Título: Petrobras eleva investimentos em 55%
Autor: Americano,Ana Cecília
Fonte: Gazeta Mercantil, 26/01/2009, Brasil, p. A8

Petrobras fosse, no máximo, manter o mesmo nível de investimentos obtido até 2008, a empresa anunciou na sexta-feira à noite um valor surpreendente, até mesmo entre os mais otimistas: US$ 174,4 bilhões para o quinquênio 2009-2013, volume 55% superior ao anunciado para o período de 2008-2012, de US$ 112,4 bilhões. A verba equivale R$ 96,8 milhões de recursos por dia até 31 de dezembro de 2013. Um recorde na história da estatal, apesar ou, talvez, em razão da crise econômica internacional.

O plano, que teve sua divulgação adiada por quatro vezes, destina cerca de 90% dos investimentos para os empreendimentos domésticos e menos de 10% - US$ 16,8 bilhões - para projetos no exterior. "A prioridade clara e explícita neste momento é o Brasil. Não vamos crescer o investimento no exterior. Queremos otimizar nossos recursos internacionais e focá-los", resumiu José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, no Rio de Janeiro, durante a apresentação do plano estratégico à imprensa.

A maior parte - US$ 104,6 bilhões ou 60% do total - será destinado a área de exploração e produção de óleo e gás, um aumento de 61% sobre os planos anteriores. Deste total, US$ 28 bilhões - ou R$ 65,52 bilhões - são para o pré-sal.

Refinarias a todo vapor

A mesma ousadia deu-se no que tange ao segmento de abastecimento, que inclui as atividades de refino, transporte, logística e comercialização. Neste caso, o aumento na previsão de investimentos foi de 41%, ampliando a projeção anterior de US$ 29,6 bilhões, para US$ 43,4 bilhões no quinquênio. O total é suficiente para manter na carteira projetos de refinarias e as datas de início de operação em Abreu e Lima, em Pernambuco - com ou sem a venezuelana PDVSA -, ainda em 2011; o complexo petroquímico fluminense Comperj, em 2012; e os primeiros módulos das refinarias Premium I, no Ceará, em 2013; e Premium II, em 2014, no Maranhão.

O discurso assertivo de Gabrielli vem sendo corroborado com algumas ações práticas da empresa. Na quarta-feira da semana passada a Petrobras inaugurou o Centro de Integração do Comperj, com a presença do seu diretor de abastecimento, Paulo Roberto da Costa. A medida foi uma oportunidade de demonstrar à imprensa o status das obras da petroquímica, já em estágio de terraplanagem. Dois dias mais tarde, na sexta-feira, em Pernambuco, foi a vez de a ministra Dilma Rouseff dar pessoalmente início à segunda fase da construção da refinaria de Abreu e Lima, que prevê a construção da casa de força do complexo, o qual deverá gerar 150 megawatts (MW) para a futura unidade de refino.

Produção doméstica

As metas da Petrobras, apresentadas por Gabrielli, são de alcançar uma produção doméstica de petróleo de 2,68 milhões de barris por dia em cinco anos. Já, quando esta conta inclui gás natural, a intenção é produzir 3,3 milhões de barris (de óleo equivalente) por dia até 2013, ante a atual produção, próxima de 1,8 milhão de barris diários. Outro objetivo diz respeito ao refino. O total de carga fresca processada no País pela empresa deverá ser de 2,27 milhão de barris dia até o final do plano.

Em grandes números, a estratégia de investimentos da Petrobras destina US$ 47,9 bilhões a novos projetos, predominantemente na área do pré-sal - ou 43% do aumento de investimentos. A companhia prevê também US$ 17 bilhões ao possíveis aumento dos custos de produção e US$ 2,9 bilhões à variação cambial e mudanças no escopo de alguns projetos. "É um plano bastante robusto", admitiu o presidente da estatal. "E fundamental para a manutenção do crescimento da Petrobras no setor de petróleo e gás", garantiu.

