Título: Ninguém segura o real
Autor: Batista, Vera
Fonte: Correio Braziliense, 15/03/2011, Economia, p. 12

Moeda brasileira retoma a trajetória ascendente em relação ao dólar, que se desvalorizou 0,24% ontem

O câmbio começou a semana com comportamento atípico. Após bruscas oscilações e mesmo depois de dois leilões de compra do Banco Central no mercado à vista, o comercial fechou em queda de 0,24%, cotado a R$ 1,662, depois de três sessões consecutivas de alta. Com o tombo de ontem, acumula queda de 0,06% em março. No ano, a desvalorização já chega a 0,25%. Analistas são unânimes em dizer que é quase impossível conter a apreciação do real frente à divisa americana, que perde valor diante de quase todas as moedas mundiais.

No mercado interno, os investidores continuam temerosos com a possibilidade de uma intervenção severa do governo. ¿Cada suspeita ou informação nova, por mais desencontrada que seja, causa pânico. O mercado simplesmente para e começa a analisar possíveis impactos. Virou uma guerra de gráficos, tabelas, relatórios, gritaria geral. Todo mundo fala e ninguém se entende¿, criticou um operador de mesa de câmbio que não quis se identificar. Sem direção, disse ele, a saída foi analisar a conjuntura doméstica, como os dados do Relatório Focus, do Banco Central, que manteve a projeção para a taxa de câmbio; e os da balança comercial de março.

A injeção de US$ 183 bilhões do Banco do Japão (BOJ) na economia mantém os investidores em alerta, pelo temor de que empresas seguradoras tenham que comprar grandes somas de ienes ou converter suas moedas nacionais e, com isso, o dólar tende a cair ainda mais. ¿A Europa já tomou uma atitude. Ampliou a capacidade de empréstimo do Fundo de Estabilidade Financeira Europeia (EFSF). E o Brasil, o que vai fazer? Esse negócio de aumento de impostos, quarentena sobre a entrada de capitais e uso do Fundo Soberano para comprar dólar no mercado não adiantou muito¿, questionou o operador.

No mercado acionário, o Ibovespa, índice que mede a lucratividade das ações mais negociadas na BM&FBovespa, encerrou o pregão em alta de 0,73%, nos 67.169 pontos, sustentado pelo espetacular salto de 10,07% das ações da Usiminas. A empresa poderá se beneficiar com os acidentes naturais do Japão, porque o aço brasileiro será muito demandado e a companhia deverá atuar na reconstrução do país.

Denúncias à CVM A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) recebeu, no ano passado, 48.037 consultas, reclamações e denúncias de investidores. Apenas no segundo semestre foram 19.260, segundo o Boletim Semestral de Atendimento ao Público divulgado ontem. Do total de demandas, entre julho e dezembro de 2010, 39% se referem à negociação com valores mobiliários, 20,48% a fundos de investimentos, 11,01% a posição acionária, 5,95% a ofertas irregulares, 4,19% a medidas adotadas por controlador ou administrador de companhia e 3,96% à demora na transferência de ações.

Das 179 denúncias sobre negociações irregulares, campeã do relatório, 25 são de agentes autônomos. Há também, segundo José Alexandre Vasco, superintendente de Proteção e Orientação aos Investidores, 15 sobre informações privilegiadas, com suspeitas de manipulação de papéis com vista a ganhos com as oscilações bruscas de preços. Vasco aconselha que o investidor não faça análise, ¿de forma isolada¿, com base nos últimos dados. ¿É fundamental acompanhar os relatórios semestrais¿, disse. (VB)

Processos abertos A CVM abriu 518 processos com base nas denúncias recebidas de investidores, ao longo do segundo semestre de 2010. Neste período, o conglomerado Bradesco, por ter a maior base de clientes do país, recebeu o mais reclamações (44), seguido pelo Itaú Unibanco, com 43, e pelo Banco do Brasil, com 29. Um Investimentos recebeu 27 queixas, XP Investimentos teve 22 e o Santander Brasil, 15. Pelo site www.cvm.gov.br, no link Consulta a Processos, Acesso Rápido, o investidor pode acompanhar o andamento dos processos administrativos.