Título: Ipea defende corte drástico
Autor: Monteiro,Viviane
Fonte: Gazeta Mercantil, 21/01/2009, Brasil, p. A5

Brasília, 21 de Janeiro de 2009 - A crise pode interromper o ciclo positivo da atividade econômica conquistado nos últimos anos e reverter a trajetória positiva do mercado de trabalho. A opinião é do presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Marcio Pochmann, que divulgou ontem simulações econômicas sobre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. As projeções consideram taxas de crescimento entre 1% e 4% este ano, em relação a 2008. Ainda assim, seriam taxas insuficientes para garantir a entrada de novas pessoas no mercado de trabalho em 2009.

"Todas as simulações que fizemos indicam que um crescimento inferior a 4% implicará numa possível inflexão da trajetória positiva que o Brasil vinha enfrentando", disse. Ele defendeu cortes "drásticos" da taxa Selic no decorrer deste ano, entre 4 e 5 pontos percentuais, para aquecer a economia em 2009. Ele destaca que a taxa de crescimento do PIB em 2009 vai definir se a economia interromperá ou não o ciclo positivo.

Pochmann defendeu que o Brasil precisa crescer pelo menos 4% em 2009 para manter o desemprego nos patamares do ano passado. Com esse crescimento, a taxa de desemprego poderia oscilar levemente para 7,7% este ano e ficar praticamente estável em relação a 2008, estimada pelo Ipea em 7,6%. Ainda assim, o crescimento de 4% seria insuficiente para absorver todos os novos desocupados, diante da População Economicamente Ativa (PEA) estimada em 1,45 milhão de pessoas, Pois resultaria em déficit de mais 154 mil desempregados no ano, totalizando estoque de 7,782 milhão de desocupados. Se a economia crescesse 4% este ano, a participação do trabalhador na renda nacional ficaria praticamente inalterada, saindo de 49,1% estimada para 2008, para 49,2% em 2009. Podendo manter a trajetória de alta iniciada em 2004.

Os técnicos do IPEA fizeram outras duas simulações de cenários possíveis para a economia brasileira este ano, levando-se em conta o impacto da crise financeira mundial. Um outro é de crescimento econômico de 2,5%. Dessa forma, a taxa de desemprego poderia subir 8,1%, o que resultaria em 644 mil novos desempregados, totalizando 8,272 milhões desocupados). E a parcela salarial do trabalhador poderia cair 0,6% em relação a 2008.

Na simulação mais pessimista, a economia cresceria apenas 1%. Com isso, seriam criados somente 320 mil novos empregos, enquanto que seriam incorporados 1,126 milhão ao estoque de desempregados: totalizando 8,754 milhões. E a renda do trabalhador poderia recuar 3%. Foram levados em consideração nas simulações dados primários da Matriz de Insumo e Produto (MIP) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A taxa de desemprego poderia atingir 10%, como chegaram a estimar alguns economistas. Pochmann disse que isso só aconteceria se o Brasil entrasse em recessão, mas ele não trabalha com essa possibilidade. Critico à política de juros altos do Brasil, Pochmann defendeu cortes "drásticos" da Selic no decorrer deste ano. O juro básico da economia está em 13,75%. Pochmann não sugeriu cortes para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que termina nesta quarta-feira. Porém, defendeu cortes entre 4 e 5 pontos percentuais ao longo do ano, em uma tentativa de o governo aquecer a economia e "aproveitar 2009".

Segundo Pochmann, as medidas já anunciadas pelo governo para driblar a crise são positivas, mas insuficientes para fazer o Brasil crescer no mínimo 4% este ano. O governo estima alta de 4% para o PIB este ano. A taxa é praticamente o dobro da estimada pelos analistas de mercados consultados pelo Boletim Focus, do Banco Central, de 2%. "São poucos países no mundo hoje que não reduziram a taxa de juros. A maior parte dos países opera com juros negativos, ou seja, abaixo da inflação", disse. "Foi um equívoco elevar a Selic em 2008, pois há uma defasagem entre as decisões do Copom e o rebatimento na economia real", emendou. Segundo Pochmann, em média, existe uma defasagem de seis a oito meses para o aperto monetário surtir efeito na economia. Ou seja, os efeitos da alta da Selic, a partir de abril do ano passado, surgem agora, no momento crítico da crise.

Pochmann diz que o Brasil tem condições econômicas de superar a crise com taxas de crescimento, pois as contas públicas, superavitárias, permitem mais gastos. Para o economista, inclusive, o Brasil tem condições mais favoráveis do que os Estados Unidos para investir. Isso porque o governo brasileiro há dois anos criou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que já tem investimentos programados.

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 5)(Viviane Monteiro)