Título: Investimento estrangeiro sobe a patamar sem precedentes
Autor: Aliski,Ayr
Fonte: Gazeta Mercantil, 25/11/2008, Nacional, p. A4
Brasília, 25 de Novembro de 2008 - Mesmo faltando mais de um mês para 2008 terminar, o Brasil já bateu o recorde na captação anual de recursos de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED). Os ingressos acumulados de janeiro até ontem atingem US$ 37 bilhões, o melhor resultado em mais de 60 anos. Essa soma ultrapassa, com folga, os US$ 34,6 bilhões registrados no ano passado, que eram o melhor resultado anterior, dentro de uma série histórica iniciada em 1947. Os dados foram apresentados pelo Banco Central, na divulgação da nota mensal do "Setor Externo", que trouxe o balanço consolidado do mês de outubro.
Só no mês passado, a entrada de IED atingiu US$ 3,9 bilhões, elevando para US$ 34,7 bilhões o acumulado do ano, o que já seria recorde. Mas o BC divulgou também dados parciais de novembro, indicando ingresso de mais US$ 2,3 bilhões até 24 de novembro. Com isso, o fluxo de IED no ano deve atingir pelo menos US$ 38 bilhões, considerando que ainda falta mais de um mês para 2008 terminar. No ano passado houve entrada de US$ 886 milhões em IED em dezembro.
Segundo o chefe do Departamento Econômico (Depec) do Banco Central, Altamir Lopes, o fluxo de recursos para investimentos não se retraiu em momento de crise, porque envolvem projetos de prazo mais longo, os quais apostam na solidez dos fundamentos econômicos do País. "Não se interrompe projetos em andamento. Quiçá a crise não interfira nesses fluxos", disse Lopes. O boletim Focus, preparado pelo Banco Central com base nas opiniões de agentes de mercado, aponta para entrada de US$ 35 bilhões em IED, este ano; e de US$ 25 bilhões em 2009.
Transações correntes
Se o fluxo de IED foi extremamente positivo, isso não significa que os efeitos da crise internacional não tenham arranhado o Brasil. O déficit em transações correntes (que envolve balança comercial e as contas de serviços e rendas) foi de US$ 1,5 bilhão em outubro, elevando o resultado acumulado do ano para US$ 24,7 bilhões negativos. Para novembro, Lopes indicou estimativa de o resultado ser negativo em mais US$ 500 milhões. O BC considera a hipótese de o déficit em transações correntes chegar a US$ 28,8 bilhões em todo o ano, o que seria o pior resultado desde 1998. Ainda assim, esse resultado negativo ainda está sendo coberto pelo fluxo de IED, o que equilibra as contas externas.
Remessas de lucros
As remessas de lucros e dividendos somam US$ 29,3 bilhões no acumulado entre janeiro e novembro, frente a US$ 17,1 bilhões em igual período do ano passado. Ou seja, no resultado parcial, 2008 já supera todo o ano passado, quando as remessas de lucros e dividendos foram de US$ 22,4 bilhões. Segundo o BC, o pior da crise internacional já passou. "Chega um ponto que não tem mais o que remeter", afirmou Lopes, sobre o envio de dinheiro das empresas para suas matrizes. A saída de recursos dos mercados de ações somaram US$ 6 bilhões em outubro e agora em novembro, na parcial até ontem, atingem US$ 880 milhões. Já as saídas de capital estrangeiro do mercado de renda fixa que chegaram em US$ 1,7 bilhão, caíram para US$ 604 milhões na parcial de novembro. Isto indica que a sangria diminuiu.
Câmbio
Os dados do BC mostram que a alta do dólar, um dos impactos da crise, atingiu diretamente o turismo internacional. Em outubro, os gastos com viagens internacionais somaram US$ 774 milhões, o que representa queda de 15% sobre os US$ 915 milhões de outubro do ano passado. Ou seja, o brasileiro está viajando menos e gastando menos no exterior. Já as receitas atingiram US$ 478 milhões, alta de 10% sobre os 436 milhões de outubro do ano passado, o que mostra que o real mais barato ajuda o turismo estrangeiro no Brasil. Em novembro, as receitas com viagens internacionais já somaram US$ 322 milhões e as despesas chegam a US$ 435 milhões.
ACC
Números sobre as movimentações de Adiantamento de Contratos de Câmbio (ACC) dimensionam o sucesso da linha de empréstimo de moeda estrangeira lançado pelo BC em 4 de novembro, com obrigação de que os recursos fossem utilizados pelos bancos no financiamento às exportações. A média diária de contratações de ACC foi de US$ 239 milhões em setembro; caindo para US$ 135 milhões em outubro e voltando para US$ 160 milhões em novembro. A diferença é que as médias de contratações de ACC subiram muito a partir de 13 de novembro, quando as linhas de financiamento às exportações começaram a receber os recursos das linhas de empréstimo do Banco Central.
(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 4)(Ayr Aliski)