Título: Uma equipe moldada à imagem de Clinton
Autor: Hessel,Rosana
Fonte: Gazeta Mercantil, 19/01/2009, Internacional, p. A16
Paulo, 19 de Janeiro de 2009 - A predominância de ex-assessores de Bill Clinton (1993-2000) no gabinete do novo presidente dos Estados Unidos Barack Obama, que toma posse amanhã, é um fato curioso. Em seus discursos, o mote da campanha do senador por Illinois, "mudança", sempre era apregoado especialmente nos ataques à ex-rival, a ex-primeira-dama Hillary Clinton, durante as primárias do Partido Democrata, a mais longa na história dos Estados Unidos. Mas os membros da sua equipe, desde secretários de gabinete, passando por assessores até chegar aos chefes das agências de departamento, são quase todos oriundos do esquadrão do último presidente democrata norte-americano e levanta dúvidas sobre que tipo "mudança" realmente vai ocorrer a partir de amanhã, quando Obama assume como o primeiro presidente negro dos EUA.
"Essa é uma questão interessante, mas se você quer mudar a política, é preciso pessoas com experiência. E o governo Clinton é o único com experiência nos últimos 30 anos para o Partido Democrata, desse modo, qualquer pessoa com essa experiência no governo é importante", afirma Clyde Wilcox, professor do Departamento de Governo da Georgetown University, em Washington.
Para o professor, Obama procurou democratas para compor o governo e os democratas com experiência são do governo Clinton, o único presidente do partido de 1980. "Algumas vezes você precisa de experiência para realizar mudanças. Mas corre o risco de não corresponder às expectativas."
O embaixador e diretor do Centro de Estudos Americanos da FAAP, Sergio Amaral, concorda que essa dicotomia entre o discurso e a prática de Obama é uma questão paradoxal, mas ela está totalmente ligada à questão da atual crise econômica pela qual o mundo atravessa. "Quando a gente olha para a equipe de Obama parece que não há mudança, mas é importante ter pessoas experientes para enfrentar a crise atual e abrir assim o caminho para que as mudanças realmente ocorram", afirma.
Hillary, assim como teve uma presença forte no governo do marido, será um dos maiores destaques da equipe de Obama. A senadora, que assume a secretaria de Estado, tinha como mérito principal durante a campanha do partido a experiência, especialmente para combater a crise econômica que ameaçava explodir ao longo de 2008. Agora, ela terá um papel-chave como conciliadora norte-americana no cenário internacional e tentará, junto com Obama, cumprir a promessa dele de melhorar a imagem dos EUA pelo globo, bastante arranhada por George W. Bush.
Homens que integravam o primeiro escalão de Clinton exercerão funções estratégicas, especialmente para implementar o que grande parte dos economistas já chamam de novo New Deal em função do enorme déficit fiscal, recorde superior a US$ 1,2 trilhão que Bush deixa como parte de seu legado. Aliás, combater a crise econômica e o desemprego será a principal prioridade de Obama nos seus primeiros 100 dias de governo, de acordo com os especialistas e a imprensa em geral. Fazendo parte desse primeiro pelotão está Lawrence Summers, por exemplo, ex-secretário do Tesouro no último ano e meio da presidência de Clinton, será chefe do Conselho Econômico da Casa Branca. Entre esses conselheiros, Robert Rubin, ex-secretário do Tesouro de 1995 a 1999, é um dos destaques da equipe pois têm a experiência de ter enfrentado a crise financeira do México durante o governo Clinton. O chefe de gabinete de Obama, o deputado de Illinois, Rahm Emanuel, além de ser o quarto mais poderoso membro da Câmara de Representantes, também foi assessor de Clinton. Leon Panetta, ex-chefe de gabinete de Clinton, irá chefiar a CIA.
O discurso pela "mudança" terá menor impacto tendo em vista a urgência para se obter a recuperação econômica e formar uma base de sustentação política que possibilite a discussão sobre os valores da sociedade americana em um mundo global e interconectado entre nações e sociedades, afirmou o professor de economia da EAESP/FGV, Ernesto Lozardo em seu artigo publicado recentemente na Gazeta Mercantil. "As dicotomias da política econômica que naufragaram o New Deal não poderão estar presentes na política econômica de Obama. O mundo espera por algo objetivo e drástico do novo presidente para recolocar a maior economia do mundo nos trilhos do crescimento sustentável", acrescenta.
A atual crise é muito grave, comenta Amaral, e os seus desdobramentos como os indicadores recentes da economia norte-americana, como déficit fiscal, comercial, taxa de desemprego e o cenário internacional bastante conturbado com a crise do gás na Europa, os conflitos Israel-Hamas no Oriente Médio, exigem pessoas com bastante experiência para conduzir o governo. "Mas há sinais de que haverão mudanças e ela não será apenas um mero discurso", afirma Amaral, citando como exemplo o fato de Obama priorizar a questão social, ter sinalizado em fechar a prisão de Guantánamo e também em suspender o embargo à Cuba, mas não em um primeiro momento. "Há um sinal claro de que a política externa norte-americana, que será conduzida por Hillary será diferente, com um maior diálogo e menos uso da força militar", afirma.
O professor Wilcox também defende que as escolhas de Obama focam em mudanças. "Mas, se você quer garantir um sistema de saúde público nacional, é necessário alguém que entenda o que está acontecendo", afirmou ele lembrando que, para isso, Obama escolheu Tom Daschle como secretário da Saúde. "Se você quer mudar os métodos de interrogação, você precisa de alguém que possa assumir o Departamento de Justiça rapidamente e eliminar a prática da tortura."
(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 16)(Rosana Hessel)