Título: Cerco final aos rebeldes
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 11/03/2011, Mundo, p. 16

Todos os dias, o estudante Omar Ali, de 21 anos, pega seu rifle de assalto e passa sete horas aprendendo a atirar. O gesto é repetido por vários outros homens em Benghazi, cidade situada a 1.024km a leste de Trípoli e considerada o quartel-general da oposição na Líbia. Apesar do ritual, os moradores acreditam que não terão dificuldades em derrotar as forças do ditador Muamar Kadafi. ¿Os militares não podem nos atacar. Podemos vencê-los¿, disse ao Correio, por telefone. ¿Eu morreria por meu país¿, admitiu. O comerciante Oufi Omar, de 40 anos, também esbanja otimismo. ¿Os revolucionários têm muitas armas. Podemos expulsar os homens de Kadafi, que estão a 300km daqui¿, afirmou à reportagem.

Benghazi voltou ontem a ser o centro das atenções do levante líbio, depois que Ras Lanuf ¿ polo petrolífero e outro reduto da insurgência ¿ foi alvo de foguetes Katiusha, mísseis e obsuses de morteiro. ¿Eu envio uma mensagem a nossos irmãos e amigos no leste, que estão nos enviando pedidos diários de ajuda e de resgate: Estamos chegando¿, anunciou Saif Al-Islam, filho de Kadafi. ¿A vitória está à vista, a vitória é próxima. Eu juro, perante Deus, que venceremos¿, disse. ¿Chegou a hora da libertação. Chegou a hora da ação. Estamos nos mexendo agora.¿

A televisão estatal líbia anunciou a tomada de Ras Lanuf e antecipou que Benghazi será o próximo alvo. ¿A cidade foi libertada dos grupos armados e em todas as instituições foram içadas as bandeiras verdes¿, explicou à emissora uma fonte do regime. Durante coletiva de imprensa em Trípoli, o vice-chanceler Jaled Kaaim confirmou que ¿Ras Lanuf foi totalmente limpa, assim como a refinaria e a indústria petroquímica¿. Opositores denunciaram que forças pró-Kadafi atacaram uma residência e uma área próxima ao hospital da cidade, forçando a fuga de médicos e de pacientes. Pelo menos quatro pessoas morreram nos bombardeios.

Omar Ali desdenha da ameaça de Saif Al-Islam. ¿Não acreditamos nele. Está blefando e não fará nada¿, comentou. O aviso do segundo filho de Kadafi seguiu-se à decisão da França de tornar-se o primeiro país a reconhecer o opositor Conselho Nacional de Transição (CNT), sediado em Benghazi, como o único representante legítimo do povo líbio. ¿Com base nesse reconhecimento, vamos abrir uma representação diplomática, nossa embaixada em Paris, e um embaixador da França será enviado a Benghazi¿, revelou Ali Issawi, emissário do CNT, após se reunir com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, em Paris. A agência oficial de notícias líbia Jana anunciou o revide de Kadafi. Citando uma fonte do Ministério das Relações Exteriores, informou que Trípoli pretende romper relações diplomáticas com Paris. ¿Um Estado como a França não pode cometer esta estupidez e reconhecer pessoas que não se representam a si mesmas¿, alertou.

Frente diplomática Outras nações se apressavam em anunciar medidas para tentar conter a crise política. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, viajará ao Egito e à Tunísia, na próxima semana, e se reunirá com representantes da oposição líbia. Em carta à União Europeia (UE), Sarkozy e o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, consideraram ¿extremamente inaceitável¿ o ¿uso deliberado¿ de força militar contra a população civil e defenderam o colapso do regime. ¿Para impedir mais sofrimento do povo líbio, Muamar Kadafi e sua `panelinha¿ devem sair¿, afirmaram os líderes. A Alemanha se uniu em defesa do CNT, apesar de não ter expressado um reconhecimento formal. ¿Estamos de acordo em dizer que Kadafi está desacreditado, que deve deixar o poder. Devemos dialogar com os novos representantes líbios¿, disse o chanceler francês, Alain Juppe, após conversar com o colega alemão, Guido Westerwelle.

Em Bruxelas, ministros da Defesa de países-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) começaram ontem dois dias de intensas reuniões e anunciaram o envio de navios ao Mar Mediterrâneo para controlar o embargo de armas ao regime de Kadafi. Segundo o secretário-geral Anders Fogh Rasmussen, a aliança militar está ¿unida e pronta para atuar na Líbia¿. Ele admitiu o estudo de ¿ações adicionais¿ para colocar em marcha uma zona de exclusão aérea no país. No entanto, deixou claro que, para tanto, é necessária a autorização da ONU. Rasmussen preferiu não comentar a informação de que Sarkozy vai propor à UE ¿ataques seletivos¿ na Líbia.

O filho de Kadafi adotou o tom desafiador do pai e ameaçou a Otan, após dar duas semanas para os opositores negociarem uma rendição. ¿Jamais desistiremos. Esse é nosso país. (...) O povo líbio nunca irá abrir as portas para a Otan¿, alertou Saif Al-Islam. ¿A Líbia não é um pedaço de bolo.¿

EUA rompem com embaixada Os Estados Unidos decidiram suspender as ligações com a Embaixada da Líbia em Washington e aguardam o fechamento do local, anunciou ontem a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton. ¿Estamos a ponto de suspender nossas relações com a atual embaixada líbia, pelo que esperamos que interrompam a seu funcionamento¿, declarou a chefe da diplomacia dos EUA, durante audiência no Congresso. Washington retirou todos os seus diplomatas e fechou a representação em Trípoli após o início da revolta, em meados de fevereiro.