12,38% e cai 17,55% no mês - fez o mercado brasileiro voltar aos níveis do começo de 2007. Boa parte do ganho das ações nos últimos meses evaporou diante da crise do mercado financeiro americano. Mas, olhando para um horizonte mais longo, desde 31 de dezembro de 2002, quando começou o processo de alta atual da bolsa, a maioria dos papéis do Índice Bovespa ainda mantém ganhos expressivos, conforme estudo feito pela Economática. Considerando as cotações até terça-feira, apenas um papel, a ação preferencial (PN, sem voto) da Vivo, apresentava queda, de 16,8% nesse período mais longo, observa Einar Rivero, da Economática.
Algumas ações, como Lojas Renner e Usiminas ainda acumulavam retornos elevados, na casa de 3.000% e 2.000%, respectivamente, apesar das fortes quedas registradas depois que o mercado atingiu o pico em maio. Lojas Renner caiu 38% de maio até terça-feira, e Usiminas, 50%. Desde 2002, o Ibovespa ainda acumulava ganho de 336,9% até terça-feira - chegou a 552% em maio-, apesar da queda de 33% de maio para cá. Com a perda de ontem, de 6,74%, o acumulado cai para 307,42%.
A queda, porém, torna os papéis mais atrativos em termos de fundamentos. A relação Preço/Lucro (P/L), que dá uma idéia em anos do tempo de retorno do investimento (portanto, quanto menor, melhor), caiu acentuadamente de dezembro para cá, acompanhando os preços das ações. O P/L da preferencial da Petrobras, por exemplo, caiu de 18 vezes em dezembro do ano passado para 8,3 vezes na terça-feira. Vale PNA, por sua vez, caiu de 12,3 para 10,6 vezes. E esse P/L deve ter caído mais depois das perdas de ontem, de 4,79% da Petrobras e de 7,68% da Vale. Os dados da Economática usam o lucro acumulado nos 12 meses encerrados em junho deste ano. A questão é se é hora de arriscar entrar no mercado agora ou esperar mais.
Os especialistas recomendam ao investidor que já está em bolsa e já viu o Ibovespa perder 28,14% neste ano, manter a calma e não vender no meio do furacão. Para Eduardo Jurcevic, superintendente de Investimentos do Banco Real, quem tem ações deve olhar para o fundamento das empresas e da economia brasileira e ver que eles continuam positivos, apesar de toda a crise externa. "Não é hora de sair, é preciso ter tranqüilidade e evitar grandes movimentos no meio da crise, que podem se tornar uma besteira", diz. O prejuízo, acrescenta, só acontece se o investidor vender na baixa. "E os preços das empresas não são esses que estão aí hoje, que refletem a forte procura por liquidez dos estrangeiros, e não o valor das empresas", diz. Ele recomenda até que o investidor compre mais agora, para fazer o chamado preço médio. "Mas isso com uma visão de médio, longo prazo, pois, no curto, ainda podemos ter muita instabilidade", diz. Jurcevic alerta para quem se anima com a forte alta do dólar e do ouro - 2,41% e 10,55% ontem, respectivamente -, lembrando que esses mercados refletem o pânico dos investidores e não devem se sustentar.
O mercado vai continuar com essa oscilação extrema, um fator ruim para o investidor, diz Nicholas Barbarisi, diretor de operações da Hera Investiments. "É um movimento violento de saída de estrangeiros que acaba criando distorções que podem ser aproveitadas pelo investidor local", diz ele, lembrando que alguns papéis de primeira linha caíram mais de 50%. "Se o lucro da empresa se manteve e o preço caiu 50%, o papel fica mais atrativo", diz. Barbarisi alerta, porém, que será preciso estômago forte para agüentar as altas e baixas que vão continuar pelo menos até o fim deste ano. Ele recomenda que o investidor prefira as chamadas "blue chips", uma vez que quando vier a recuperação, as ações mais líquidas devem subir mais rapidamente que as de segunda e terceira linhas. Entre as sugestões estão Petrobras, Vale, Gerdau e os bancos, que sofreram muito pelo contágio dos bancos americanos.
Apostas neste momento de forte volatilidade na bolsa somente em ações que passarão por algum tipo de evento, como a IronX e a Vigor, por exemplo, diz Gabriel Vidigal, diretor do escritório de aconselhamento financeiro Tag Investimentos. Para ele, há casos de companhias que estão realmente com P/L interessantes, mas o investidor precisa ter em mente que, num momento de estresse, papéis que já caíram bastante podem se desvalorizar ainda mais. "Há companhias que somente pelos dividendos pagos se tornam boas opções para quem visão de longo prazo", avalia.
É nos dividendos que os investidores devem se apegar, sugere Dalton Gardiman, economista chefe da Bradesco Corretora. "Temos empresas do setor elétrico projetando 16%, 20% ao ano de retorno em dividendos sobre o preço atual, o que dá uma segurança muito grande para o investidor", diz.