Título: Vale aproveita crise para se reorganizar
Autor: Lorenzi,Sabrina ; Elias,Juliana
Fonte: Gazeta Mercantil, 02/02/2009, Indùstria, p. C7

Rio de Janeiro e São Paulo, 2 de Fevereiro de 2009 - A despeito da crise, que derrubou produção e salários dos empregados da Vale, a companhia vai às compras. Com desembolso de US$ 1,6 bilhão, a empresa adquiriu minas de ferro da Rio Tinto em Corumbá, no Pantanal do Mato Grosso do Sul, e jazidas de potássio na Argentina e no Canadá, que se somarão aos projetos para fertilizantes que já detêm no Peru e no Brasil. Especialistas ouvidos pela Gazeta Mercantil já esperavam as aquisições por causa do caixa que engordou antes da crise.

"Para quem pode, é um bom momento para fazer negócio e a Vale tem bastante dinheiro em caixa, dos lucros anteriores ao quarto trimestre", avalia Alexandre Gadotti, da Tendências Consultoria.

Além das compras anunciadas, a companhia disputa a exploração e produção de uma das maiores minas de fosfato do mundo, localizada na Tunísia, segundo o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, que esteve com uma missão brasileira no Norte da África, conforme informações veiculadas pela agência de notícias da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. A Vale, porém, não confirma a informação.

A Tunísia é um dos maiores produtores mundiais de fosfato, insumo também utilizado na produção de fertilizantes, e o Brasil um de seus grandes importadores. O projeto está estimado entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões. Segundo o ministro, caso vença a concessão, a Vale pretende exportar toda a produção da mina para o Brasil. Em contrapartida, a companhia se compromete a transferir toda a tecnologia necessária para a região. A estimativa é gerar entre 18 mil e 20 mil empregos, a serem preenchidos com mão de obra local.

A estratégia da Vale de voltar ao ramo de fertilizantes se deve ao crescimento da demanda por alimentos no mundo. A empresa adquiriu os projetos Rio Colorado, na Argentina, e de Regina no Canadá. O projeto argentino tem capacidade inicial para produzir 2,4 milhões de toneladas por ano e um total de 410 milhões de toneladas de potássio. Está prevista a construção de ramal ferroviário, porto e geração de energia. A mina canadense do produto possui potencial semelhante e conta com infraestrutura pronta com acesso ao mercado asiático.

A Vale já explora potássio em Sergipe e em Bayovar, no Peru. Numa clara aposta na recuperação do mercado de ferro, a Vale incorporou a mina da Rio Tinto no maciço do Urucum, montanha do pantanal onde a empresa já possui reservas ao lado da MMX.

O secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores do Mato Grosso do Sul, Antônio Alves Ferreira, disse que a companhia deve manter os funcionários pelo menos até abril. "Não tivemos problemas com a Vale nem com nenhuma delas. São os salários mais altos da região", disse o sindicalista. Segundo ele, desde novembro foram demitidos 41 empregados da Rio Tinto e 34 da Vale. A MMX, segundo ele, não fez demissões e aproveitou o momento de mercado ruim para treinar os profissionais. Ferreira disse ainda que os planos da Rio Tinto na mina de Corumbá eram aumentar a produção dos atuais dois milhões de toneladas para 22 milhões. "Não sabemos o que será agora", disse. De acordo com a Vale, a mina possuía até o final de 2007 reservas provadas de 210 milhões de toneladas, com teor de ferro de 67%, considerado de alta qualidade.

"Corumbá é um ativo de classe mundial, com alto teor de ferro e rico em granulados de redução direta, tipo de minério de ferro de alto valor que estão se tornando crescentemente escasso no mundo", afirmou a companhia. Além da qualidade do minério, o fato de já possuir uma mina ao lado do projeto da Rio Tinto pesou para fechar o negócio. "Isso gera sinergia e otimiza a produção", avalia Gadotti. "Existe potencial para exploração de várias sinergias, envolvendo maior flexibilidade dos ativos, redução de custos administrativos, de logística e racionalização do uso das reservas".

O apetite da Vale mostra que a empresa aposta na recuperação do mercado. Analistas avaliam que a crise está levando a mineradora a um rearranjo das operações, com fechamento de minas de pouca produtividade em Minas, como Jangada, Feijão, Ferro Brumadinho, Barão de Cocais e Mar Azul. Também anunciou a paralisação da produção em várias partes do mundo, como França, Noruega, Canadá. Paralelamente, a empresa está cortando a produção em minas com alta produtividade, mas não revela nomes.

(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 7)(Sabrina Lorenzi e Juliana Elias)