Título: Brasil deve ter retração no quarto trimestre
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Fonte: Gazeta Mercantil, 09/12/2008, Finanças, p. B3

São Paulo, 9 de Dezembro de 2008 - Os efeitos da desaceleração da economia mundial e a contração do mercado de crédito começam a ter impacto na economia brasileira, que deve apresentar uma retração já no quarto trimestre, o que implicará em um cenário ainda fraco para o mercado de ações pelo menos até o primeiro semestre de 2009, segundo previsão da HSBC Global Asset Management.

Para Mário Felisberto, diretor de investimentos dessa área, o ponto mais crítico da crise já ficou para trás e o mercado criou mecanismos para evitar uma nova rodada de quebra das instituições financeiras.

Segundo o CEO da HSBC Global Asset Management, Pedro Bastos, nas duas primeiras fases da crise, marcadas pelo agravamento dos problemas no sistema financeiro com a quebra do banco Lehman Brothers em 15 de setembro, a preocupação com o risco de solvência das instituições levou a uma forte contração da liquidez no mercado de crédito. "Depois de terem reflexos no mercado de capitais, os efeitos da desaceleração econômica e da contração do crédito começam a afetar a economia real."

A HSBC Global Asset Management prevê crescimento de 2% para a economia global em 2009. A maior desaceleração virá das economias desenvolvidas, com projeção de crescimento negativo para o Japão (-1,7), e Europa (- 0,6%). A expectativa para os Estados Unidos é de crescimento de 0,8%.

As economias emergentes também devem sofrer com os reflexos da desaceleração mundial. O banco prevê crescimento de 4,1% para economias emergentes em 2009, excluindo a China, que deve apresentar expansão de 7,8%, depois de crescer cerca de 9,2% neste ano. No cenário interno, Felisberto destaca que apesar de o Brasil estar bem posicionado perante o cenário de turbulência nos mercados mundiais não está imune à crise e deve apresentar forte desacelaração da atividade econômica em 2009, devendo fechar o ano com crescimento próximo de 2%, depois de registrar aumento de 5,2% do PIB em 2008. "A primeira porta do contágio da crise foi o câmbio, com a saída dos investidores estrangeiros das aplicações em bolsa e renda fixa e agora devemos ver os efeitos sobre a balança comercial com a queda das exportações."

O banco prevê a estabilização do câmbio no patamar de R$ 2,30. No entanto, devido aos estoques altos, as empresas estão sendo obrigadas a realizar promoções, e por isso ainda não repassaram os reajustes dessa alta para os produtos. O banco prevê um índice de inflação de 5,3% para o Brasil em 2009, com a estabilização dos juros em 13,75%.

Com isso, os investimentos em renda fixa ainda devem liderar as aplicações, com os investidores buscando ativos de menor risco. Felisberto prevê uma retração do mercado acionário pelo menos até o primeiro semestre de 2009, com a queda do preço das commodities e a desaceleração do crescimento do mercado interno afetando o lucro das empresas brasileiras. "O mercado de ações parece ter precificado boa parte da queda do lucro das empresas, mas ainda tem muita coisa para acontecer", afirma.

Hoje a relação preço/lucro da bolsa brasileira caiu quase pela metade para 6 vezes, depois de alcançar quase 12 vezes, estando abaixo apenas do P/L das bolsas da Rússia, Turquia, Hungria e Indonésia. "A bolsa brasileira caiu mais que outros mercados emergentes, com grande parte das empresas expostas à queda do preço das commodities", diz Felisberto.

Com a queda do mercado de ações, Bastos afirma que a indústria de fundos, principalmente os multimercados, terá que se reinventar e buscar maior especialização para oferecer produtos atrativos. "Devemos ver mais empresas de investimento se especializando em nichos de mercado, buscando oferecer aplicação em ativos no exterior, em crédito privado, commodities, ou mesmo ativos em renegociação", diz.

Felisberto destaca que a indústria de fundos multimercado foi prejudicada com o aumento da volatilidade dos mercados e elevação das taxas oferecidas pelos Certificados de Depósito Bancário (CDBs). "As taxas dos CDBs, no entanto, devem recuar no ano que vem, com uma demanda menor por parte dos bancos para captar recursos frente a desaceleração do crescimento do mercado de crédito",

(Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados - Pág. 3)(Silvia Rosa)