Título: Câmbio volta a ser âncora para inflação
Autor: Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 23/02/2005, Brasil, p. A4
A valorização do real frente o dólar está novamente funcionando como uma âncora para a inflação. Os efeitos dessa alta para o consumidor devem ser ampliados a partir do segundo trimestre. Na avaliação de economistas ouvidos pelo Valor, os preços irão desacelerar mais pela contribuição favorável do câmbio do que por reflexo do aperto da política monetária. De acordo com cálculos de Fernando Fenolio, da Rosenberg & Associados, uma valorização cambial de 10% reduz a inflação em 1,72 ponto percentual em 12 meses. Isso significa dizer que o coeficiente de repasse ("pass-through") é de 17,2%. Por esses dados, o aumento de 6,4% no valor do real frente ao dólar no quarto trimestre em relação ao trimestre imediatamente anterior, vai contribuir com 0,63 ponto percentual para a queda da inflação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) tanto no primeiro quanto no segundo trimestre de 2005. Com a ajuda do dólar valorizado, o Bradesco prevê que o IPCA recue para o patamar de 0,42% em março, já refletindo o recente arrefecimento dos preços no atacado. Para abril, a taxa deve cair ainda mais e chegar a 0,36%, ficando em nível semelhante em maio e voltando a 0,41% em junho, o que daria uma média mensal de 0,37% para o segundo trimestre. A inflação não ficava tão baixa em três meses desde o trimestre iniciado em junho de 2003, quando a variação média de preços foi de 0,13%. Para a equipe de economistas do banco, o câmbio consegue resultados bem mais evidentes sobre a inflação do que a política de juros. Para se atingir o mesmo efeito do câmbio, seria necessário um choque de juros mais vigoroso, com elevação acima de 1%, avaliam. A valorização do real já contribuiu para a queda dos preços, mas vai continuar e até intensificar sua ação nos próximos meses. Em São Paulo, esse refresco para a inflação já foi captado pelas últimas medições do índice de preços ao consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Na primeira quadrissemana do ano, o indicador de comercializáveis, produtos que são bastante sensíveis à mudança do câmbio, estava em 0,51%. A partir da terceira quadrissemana, o indicador deu início a uma trajetória descendente, chegando a uma deflação de 0,18% na última medição, semana passada. Por outro lado, a cesta de produtos não-comercializáveis, que inclui basicamente o preço de serviços em geral, como gastos com cabeleireiro e encanador, está em alta desde o início do ano. A variação foi de 0,74% na primeira quadrissemana de janeiro para 1,06% na segunda de fevereiro. No entanto, Paulo Picchetti, coordenador da pesquisa de preços da Fipe, alerta que os preços de educação têm sido o grande problema neste grupo no começo do ano mas a tendência daqui para frente é de arrefecimento. Os primeiros sinais de desaceleração foram dados na semana passada, quando a alta já passou de 1,11% para 1,06%. Para o economista da Fipe, é evidente que existe uma pressão de demanda. Entretanto, sua análise é de que as principais fontes dessa pressão no passado recente estão fora do alcance da política monetária. Em primeiro lugar ele cita a forte elevação dos gastos públicos. Picchetti também chama atenção para os novos instrumentos de crédito, com destaque para o empréstimo consignado em folha de pagamento, que tem impulsionado a compra, principalmente, de bens duráveis. Um exemplo recente ilustra a influência do declínio do dólar sobre os preços no varejo. Em janeiro de 2003, quando a alta acumulada de doze meses da moeda americana chegou a 45,8% sobre o real, o IPCA, indicador utilizado como referência para as metas de inflação do Banco Central, atingiu 2,25%. Seis meses mais tarde, em julho do mesmo ano, a situação era oposta. O dólar acumulava desvalorização de 13,5%, o que ajudou a derrubar a inflação para 0,20%. Enquanto isso, a taxa de juros foi de 25,5% em janeiro para 26,5% em fevereiro e manteve-se neste patamar até julho, quando caiu para 26%. Na visão dos analistas, ao mesmo tempo em que endurece a política monetária, o governo pratica uma política fiscal expansionista, que acaba por dificultar ou mesmo anular possíveis impactos da alta do juro básico. Para o economista da Rosenberg & Associados, as duas políticas caminham em direções contrárias. "Enquanto os juros freiam o crescimento da demanda, os gastos públicos dão novo impulso", diz. Fenolio acredita que o BC usa o instrumento correto, se o intuito é desacelerar a economia. O problema é que não está surtindo efeito, justamente pela expansão fiscal e do crédito. No médio prazo, entretanto, a situação pode ser revertida. "Como muitas pessoas estão em busca de crédito, a tendência é que daqui a pouco esses empréstimos reflitam a trajetória da Selic, fiquem mais caros e deixem de ser procurados", afirma. Sobre o fato de que boa parte do aumento de preços decorre do reajuste de tarifas, como de energia e de telefone, Fenolio lembra que a elevação dos juros busca evitar a propagação desses custos para outros setores da economia. "Uma Selic mais alta não combate o que deu origem ao aumento, já que esses preços são fixados por contratos, mas ao retrair a demanda, evita repasses pela cadeia produtiva", explica.