Título: Crise pode comprometer projetos com financiamento em dólares
Autor: Rosa, Silvia
Fonte: Gazeta Mercantil, 13/10/2008, Finanças, p. B1

São Paulo, 13 de Outubro de 2008 - Os financiamentos para os projetos de infra-estrutura que contam com recursos do Banco Nacional de desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) não devem ser afetados com a crise no mercado de crédito internacional. No entanto, operações que requerem a contratação de linhas de financiamento em dólar podem estar ameaçadas com a crise. A escassez de liquidez no mercado de crédito internacional tem levado a uma retração nos financiamentos de longo prazo, paralisando, no momento, a estruturação de operações como empréstimo-ponte ou linhas de crédito em dólar, que contam com participação dos bancos privados. Segundo Flávio Camargo, responsável pelo setor petroquímico na área de financiamento estruturado do Banco Calyon, essas operações são utilizadas, principalmente, para financiar plataformas de exploração de petróleo e gás, em projetos que requerem a importação de equipamentos e para o pagamento de outorgas nas concessões de rodovias. A dificuldade em obter recursos com o agravamento da crise já tem levado algumas empresas a pedirem o adiamento do leilão das concessões das rodovias do Estado de São Paulo, previsto para 29 de outubro. Só o valor a ser desembolsado no pagamento pelas outorgas é de cerca de R$ 3,5 bilhões, sendo que 20% desse montante deve ser pago já na assinatura do contrato. "Nesse momento está difícil conseguir qualquer tipo de funding de longo prazo que necessite de recursos em dólar. O custo de captação está muito caro, tanto para bancos quanto para empresas, e a liquidez está muito restrita , o que torna inviável qualquer tipo de operação", diz Camargo. O banco acabou de participar da estruturação, junto com o Citibank e o Santander, do empréstimo sindicalizado de pré-pagamento à exportação para a Braskem, no valor de US$ 725 milhões e prazo de cinco anos. Os detalhes da operação, segundo Camargo, foram finalizados em julho, no pe-ríodo anterior ao agravamento da crise no mercado bancário internacional, e conclui o alongamento do empréstimo-ponte tomado pela instituição para a aquisição dos ativos do Grupo Ipiranga em 2007, que tinham prazo de vencimento de dois anos. "A Braskem conseguiu aproveitar uma oportunidade no mercado para estender seu financiamento a um custo muito competitivo para o cenário atual, de Libor - taxa interbancária de Londres - mais 1,75% ao ano. Se ela tivesse que captar neste momento seria muito difícil viabilizar a operação", destaca. Para Camargo, as empresas que estão com vencimento de empréstimo-ponte nesse momento devem tentar a repactuação da operação para estender os prazos. "Hoje é muito difícil que as empresas consigam contratar linhas de longo prazo, pois esse mercado está praticamente paralisado e deve continuar retraído até que as condições normais se reestabelçam", afirma. Repasse garantido O superintendente da área de project finance do Unibanco, Carlos Mellis, ressalta que a crise não deve ter impacto para grande parte dos financiamentos dos projetos de infra-estrutura, que contam com repasses do BNDES, mas pode ter algum efeito sobre os empréstimos-ponte de curto prazo concedidos no início das operações até a liberação dos recursos do banco de fomento. "Os projetos com receitas em reais, como a construção das usinas do Complexo do Rio Madeira e os investimentos previstos nas linhas de transmissão de energia elétrica, contam com apoio do BNDES e não devem sofrer alterações." Só na área de energia, o BNDES concedeu neste ano, até agosto, R$ 4,5 bilhões em desembolsos, aumento de 73% em relação ao mesmo período de 2007, contando com mais R$ 5,4 bilhões em aprovações. De acordo com o diretor da área de infra-estrutura do banco, Wagner Bittencourt, o BNDES deve continuar apoiando os projetos de infra-estrutura, inclusive os incluídos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "O banco sempre foi o grande financiador desses projetos e deve se estruturar para atender o aumento da demanda, com a retração do mercado de capitais." Ele destaca que as consultas para financiamento de projetos têm crescido mês a mês, em média, 44% em relação a 2007. Além do BNDES, outros organismos multilaterais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial para financiamento do setor privado, também têm apoiado os projetos de infra-estrutura. O BID acabou de liberar, junto com um pool de bancos privados, um empréstimo ao consórcio ViaQuatro para financiar o início das operações da Linha 4 do Metrô de São Paulo, que soma US$ 368,7 milhões, que devem ser liberados em duas fases. Paulo Machado de Carvalho , diretor de financiamento estruturado do Banco BBVA, um dos bancos que participaram da estruturação do empréstimo, afirma que o financiamento dessa operação já estava aprovado e, por isso, não foi afetado pela crise. Carvalho destaca, porém, que a crise poderá ter algum impacto para os projetos previstos nas próximas licitações, que venham necessitar de empréstimos externos de longo prazo. "Neste momento, todo mundo puxa o freio, e devemos ver uma paralisação na concessão de novos financiamentos no curto prazo", afirma. Com isso, destaca Carvalho, os projetos da Petrobras previstos para o ano que vem com o início dos investimentos na exploração de petróleo e gás na bacia do pré-sal que têm geração de receitas em dólares, como a construção de plataformas, podem ter um pouco mais de dificuldade para levantar recursos no curto prazo. (Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados - Pág. 1)(Silvia Rosa)