Título: Doações ilegais e rotineiras
Autor: Abreu, Diego
Fonte: Correio Braziliense, 15/03/2011, Cidades, p. 28
Segundo o procurador-geral da República, Jaqueline Roriz recebeu dinheiro de Durval Barbosa em mais de uma oportunidade, conforme depoimento do ex-secretário de Relações Institucionais. Os valores foram aplicados, em 2006, na campanha da então candidata a distrital
O ex-secretário de Relações Institucionais do DF Durval Barbosa disse em depoimento ao Ministério Público (MP) que entregou, em mais de uma ocasião, dinheiro à deputada federal Jaqueline Roriz (PMN), durante a campanha eleitoral de 2006, na qual ela foi eleita deputada distrital. O teor do depoimento prestado por Durval foi revelado ontem pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, em entrevista coletiva. Em nota, a parlamentar confirmou que esteve algumas vezes no escritório do delator do suposto esquema que resultou na Operação Caixa de Pandora para receber recursos usados na campanha, mas não contabilizados na prestação de contas feita à Justiça Eleitoral.
Gurgel contou que as imagens em que Jaqueline e o marido, Manoel Neto, aparecem recebendo um maço de dinheiro das mãos de Durval na sala do então presidente da Codeplan foram entregues pelo próprio delator do mensalão do DEM. ¿Recebi a gravação há cerca de duas semanas, pouco antes de vazar. O vídeo foi entregue por Durval ao Ministério Público do DF¿, afirmou o procurador.
Os recursos teriam sido pagos, conforme relatou o ex-secretário de Relações Institucionais do DF no depoimento, como retribuição a Jaqueline por ela não ter apoiado publicamente a candidatura de sua colega de partido em 2006, a então candidata do PSDB ao governo local, Maria de Lourdes Abadia. ¿O depoimento de Durval Barbosa faz referência que os recursos se destinariam a Jaqueline Roriz por sua atuação na campanha eleitoral e, digamos, por não fazer campanha efetiva em favor da candidata da coligação que ela integrava¿, afirmou Gurgel.
Origem ilícita O somatório dos pagamentos recebidos pela deputada não foi revelado pelo procurador-geral. Ele avisou, porém, que ¿tudo aponta no sentido de que (a origem do dinheiro) seja ilícita¿. O procurador acrescentou que há fortes indícios de utilização indevida de recursos públicos no caso em questão.
Ao Correio, Gurgel havia afirmado no último dia 5 que as ¿imagens são fortíssimas¿. Ontem, ele voltou a falar sobre a gravação, ao dizer que o vídeo ¿impressiona muito¿. Ainda sobre o depoimento, que, segundo o procurador-geral, ¿não é particularmente rico em detalhes¿, Durval não fez qualquer menção que comprometa, por enquanto, o ex-governador Joaquim Roriz. ¿Ele referia-se essencialmente àquelas imagens e fez uma referência de que teria havido outros pagamentos (feitos à Jaqueline). Tudo isso será objeto de investigação¿, contou Gurgel.
Ele disse ter ¿curiosidade¿ quanto ao fato de o vídeo ter sido divulgado somente em 2011, após a eleição de Jaqueline. Gurgel, no entanto, detalhou que, durante o depoimento, Durval alegou que ¿esse vídeo estava perdido¿. Esse teria sido o motivo pelo qual a gravação não foi revelada com as demais, todas vazadas durante a Operação Caixa de Pandora, deflagrada em novembro de 2009. Os vídeos anteriores mostraram ex-deputados distritais e o ex-governador José Roberto Arruda (sem partido) recebendo dinheiro de Durval. Segundo Gurgel, o MP não tem conhecimento da existência de mais gravações.
Questionado se Durval Barbosa orre o risco de perder a delação premiada, ele afirmou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) acompanha a matéria permanentemente. ¿No acordo de delação premiada, uma série de obrigações são assumidas por quem se dispõe a colaborar com a Justiça. Se eventualmente essas condições vierem a ser quebradas, o Ministério Público poderá, sim, considerar rompido esse acordo¿, disse Gurgel.
Independente De acordo com o procurador, a investigação contra Jaqueline Roriz será feita isoladamente, de forma independente das demais apurações referentes à Operação Caixa de Pandora. Sobre uma eventual denúncia que poderá apresentar contra a deputada no Supremo Tribunal Federal (STF), Gurgel disse que ainda é cedo para se falar sobre o assunto. ¿Nós requisitamos a instauração do inquérito. Com isso, iniciam-se as investigações e, ao fim, caberá ao procurador-geral oferecer denúncia ou requerer o arquivamento.¿