Título: Lula sobe no palanque de Marta
Autor: Sérgio Prado
Fonte: Gazeta Mercantil, 20/09/2004, Política, p. A-8

Presidente inaugura obra na Zona Leste e diz que prefeitura investe bem o dinheiro público na cidade. Uma canção de Bob Marley embala o vai-e-vem de uma multidão no centro de Itaquera, um dos bairros mais populosos da Zona Leste de São Paulo. O calor de mais de 30 graus do meio-dia de sábado passado parecia ainda maior, com a expectativa da chegada de Luiz Inácio Lula da Silva para subir pela primeira vez no palanque da campanha da prefeita petista Marta Suplicy, que disputa o voto de mais de 7,7 milhões de paulistanos, no dia 3 de outubro. A proximidade da chegada do presidente para inaugurar uma obra viária agita bares, lojas, ruas e praças, numa região que concentra cerca de um terço dos quase 10 milhões de moradores da maior cidade do País.

No bar Rikinho II, o aposentado Luirival Lima come três bolinhos de bacalhau regados a um suco de limão sem açúcar. Apetite satisfeito, ele comenta com amigos a situação eleitoral, em que sua candidata Marta disputa palmo a palmo a preferência da população com o tucano José Serra. E resume o que a prefeita, no seu entender, significa hoje para a cidade e os mais desfavorecidos pela vida e pela sorte. "Tem lugar aí que chamam a Marta de mãe", conta Lourival Lima. "Ninguém fez obra na periferia como ela. Me arrisco a dizer que se o povo não votar nela de novo é porque é ingrato, afirma o aposentado.

Concorda com Lima, o taxista Argemiro Marcelino dos Santos, nascido na capital e torcedor do São Paulo. Logo de entrada diz que nem liga para o fato de Lula ser corintiano. Depois declara que votou nele e em Marta nas últimas eleições. "Essa obra melhora 100% o trânsito para quem quer ir para Guaianazes (ao lado de Itaquera)", atesta com a autoridade de quem dirige táxi na região há 17 anos. Para encerrar o papo de dez minutos entre o Metrô e o centro do bairro, do alto do aprendizado natural das ruas, ele crava: "Foi bom o Lula ter vindo para fazer um comício pra Marta, pois assim não fica mais dúvida no povo quem ele apóia na prefeitura".

Em torno de 13 horas, Lula sobe no palanque, em jaqueta cáqui, ao lado de Marisa, para fazer côro ao taxista Argemiro e toda a cúpula do PT, que apostam no carisma do presidente para levar Marta à vitória. Antes de qualquer conversa, o presidente evoca seu amor pelo Corinthians, que tem seu centro de treinamento no bairro de Itaquera. "Eu teria de vir aqui de qualquer jeito. Todo mundo sabe que meu time é daqui da região". Os cerca de cinco mil assistentes vão ao delírio. Divide seu discurso em dois. Lê o primeiro onde fala da participação do governo federal na construção de um pedaço da Radial Leste, que cruza a região.

A seguir Lula, lamenta a rigidez da lei eleitoral, que impediu Marta de estar na festa e ter de mandar seu vice, Rui Falcão para comorepresentante. "Eu acho de qualquer forma que a é rígida porque evita abuso. Mas eu penso que é preciso ver o que é abuso e o que é inauguração de coisa concreta". Entretanto, que importa, segundo o presidente, é o investimento na infra-estrutura da cidade, que neste caso significou R$ 142 milhões para um trecho de sete quilômetros de via e mais emprego na construção civil.

"Estamos criando condições para que mais empresas se instalem na Zona Leste", prossegue Lula. Ele trouxe para o palanque de novo o que Marta ressalta há meses. É a aposta na criação de um pólo industrial na região que gere emprego e renda, numa das regiões mais carentes da metrópole. O investimento em obras viárias inclui além da Radial uma ligação com o Aeroporto Internacional de Guarulhos, o ABC e o porto de Santos, um corredor de exportação de inquestionável importância para o País. Os frutos começam a despontar.

A prefeita afirma que várias empresas de grande porte a procuraram a fim de se instalarem na região, entre elas, a Rolls Royce, que está interessada numa fábrica de turbinas no local. Também foram anunciadas duas faculdades na Zona Leste, uma de saúde e outra de administração, esta última em convênio com a francesa Ile de France. Da economia à política outra vez, ciente de que os marqueteiros do PT usarão sua ajuda a Marta na propaganda eleitoral de rádio e televisão, o presidente revela que tinha tomado a decisão de não participar das campanhas. "Mas eu não poderia deixar de vir à Zona Leste inaugurar uma obra desta magnitude". Aplauso e gritos de muito bem.

Para fechar, ele enumera os feitos de sua amiga. Enfatiza que a construção de 21 Centros de Educação Unificados (CEUs) e a doação de uniforme para quase 1 milhão de crianças carentes é um exemplo de como se gasta o dinheiro público. "Ao dar uniforme para as crianças das escolas municipais, ela resgatou a dignidade das crianças pobres. Só dá valor para uniforme alguém que como eu não tinha roupa para ir à escola". Calejado em batalhas eleitorais, ele mesmo com três derrotas rumo ao Planalto, Lula sabe de cor e salteado, que a disputa contra Serra será dura em outubro.

O candidato do PSDB já disputou a prefeitura contra Celso Pitta, em 96, e a Presidência contra Lula em 2002. Perdeu as duas. Mas a história nem sempre se repete. Ontem, nova pesquisa divulgada pelo Datafolha comprova a tendência (veja quando nesta página). Por isso, Lula eleva o tom do discurso para defender a administração do PT. Vai ao ponto que considera a pedra maior no caminho de Marta, o velho preconceito contra a mulher, tanto que seu adversário Serra copia Paulo Maluf e só chama a prefeita de Dona Marta, inclusive no jingle do programa de rádio.

"Eu, que fui vítima de preconceito durante a minha vida inteira, que em nenhum momento abaixei a cabeça, fico horrorizado porque eu pensei que o preconceito era porque eu era metalúrgico, porque eu era nordestino, mas a Marta não é metalúrgica, não é nordestina. É paulista, é de família tradicional, é uma mulher inteligente, é uma mulher bonita. Eu não sei porque o preconceito contra a companheira Marta", bradou Lula.

Na visão do presidente, no fundo o que incomoda os adversários é a competência da prefeita. "É por isso que nós temos a obrigação política de levantar a cabeça com muito orgulho e dizer aos companheiros e às companheiras de São Paulo inteira, que se as pessoas querem continuar tendo progresso nas políticas sociais, não têm outro, dia 3 de outubro é votar na Marta Suplicy para continuar administrando São Paulo".