Título: Excelência científica e crescimento sustentado
Autor: Jean-Pierre Férézou e Roberto Nicolsky
Fonte: Gazeta Mercantil, 22/09/2004, Opinião, p. A-3

Recentemente uma análise intitulada "The Scientific Impact of Nations", publicada por David A. King na famosa revista científica inglesa Nature, teve ampla repercussão pública. O estudo mostrava que o Brasil era o 19 de um grupo de 31 países que concentram mais de 98% da produção das publicações mais citadas, ou seja, faz parte da primeira divisão mundial de ciência. Os demais 162 países com trabalhos científicos publicam menos de 2% do total.

Apesar da existência de numerosas deficiências, o índice de citação de um artigo, ou seja, o número de vezes que esse artigo é citado por outros autores no mundo, constitui um critério reconhecido da qualidade do seu conteúdo científico.

Assim, o Brasil passou de 0,84% dos artigos publicados em ciência e engenharia, no qüinqüênio 1993-1997, para 1,21% em 1997-2001, o que representa o crescimento significativo de 45% acima do desempenho mundial. Esses números, bem como o aumento da participação do Brasil nos artigos mais citados (39%) e, melhor ainda, entre os "top 1%" mais citados (72%), são lisonjeadores para a nossa ciência. Entretanto, outros países em desenvolvimento como China (incluindo Hong Kong) e, principalmente, Coréia são os que mais crescem.

E por que esse desempenho não correspondeu a um crescimento do nosso PIB no mesmo período? A resposta é que não é a ciência (a geração de conhecimentos), como muitos pensam, mas sim o domínio da tecnologia industrial (a competência no uso de conhecimentos para gerar inovações que tornem nossa indústria mais competitiva) que faz a economia crescer de modo sustentado e rápido, como o mostram os países orientais.

E essa competência em inovação tecnológica não se mede por artigos: ela é internacionalmente medida pelas patentes concedidas no maior mercado, o norte-americano.

Se computarmos os dados de registros de patentes no Uspto - o escritório de marcas e patentes dos Estados Unidos - para os mesmos períodos, vemos que o avanço do nosso país foi mínimo, apenas 1% no período.

Enquanto isso, as patentes da China e da Coréia cresceram 32% e 76% no período, respectivamente, como resultado do foco na geração de inovações e na construção de tecnologias próprias para a sua produção. Esse foco é mais notável na Coréia, onde o dispêndio em P&D não-acadêmico é hoje cerca de 85% do total, mas já foi até superior a 95% nos anos 70, quando aquele país iniciou o seu esforço de crescimento. O resultado é que a Coréia registra cerca de 30 vezes mais patentes nos EUA do que nós.

A grande surpresa, porém, é que, apesar de o esforço desses países estar centrado em inovações nas empresas, o resultado que colhem é ainda melhor em artigos científicos.

A China cresceu mais do que nós, e a Coréia mais que o dobro. Em citações, a China e a Coréia cresceram, respectivamente, duas e três vezes mais. Mas é nos artigos do grupo "top 1%" que essa vantagem se expressa melhor: a China alcança 125% de crescimento e a Coréia 179%, mais de duas vezes e meia o nosso índice.

A explicação para esse aparente paradoxo é simples: a geração própria de inovações estimula a ciência na medida em que as indústrias inovadoras demandam pesquisadores para realizá-las, e as universidades os formam através da participação na pesquisa científica. Na Coréia, quase 70% dos pesquisadores trabalham nas indústrias.

Mas o resultado mais significativo é que, nesse ambiente, os artigos gerados têm foco nas inovações em desenvolvimento nas indústrias, o que resulta em muito mais objetividade. A conseqüência é uma presença mais expressiva entre os artigos científicos da área e, por isso, mais citações.

No Brasil isso também ocorre, pois, embora tenhamos 1,21% dos artigos científicos no cômputo geral, na área agrícola, onde temos a Embrapa investindo em tecnologia, esse percentual sobe para mais de 3%. Ou seja, a melhor maneira de a ciência crescer mais e alcançar excelência, mas atendendo a demandas da sociedade, é fomentar inovação nas indústrias.

Esse processo já se consolidou na Coréia e está em evolução na China. Entre nós, a política industrial, tecnológica e de comércio exterior anunciada pelo governo propõe-se a ter centro na inovação, o que já constitui um grande passo à frente.

Para tanto, contudo, necessitamos de corajosas ações para pôr o foco na inovação tecnológica da indústria, fazendo com que a economia cresça mais rapidamente e desenvolvendo mais e melhor a nossa ciência, sob pena de continuar apenas contabilizando os nossos artigos, num processo elitizante e estéril para o desenvolvimento econômico e social do País.

* Químico, pesquisador licenciado do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), França, e consultor do Instituto de P&D de Produtos Farmacêuticos, Fármacos e Agroquímicos (IPD-Farma). *kicker: Precisamos de ações corajosas para pôr o foco na inovação tecnológica da indústria