Título: Pacotes proliferam e podem não conter crise
Autor: Hessel,Rosana
Fonte: Gazeta Mercantil, 29/12/2008, Internacional, p. A10
São Paulo, 29 de Dezembro de 2008 - Os pacotes de ajuda anunciados pelos governos para tentar amenizar o impacto da atual crise financeira mundial não param de aumentar em valores.
A soma contabilizada por alguns economistas chega a algo em torno de US$ 7,5 trilhões para o resgate financeiro mundial, incluindo os megapacotes dos Estados Unidos, da China e da União Européia (UE), que juntos hoje chegam a US$ 1,56 trilhão. E, na semana passada, esse volume aumentou significativamente com o anúncio pelo Japão de um plano de US$ 890,6 bilhões para estimular a economia do país.
O Brasil também chegou a anunciar seu próprio pacote - R$ 250 bilhões, ou pouco mais de US$ 100 bilhões. A Índia anunciou um pacote de US$ 4 bilhões e enquanto o pacote da Rússia, de US$ 78 bilhões em empréstimos, já sofre disputa entre as oligarquias do país.
A Alemanha, maior economia da Europa, também estuda um segundo pacote de ajuda, de aproximadamente ¿ 25 bilhões (US$ 35 bilhões), de acordo com as agências internacionais. A chanceler Angela Merkel deverá ter uma definição na próxima semana. Além disso, o pacote de ajuda do governo norte-americano para o setor financeiro e que agora contempla também as montadoras General Motors e Chrysler está hoje em US$ 700 bilhões, mas deverá superar US$ 850 bilhões ou mesmo US$ 1 trilhão em 2009, de acordo com várias estimativas dos economistas.
A ajuda financeira dos governos já ultrapassaria 12% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, constata o professor de economia da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EAESP/FGV), Ernesto Lozardo, com base em dados divulgados pela imprensa estrangeira. "Com muito menos seria possível combater a pobreza e investir o necessário para acabar com o aquecimento global", afirma ele, lembrado dados da Organização das Nações Unidas (ONU) que mostram que o extermínio da pobreza exigiria apenas 1,5% do PIB mundial. "Menos de 1% seria o necessário em investimentos para o combate ao aquecimento global", diz o professor da FGV.
O aumento dos gastos públicos como forma de estimular as economias de cada país é uma das saídas para a crise defendida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e um dos tópicos do comunicado resultante da primeira reunião de cúpula de novembro em Washington dos países do G20, grupo que inclui o G7 - integrado pelas sete economias mais industrializadas do planeta: Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá - e as economias em desenvolvimento mais importantes, como Rússia, China, Índia e Brasil, conhecidos também pela sigla Bric, e demais emergentes como México, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Austrália, Turquia, Coréia do Sul, Indonésia e Argentina, além, é claro, da União Européia.
O aumento do número de pacotes de socorro dos governos tem acalmado os mercados financeiros que fecham o ano com quedas recordes. Mas nem todos se animam com esses planos de ajuda.
O professor Lozardo é um deles. Na opinião do economista, o que esses pacotes vai conseguir estimular a economia. "Todos estão com receio da segurança e da sustentabilidade do sistema financeiro mundial", afirmou ele, lembrando que a confiança sofreu um golpe fortíssimo com a fraude bilionária de Bernard Madoff, ex-presidente da Bolsa de Nova York. Outro dado que inspira desconfiança nos investidores é o elevado déficit fiscal norte-americano, lembra Lozardo.
O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, herdará um rombo superior a US$ 1 trilhão, que ajudará a comprometer os pagamentos dos títulos americanos e poderá prejudicar a execução dos planos assistencialistas prometidos por Obama durante a campanha presidencial.
O diretor gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss Kahn, também engrossou o coro dos mais alarmistas ao afirmar recentemente em Madri que os pacotes de ajuda não serão suficientes para conter o agravamento da crise financeira ao longo do próximo ano e que o crescimento dos países emergentes não será suficiente para manter o ritmo de expansão econômica mundial. Strauss-Kahn alertou ainda que o Fundo irá divulgar em janeiro previsões ainda mais sombrias do que as feitas em novembro, quando a instituição cortou todas as estimativas de crescimento mundial apenas um mês após divulgar o relatório semestral Panorama Econômico Mundial (Global Economic Outlook).
Já o professor de economia da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Frederico Turolla, que já foi considerado um pessimista ao prever um crescimento de 2,3% para o Brasil em 2009 e de 2% para o PIB mundial, agora está entre os otimistas, pois algumas estimativas já prevêem recuo na expansão global. "Estou revendo minhas estimativas", afirma Turolla que também é consultor da Pezco, empresa de pesquisa e consultoria.
De acordo com Turolla, os limites do aumento do déficit público dos Estados Unidos estão na solvência do país, ou seja, a capacidade de se pagar as dívidas. Ele lembra que os dois indicadores de solvência são os déficits público e o da conta corrente. Para o economista, a situação hoje da economia norte-americana é muito parecida com a do Brasil no final da década de 1990, no auge das crises asiática e russa - que levaram o mundo para uma recessão e queda de 1% no crescimento global - e quando houve a maxidesvalorização do real.
Turolla também demonstra otimismo em relação ao pagamento dessa conta imensa dos megapacotes, especialmente a dos Estados Unidos. "O governo americano terá de emitir moeda e títulos para fechar a conta. Mas isso não é de todo ruim", explica. Ele lembra que os títulos do Tesouro americano pagam hoje 5% de juros e, como o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) vem cortando os juros para quase zero, os próximos papéis terão um juro bem menor com vencimento no longo prazo. E, como o governo precisa se capitalizar, o que está disponível no mercado são títulos de hipotecas convencionais a receber com juros pouco cima de 5% ao ano. Já os títulos imobiliários de alto risco (subprime) geralmente têm juros ainda mais elevados, entre 17,64% e 26,25%. Enquanto isso, na semana passada, os títulos do Tesouro americano de 10 anos estavam em 2,13%, e os de 30 anos, em 2,55%.
Ou seja, o governo americano ainda acabará lucrando com o spread dos títulos de hipotecas a receber e os que ele está emitindo. "O risco será a inadimplência, mas os investimentos dos pacotes estimularão de volta a economia", comenta lembrando que o risco andou aumentando nos últimos dias. "A curva toda deslocou para cima e isso aumentou o risco. Mas os EUA ainda estão em zona de conforto quanto ao risco soberano", afirmou.
Na opinião de Turolla, ao invés de aumentar o déficit, o pacote de ajuda poderá ajudar até a reduzir o déficit do governo norte-americano no longo prazo com o aumento de ativos resultantes da compra desses títulos imobiliários. "Acredito que o Fed lançou o megapacote já pensando nisso", afirma ele, lembrando que a maior parte da dívida do governo americano vence em cinco anos.
(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 10)(Rosana Hessel)