Título: China investe 26, 5% a mais
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Fonte: Gazeta Mercantil, 12/03/2009, Internacional, p. A17

Pequim, Zurique (Suíça e NOVA YORK, 12 de Março de 2009 - Os gastos da China com investimentos dispararam em janeiro e fevereiro, enquanto o país despejava dinheiro em rodovias, ferrovias e na rede elétrica, para contrabalançar o declínio nas exportações, que tiveram uma queda recorde no mês passado.

Os investimentos em ativos fixos urbanos cresceram 26, 5% , mais que o estimado, nos dois primeiros meses do ano, para US$ 1 50 bilhões, em relação a janeiro e fevereiro de 2008, informou ontem o departamento de estatística da China. Um outro relatório divulgado ontem mostrou que as exportações caíram 2 5, 7% em fevereiro.

O pacote de US$ 58 5 bilhões do primeiro-ministro Wen Jiabao, que combina cortes nos impostos e gastos em infraestrutura, poderá ajudá-lo a atingir a meta de crescimento econômico de 8% este ano, mesmo enquanto o comércio mundial entra em colapso. Os sinais de recuperação da China, inclusive uma disparada dos empréstimos e alta do poder de consumo, acionaram um avanço de 17% na Bolsa de Xangai em 2009.

"O crescimento econômico da China poderá ter uma forte recuperação neste trimestre e no próximo, por causa da expansão dos investimentos desencadeada pelo pacote de incentivo", disse Xing Ziqiang, economista da China International Capital Corp., em Pequim. " A queda nas exportações, porém, poderá puxar para baixo os investimentos da indústria de transformação, fazendo com que o crescimento desacelere novamente no segundo semestre."

A alta nos gastos superou a estimativa de 21 , 5% dos economistas consultados pela Bloomberg News. O crescimento dos gastos contrabalança a queda no comércio porque os investimentos em ativos fixos representam 40% do crescimento econômico da China, e as exportações líquidas, 7%, disse Sun Mingchun, economista da Nomura Holdings, em Hong Kong.

Os investimentos em ferrovias triplicaram em relação aos dois primeiros meses de 2008, os na agricultura duplicaram, e os em mineração de carvão cresceram 59 ,6%, informou o departamento de estatística chinês.

Saldo comercial despenca

Os efeitos do declínio econômico estão sendo sentidos no fluxo comercial global. A China divulgou que seu superávit comercial encolheu para US$ 4,84 bilhões em fevereiro, muito abaixo das estimativas de analistas.

As exportações caíram em um quarto frente aos níveis de um ano atrás, no ritmo mais acentuado desde que os dados começaram a ser registrados pelo mercado, em 1993. " A China finalmente sucumbiu à crise financeira global pelo lado da exportação e é difícil ver por que isso melhoraria no curto prazo", disse Paul Cavey, economista da Macquarie Securities, em Hong Kong.

"Não há esperança de que a demanda das exportações se recupere logo", disse Wang Qian, economista do JPMorgan Chase, em Hong Kong. " A velocidade da recuperação das importações depende do tempo que vai demorar para o pacote de incentivo do governo começar a ter efeito e criar uma demanda real nos principais setores da economia."

Cenário sombrio

Além da queda nas exportações da China, a contração das encomendas à indústria da Alemanha e o declínio dos preços no Japão ressaltaram ontem o enfraquecimento da economia global, enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) avaliou que os governos estão muito lentos em livrar os bancos de "ativos tóxicos".

O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse que ainda espera uma recuperação da economia global a partir de meados de 2010, mas apenas se os governos agirem rapidamente para implementar as medidas de estímulo e se os balanços dos bancos estiverem livres de ativos tóxicos. "Do lado da reestruturação (de bancos), as coisas realmente estão lentas. Tenho receio que, se formos nesse caminho por dois ou três meses, a recuperação de 2010 será difícil", disse.

Em artigo publicado no The Wall Street Journal, o ex-presidente do Federal Reserve (Fed), Alan Greenspan, negou que a política do banco central seja culpada pela bolha do mercado imobiliário dos Estados Unidos que contaminou o sistema financeiro global.

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 17)(Bloomberg News e Reuters)