Título: Sadia e Perdigão divergem em discurso
Autor: Batista,Fabiana
Fonte: Gazeta Mercantil, 18/03/2009, Agronegócio, p. B10
São Paulo, 18 de Março de 2009 - Sadia e Perdigão divergiram em comunicado sobre se estão em negociação para uma possível associação. Enquanto a Sadia assumiu a existência de "negociações recentes", a Perdigão afirmou que não há, "nesta data, qualquer negociação em curso". Ontem, as empresas não quiseram comentar a discordância. Mas, fontes próximas das empresas afirmam que as duas mantêm conversas "firmes" e, inclusive adiantadas, já tendo iniciado o levantamento de informações sobre a integração das fábricas.
Para essa fonte, é normal que a parte que vai comprar, no caso, a Perdigão, negue o interesse, ou, evite demostrá-lo, para tentar pressionar por condições mais favoráveis no negócio. Por outro lado, também não causa estranheza a parte vendedora, ou seja, a Sadia, preferir divulgar que há um outro player interessado na compra, para aumentar a tendência de valorização das outras ofertas. "Faz parte do jogo de cada uma", afirmou a fonte.
A Sadia possui 14 unidades industriais no Brasil e a Perdigão, 16. A maior parte delas estão localizadas nos mesmos estados, principalmente em Mato Grosso, onde cada uma possui três fábricas, no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.
A associação deixaria as duas empresas mais fortes, mas, neste momento, a Sadia está em uma posição mais fragilizada, ao contrário da Perdigão que está tendo condições de sentar na mesa e falar mais alto, na avaliação de um analista que preferiu não se identificar. "A Perdigão tem visão estratégica da importância dessa sinergia. Sabe que um mais um será igual a três", afirma o especialista.
A fusão das duas empresas criaria uma gigante de faturamento bruto de R$ 25 bilhões. O guidance da Sadia para o ano de 2008, divulgado no resultado de terceiro trimestre do ano passado, previa um faturamento bruto de R$ 12 bilhões em 2008. A Perdigão, até o fim de setembro, tinha obtido uma receita bruta de R$ 9,5 bilhões.
A Sadia vinha de um forte período de investimentos antes de registrar perdas em contratos de derivativos cambiais, em setembro do ano passado. A estimativa do mercado é de que esses prejuízos atinjam R$ 2,3 bilhões. O valor é praticamente um terço do valor de mercado da empresa, antes das perdas e do agravamento da crise. A companhia valia R$ 8,3 bilhões em maio de 2008, valor que atualmente está no patamar de R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões.
Ontem, as ações das duas empresas voltaram a subir na BM&F Bovespa. Os papéis da Perdigão (ON) fecharam em alta de 7,7% e os da Sadia (PN), de 4,56%. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou que a Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários do órgão está examinando os negócios realizados com as ações das companhias antes da divulgação do comunicado ao mercado.
Normalmente, explica, Peter Ping Ho, da Planner Corretora, os papéis de uma empresa que está comprando outra companhia, sobretudo com altas dívidas, como é o caso da Sadia, deveriam recuar e não cair. "Mas acredito que o mercado está influenciado pela expectativa da divulgação do resultado da Perdigão, que se aproxima", avalia Ping Ho.
Mas o mercado entendeu que existe de fato a possibilidade de o negócio entre as duas empresas acontecer, explica Denise Messer, da corretora Brascan. Para ela, foi essa constatação que trouxe a valorização dos papéis das duas companhias além do consenso de que uma associação trará ganhos importantes de sinergia. "Certamente não vai ser um acordo simples de se fazer, pois envolveria retirar a família do controle da Sadia. Mas como há indicativos de que o governo está disposto a patrocinar a fusão, aumenta a possibilidade de esse evento ocorrer", diz Denise.
Ping Ho, da Planner, acredita que uma possibilidade é o BNDESPar aportar recursos, via emissão de ações, na Perdigão, que faria, então, o aporte na Sadia. "Assim, a necessidade do novo sócio de aportar do seu caixa R$ 2 bilhões, reduziria-se para R$ 1 bilhão, caso o BNDESPar entrasse com outra parte", avalia o analista da Planner.
Ele acredita que o andamento dessas negociações deve se acelerar (ou não) após a divulgação dos resultados do último trimestre da Sadia. "A situação da empresa ainda continua complicada. O câmbio ainda não recuou. O caixa da companhia deve estar apertado", analisa Ping Ho.
Outro empecilho pode vir do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) por causa da concentração de mercado que essa fusão provocaria em algumas linhas de industrializados, que pode seria entre 60% e 70%, dependendo do produto.
Uma possível fusão traria desafio na administração das marcas das duas companhias, segundo Ivan Pinto, diretor de Assuntos Internacionais e de Cases da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). "As duas marcas são fortes. Dificilmente uma delas irá desaparecer. "A principal hipóteses é de que as duas devem ser mantidas, e, com o tempo, essa decisão pode ir mudando para algumas categorias de produtos", afirma o especialista da ES PM.
(Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados - Pág. 10)(Fabiana Batista - colaborou Luciano Feltrin)
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