Título: Lula pede ação coordenada aos países ricos
Autor: Assis,Jaime Soares de
Fonte: Gazeta Mercantil, 10/11/2008, Internacional, p. A15

São Paulo, 10 de Novembro de 2008 - Os países ricos devem dar o primeiro passo no sentido de estruturar ações coordenadas para superar a crise econômica internacional, afirmou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a abertura da reunião do Grupo dos 20 (G-20), sábado, em São Paulo. Lula defendeu maior abertura comercial e a definição de uma nova "estrutura financeira mundial", temas que estarão no centro das discussões do Encontro de Washington, que se realiza no próximo sábado com a participação dos presidentes dos países que integram o grupo . "Temos de realizar um esforço concentrado e vencer a tentação de tomar medidas unilaterais", afirmou Lula.

O presidente fez um discurso alinhado com a posição dos ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais do G-20 e reiterou a defesa de ampliação da participação dos países em desenvolvimento nos centros de decisão da economia mundial. "Devemos revisar o papel dos organismos existentes ou criar novos para fortalecer a supervisão e a regulação dos mercados", afirmou.

Lula considerou "imperioso" dar mais transparência ao sistema financeiro internacional e fez um apelo emocional. "É a vida de seres humanos que está em jogo". Para Lula, "bilhões de seres humanos, sobretudo os mais vulneráveis, esperam que estejamos à altura do desafio que a realidade nos colocou adiante. Não podemos, não devemos e não temos o direito de falhar". A adoção de um novo perfil de controle e atuação dos organismos financeiros surgiu no discurso como uma peça fundamental. As instituições, na avaliação do presidente, devem se adequar à nova realidade econômica. Este ajuste inclui abrir espaço e dar mais relevância ao papel de países emergentes e em desenvolvimento. "Situações de risco e custos compartilhados exigem respostas coletivas tanto para elaboração de soluções como para implementação de políticas nacionais coordenadas", acrescentou o presidente.

A complexidade do sistema financeiro, os riscos crescentes e a necessidade de crédito impõem o aperfeiçoamento dos mecanismos de regulação, supervisão e avaliação de riscos. A tarefa do Estado, na opinião do presidente, é a de resgatar o equilíbrio entre a eficiência do mercado financeiro e a promoção do desenvolvimento econômico. Lula fez referência também ao cuidado que os países devem ter ao adotar políticas internas que tragam embutidas possibilidades de transferir riscos e custos para outras nações.

"Cada país deve assumir suas responsabilidades", afirmou Lula. "Setores cujas políticas expõem a sociedade a riscos desproporcionais devem contribuir, inclusive financeiramente, para solução das crises e para o retorno à estabilidade", disse o presidente.

Os países integrantes do G-20 devem também intervir para que as instituições financeiras e políticas nacionais incorporem mecanismos que permitam prevenir futuras crises. O grupo, formado atualmente por 22 países, congrega nações ricas e emergentes. Esta composição torna viável a cooperação entre estes dois grupos. "Se a riqueza ainda se concentra nos países desenvolvidos, o crescimento econômico está sendo mais robusto nas economias emergentes e em desenvolvimento", afirmou Lula.

O presidente da República ancorou sua defesa nas estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) que atribuem 75% do crescimento da economia mundial à força dos países emergentes. Participação que deverá ser mantida no próximo ano.

"Nenhum país está a salvo da crise financeira. Todos estão sendo contaminados pelos problemas originados em países avançados", disse Lula. "A falta de financiamento externo poderá levar a problemas de balanço de pagamentos", comentou o presidente. Mesmo para os países mais preparados como o Brasil os empréstimos ficaram mais caros, ponderou. Este perda de liquidez se agrava com as retiradas de aplicações do mercado acionários por parte dos fundos de investimentos estrangeiros e pelos efeitos da recessão, que deverá reduzir a corrente de comércio entre as nações avançadas e os emergentes.

O Ministério da Fazenda e o Banco Central estão tomando medidas para aumentar o financiamento interno e facilitar o crédito para as operações de comércio exterior, segundo Lula. Para o presidente, os países desenvolvidos e instituições como o FMI têm um papel a cumprir neste cenário e devem adotar medidas que tragam o mesmo resultado nos mercados internacionais.

"As lições da crise de 1929 devem servir de alerta para todos. Naquela ocasião, medidas unilaterais apenas prolongaram a depressão econômica e aumentaram a desconfiança", declarou. Neste momento, para Lula, ações multilaterais coordenadas representam a melhor alternativa para o enfrentamento da crise.

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 15)(Jaime Soares de Assis)