Título: Para analistas, estatal é instrumento contra crise
Autor: Americano,Ana Cecília
Fonte: Gazeta Mercantil, 26/01/2009, Brasil, p. A8
26 de Janeiro de 2009 - O anúncio do plano de investimentos da Petrobras para o quinquênio 2009-2013, teve um componente político forte. Para alguns analistas de mercado, aumentar os investimentos em 55%, em plena crise econômica, é uma sinalização de que o governo Lula usará a companhia como um instrumento que se somará a outras ações anti-cíclicas, visando minimizar os efeitos da desaceleração econômica em curso no País. A decisão tem o lastro de quase um milhão de empregos - diretos ou indiretos - ligados a Petrobras e a força de suas encomendas em toda a cadeia de fornecedores.
Na prática, parte dos US$ 174,4 bilhões previstos no plano será garantida pelo governo Lula por meio de financiamentos provenientes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A começar pelos primeiros R$ 25 bilhões já em 2009, sem mencionar os novos recursos que poderão ser solicitados pela empresa ao banco a partir de 2010, conforme informou na sexta-feira, José Sérgio Gabrielli, presidente da empresa.
O anúncio da futura captação junto ao BNDES deu-se pouco depois de a empresa ter comunicado operações de alongamento do perfil da dívida da empresa com Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Segundo Gabrielli, a reunião do conselho da empresa ao final da semana passada contou com a presença do próprio presidente Lula. "Ele nos informou do apoio do governo à indústria produtiva e da disponibilidade de recursos para o desenvolvimento industrial", contou o executivo à imprensa. Segundo Gabrielli, o presidente Lula fez questão de frisar a diferença de sua política anti-crise com a de outros governos. "O seu apoio não é para socorrer empresas, tirando-as do buraco, mas para viabilizar a expansão do investimento produtivo", disse.
No quinquênio, Gabrielli informou que a geração de caixa da empresa deverá somar US$ 120 bilhões. Portanto, calculando o preço do barril Brent a US$ 37, em 2009; US$ 40 em 2010; e US$ 45 no longo prazo, as captações necessárias à empresa - da ordem de US$ 50 bilhões no período - seriam "bastante viáveis". Ainda assim, os US$ 50 bilhões não serão considerados como meta de captação da empresa. "Parte dos nossos custos vão cair", lembrou o presidente. O executivo afirmou trabalhar com uma meta de alavancagem média entre 25% e 30%.
Devido à crise, que se apresentará mais forte em 2009, e a dificuldade de crédito no mercado internacional, a captação neste ano é estratégica. Segundo Gabrielli os investimentos previstos pela companhia em 2009 são US$ 28,6 bilhões. Desses, "já temos assegurados 11,9 bilhões US$ do BNDES e mais US$ 5 bilhões de um conjunto de bancos nacionais e internacionais". Ou seja, faltaria US$ 1,2 bilhão que a empresa já tem em caixa, mas que prefere captar no mercado.
Para Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (Cbie), a Petrobras é um dos principais instrumentos que o governo tem na mão para minimizar os efeitos da crise sobre a economia brasileira. "O plano de investimentos era para ter sido anunciado há meses. E isso só não se deu para que a empresa pudesse equacionar seu financiamento", avaliou.
Para o especialista, na prática, o investimento anunciado tem apenas a conotação de um "exercício acadêmico". "Politicamente, o governo deve cumprir o papel de anunciar à sociedade que a crise não afetou a Petrobras", comentou. Na opinião de Pires, o valor verdadeiro dos investimentos estaria mais associado ao valor de investimentos a serem feitos em 2009. "Daí para frente é tudo ficção", acredita.
Outros especialistas vêem a situação de forma similar. "Em resumo, a Petrobras tem um plano de investimento agressivo em um momento em que os preços do petróleo geram menor ritmo de receita, aliado a uma dificuldade de captação de recursos no mercado internacional", avaliou o engenheiro químico Alfredo Renault, superintendente da Organização Nacional da Indústria de Petróleo (Onip). "Há muita coisa em carteira a ser feita", lembrou.
Giuseppe Bacoccoli, pesquisador da Coordenação de Programas de Pós Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) vai mais longe. "O governo, com esse plano, realmente botou para quebrar. É uma montanha de dinheiro", avaliou. Para o professor, ao financiar um plano de investimentos da Petrobras tão ambicioso quanto o atual, que equivale a cerca de R$ 100 milhões por dia até 2013 o governo está efetivamente utilizando a empresa para alavancar a economia brasileira.
Por outro lado, a decisão de investir agora faria sentido do ponto de vista estratégico, apesar dos altos custos de exploração do pré-sal. "A produção do pré-sal não vai sair agora. O grosso chega a partir de 2015. Portanto, não se pode pensar os investimentos de hoje com os preços de petróleo atuais, mas projetá-los para daqui a cinco anos, quando, certamente poderá chegar a US$ 60 ou US$ 70", raciocinou o especialista. "Se o barril chegar acima dos US$ 50, já é negócio investir", calculou.
Bacoccoli lembrou ainda que, no caso das refinarias, as obras pressupõem o volume de petróleo a ser extraído do pré-sal. "As obras envolvidas dependem diretamente do pré-sal e o governo deverá manter esses projetos como uma bandeira", acredita.
O professor ressaltou a importância da Petrobras no cenário macroeconômico brasileiro. Segundo ele, a reação da companhia, em tempos de crise, é inversa à do setor de extração mineral. "A Vale e as siderúrgicas, por exemplo, estão numa fase de desinvestimentos", comparou.
O discurso da empresa, por sua vez, segue otimista. "No curto prazo, esse plano de investimentos apresenta viabilidade financeira; no médio prazo, aumenta a nossa capacidade produtiva de forma significativa. E, no longo prazo, leva essa companhia a atingir a meta de ser uma das maiores companhias de petróleo do mundo e uma das maiores companhias de energia do mundo. Vamos crescer em petróleo, gás natural, energia elétrica, biocombustíveis, distribuição e petroquímica", resumiu Gabrielli.
(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 8)(A.C.M.)