Título: Miguel Jorge garante que não faltará crédito à exportação
Autor: Lavoratti, Liliana
Fonte: Gazeta Mercantil, 07/10/2008, Nacional, p. A4

São Paulo, 7 de Outubro de 2008 - O Brasil vai sofrer as conseqüências da crise financeira global, mas o governo brasileiro não medirá esforços para suprir a falta de liquidez no mercado de crédito para os exportadores, disse ontem, em São Paulo, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge. "As reservas cambiais serão nosso último recurso, mas temos o Tesouro Nacional; os compulsórios dos bancos poderão ser ainda mais reduzidos", afirmou o ministro em entrevista coletiva logo após o encerramento de almoço oferecido na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) pela Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria. Antes, durante rápida palestra proferida a uma platéia de quase cem empresários, Miguel Jorge declarara que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) terá de entrar mais firme na oferta de recursos para ter acesso à Antecipação dos Contratos de Câmbio (ACC). "O BNDES, que não tinha a obrigação de financiar as exportações, agora vai ter de financiar", disse. Ao ser perguntado sobre o volume de dinheiro que o governo poderá injetar em linhas de crédito para compensar a escassez de dinheiro em decorrência da contaminação do estouro da bolha hipotecária nos Estados Unidos, o ministro disse apenas que o governo está estudando o assunto. "Metade das nossas exportações, ou seja, ao redor de US$ 100 bilhões ao ano são financiados", lembrou. Na avaliação do ministro, o governo tem de ficar muito atento para eventuais desdobramentos negativos que a esperada recessão nos EUA e demais países ricos poderão causar ao setor produtivo brasileiro, por exemplo, uma maior concorrência com os produtos chineses no mercado doméstico. "Nada menos que 16% das importações norte-americanas são provenientes da China. Se os EUA comprarem menos, os chineses irão buscar outros mercados", enfatizou Jorge. Entretanto, ele negou que o governo esteja analisando a possibilidade de adotar iniciativas no sentido de restringir importações da China ou de qualquer outro lugar. Segundo o ministro, "existe uma preocupação natural do governo e tudo está sendo acompanhado muito de perto". Toda a atenção é pouca no acompanhamento desses processos, segundo o ministro, pois a crise trará conseqüências negativas para o Brasil. Miguel Jorge negou, entretanto, que o governo esteja preparando um pacote para atacar os efeitos negativos da crise financeira global. Ele destacou que já foram liberados R$ 5 bilhões para normalizar o fluxo de crédito para a agricultura e observou que, além dos recursos públicos a serem mobilizados para não prejudicar as exportações brasileiras, os bancos privados terão papel relevante nessa tarefa. "O compulsório dos bancos já está sendo utilizado", disse, referindo-se à decisão do governo, na semana passada, de diminuir o nível do depósito compulsório que as instituições financeiras são obrigadas a fazer junto ao Banco Central. O objetivo é aumentar a liquidez no mercado de crédito, suprindo a escassez de dinheiro para as operações dos exportadores. O ministro do Desenvolvimento disse que até agora um aspecto que não preocupa a Esplanada dos Ministérios é a contaminação da inflação pela alta do dólar. "Somente 20% das nossas importações são de bens de consumo; portanto, o impacto disso nos índices de preços não é relevante", previu. Na opinião dele, uma grande vantagem do País para fazer a travessia dessa crise - além das reservas cambiais elevadas - é a solidez do sistema financeiro. "Nessas horas é que a gente vê o valor da fiscalização e regulamentação rígidas exercidas pelo nosso Banco Central, considerada restritiva por alguns nos momentos bons", disse, referindo-se à quebradeira das instituições financeiras norte-americanas. Miguel Jorge afirmou ainda que o mercado financeiro está vivendo um momento irracional, quando perguntado sobre a queda das bolsas, ontem, e a alta do dólar, que chegou a R$ 2,20. "Os exportadores devem estar felizes da vida", ressaltou. Ele negou qualquer intenção da equipe econômica de intervir no mercado para segurar a desvalorização do real frente ao dólar. "O governo não vai intervir até porque o dólar estava a R$ 1,80 na semana passada e pode voltar a esse patamar de uma hora para outra." (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 4)(Liliana Lavoratti)