Segundo Gabrielli, no entanto, os US$ 174,4 bilhões refletem a situação de preços altos. "Queremos reduzir este valor e realizar todos os projetos previstos com custos bem menores do que esses". Ainda que isso signifique o cancelamento ou a mudança no formato dos editais atuais, com a redefinição do escopo dos projetos. Gabrielli pretende reformulá-los, seccionando-os em atividades menores, para atrair um maior número de empresas de pequeno porte às concorrências.

Fornecedores internacionais

"Não podemos legitimar os investimentos com os preços atuais", disse o dirigente. Se os preços no País não chegarem a patamares aceitáveis, um último recurso será a abertura dos editais ao mercado internacional. "Queremos garantir no Brasil a manutenção do emprego e renda e, por isso, vemos a importância da manutenção do conteúdo nacional nos nossos projetos", afirmou. Contudo, para Gabrielli, a indústria nacional precisa atuar com competitividade. "Para se sustentar no longo prazo, a indústria deve ser competitiva", disse. Sem se comprometer, o presidente esquivou-se de detalhar sua meta de deságio nas operações da empresa.

Recentemente a Petrobras já vinha dando sinais de que não aceitaria mais trabalhar com os preços inflados ao longo do ano de 2008. Aos preços atuais, de cerca de US$ 45 o barril, a intenção é generalizar as renegociações, forçando custos e margens de encomendas e serviços para baixo. O processo de licitação da plataforma P-63, por exemplo, foi cancelado há apenas duas semanas. Segundo um comunicado da empresa, a medida foi tomada "devido aos valores das propostas recebidas terem sido considerados elevados, dadas as atuais condições de mercado".

Aposta no pré-sal

Os planos para a extração de petróleo da camada pré-sal nas águas da costa brasileira estão assegurados. Os US$ 28 bilhões destinados a esses projetos contemplam os projetos em andamento e os novos. Além do sistema piloto de Tupi (na Bacia de Santos), cuja produção inicial é prevista para 2010, outros dois sistemas na mesma bacia estão contemplados: Guará 1, em 2012, e Iara 1 em 2013. No caso dos dois últimos, suas datas foram antecipadas. Também será antecipado o projeto de desenvolvimento do Parque das Baleias, na camada pré-sal do Espírito Santo.

A intenção da empresa é chegar em 2013 com uma produção no pré-sal de 219 mil barris por dia. Em 2015, o objetivo são 582 mil barris por dia e, em 2020, 1,815 milhão barris diários apenas no pré-sal. "Essas são metas dado o conhecimento que nós temos hoje de exploração", ressaltou Gabrielli. Os investimentos terão, ainda, de receber o aval dos diversos parceiros da Petrobras no pré-sal. "Esta parcela é a correspondente à Petrobras e está sujeita à negociação com os nossos parceiros", frisou o presidente, lembrando que a empresa está buscando desenvolver novos modos de produção, de forma a reduzir os custos envolvidos nos projetos.

Refino estratégico

As atividades de refino também receberam, por parte da empresa, status estratégico. "Como estamos projetando o crescimento da produção de petróleo, queremos aumentar a integração do petróleo com o refino", afirmou o presidente da Petrobras. Assim, a manutenção das datas da inauguração das novas refinarias passa a ser essencial para a empresa. A intenção é "poder capturar o valor adicionado do aumento da produção de petróleo" no País, afirmou o presidente da companhia. Questionado quanto à possível desistência da PDVSA na participação do projeto de Abreu e Lima, em Pernambuco, Gabrielli foi enfático: "Queremos fazê-la com a PDVSA, mas se isso não for possível, o faremos sozinhos", disse o executivo.

Biocombustíveis

Por fim, a área de biocombustíveis também recebeu o seu quinhão no novo plano da Petrobras. Nos próximos cinco anos estão previstos investimentos na área - abrangendo projetos de biodiesel e etanol - de US$ 2,4 bilhões, um aumento de 87% ante ao plano quinquenal anterior.

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 8)(Ana Cecília Americano)