Título: Superávit sobrevive às barreiras comerciais
Autor: Salgueiro,Sônia
Fonte: Gazeta Mercantil, 14/01/2009, Brasil, p. A6

São Paulo, 14 de Janeiro de 2009 - Apesar das barreiras comerciais impostas pelo governo argentino no ano passado - como a elevação das tarifas sobre produtos agrícolas exportados, a tentativa de elevar a Tarifa Externa Comum (TEC) para alguns itens importados, como máquinas e equipamentos, e a adoção do licenciamento não-automático para 1.200 produtos, como artigos da linha branca, produtos têxteis e calçados - , a atribulada relação Brasil-Argentina encerrou 2008 com superávit favorável ao Brasil e, como em 2006 e 2007, ele ficou novamente na casa dos US$ 4 bilhões. "Em virtude da crise internacional, dificilmente conseguiremos número parecido neste ano. Com certeza, a balança de 2009 será muito mais equilibrada", diz Alberto Joaquim Alzueta, presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo.

Segundo o dirigente, as compras dos dois países serão mais modestas porque ambos crescerão a taxas menores. No caso argentino, o Produto Interno Bruto (PIB), que subiu 8,5% em 2007 e entre 6,5% e 7% no ano passado, deve fechar este exercício com uma expansão máxima de 1,5%, se confirmadas as estimativas dos principais institutos argentinos.

Diante desse quadro, Alzueta prevê que as exportações brasileiras à Argentina cairão cerca de 23% neste ano. Já as importações do parceiro de Mercosul tenderão a cair na casa dos 18%. Os produtos mais afetados serão justamente os mais trocados entre os dois países, como automóveis, máquinas agrícolas, veículos de carga e autopeças, avalia.

A diretoria da Agco Corporation, dona dos tratores e colheitadeiras das marcas Massey Ferguson, Valtra, Agco-Allis e Challenger, antevê um período de vacas magras na região neste ano. "A economia argentina sofre com a falta de liquidez e, para piorar, a rentabilidade do agricultor cairá devido à queda de preço das commodities", afirma Rasso von Reininghaus, vice-presidente na América do Sul da Agco Corporation. Ele estima que o mercado argentino movimentará em torno de 5 mil tratores neste ano, 40% abaixo da marca de 2008. Quanto às colheitadeiras, devem ser absorvidas de 1.100 a 1.200 máquinas, 30% a 35% menos que no ano passado.

Reininghaus considera que medidas equivocadas do governo argentino, como a taxação das commodities agrícolas, prejudicaram bastante o agronegócio local. "Eles tiveram um desempenho abaixo do mercado, num momento em que a cotação dos produtos agrícolas era positiva", diz ele. As vendas de tratores e colheitadeiras até aumentaram cerca de 25% em 2008, mas o crescimento poderia ter sido maior, segundo o executivo. A Argentina é o principal cliente da Agco brasileira. Dos cerca de 15 mil tratores exportados no ano passado, 24% seguiram para o mercado argentino. Metade das colheitadeiras vendidas no exterior também tiveram o país vizinho como destino.

O setor automotivo é a grande vedete da pauta entre os dois parceiros. Segundo levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), ele respondeu sozinho por 32% das exportações brasileiras à Argentina em 2007 e pelo mesmo percentual das importações feitas do país vizinho. "O setor funciona de maneira muito integrada, porque, pelas regras do acordo automotivo do Mercosul produzir na Argentina é quase como produzir em Porto Alegre em relação a São Paulo", afirma o professor Mauro Zilbovicius, do Departamento de Engenharia da Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

O segundo item mais exportado pelo Brasil são máquinas e equipamentos (13%), seguidos por materiais e produtos elétricos (12%). Não à toa, os produtos manufaturados responderam por 93% de nossas vendas ao mercado argentino em 2007 e por 78% do que importamos de lá.

Na concepção de Mário Marconini, diretor de Negociações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), seguramente a corrente de comércio entre os dois países cairá neste ano por causa da crise. "Mas é difícil projetar de quanto será essa queda", ressalta, acrescentando que a Argentina deve sofrer mais, devido à sua delicada situação econômica e política (déficit público, inflação alta, estatização dos fundos de previdência, etc.)

Desde 2004 a balança Brasil-Argentina é favorável ao País e o superávit a nosso favor é crescente ano a ano: era de R$ 1,82 bilhão em 2004, chegou a US$ 4,07 bilhão em 2007 e, no acumulado janeiro a novembro de 2008, atingia US$ 4,28 bilhões. "Não fosse a crise internacional, o saldo do ano passado seria ainda maior", diz o diretor da Fiesp. Marconini acha que a desvalorização da moeda brasileira ajudou na construção desse superávit, mas entende que o saldo não foi obtido só à custa disso.

"Tem mais a ver com competitividade do que com câmbio", avalia. Segundo ele, o Brasil é mais competitivo porque fez a chamada "lição de casa", isto é, está com as contas e a inflação sob controle e, ao contrário do país vizinho, não vive às voltas com turbulências políticas.

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 6)(Sônia Salgueiro)