Título: Nafta completa 15 anos sem cumprir promessas
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Fonte: Gazeta Mercantil, 25/03/2009, Internacional, p. A12

Cidade do México, 25 de Março de 2009 - O ex-presidente mexicano Carlos Salinas costumava prometer que o livre comércio e os investimentos estrangeiros ajudariam no desenvolvimento do país, criando um México mais rico que "exportaria mercadorias, não pessoas".

Quinze anos depois que o North American Free Trade Agreement (Nafta) entrou em vigor, apenas a primeira parte desta promessa tornou-se realidade.

As exportações do México dispararam sob o Nafta, quintuplicando para US$ 292 bilhões no ano passado, mas o país permanece exportando pessoas, quase meio milhão por ano, que buscam oportunidades nos Estados Unidos que eles não têm em casa.

A secretária de Estado Hillary Clinton visita hoje o México e o presidente Obama visitará o país em abril. Ambos devem enfatizar o sucesso da cooperação econômica entre os países. No entanto, será difícil ignorar que muita coisa no México permaneceu inalterada após a implementação do Nafta.

Os economistas defendem que, em grande parte, os culpados por esta situação foram os líderes mexicanos, que foram incapazes ou não quiseram enfrentar as oligarquias e sindicatos que controlam setores chave da economia como energia e telecomunicações. Todavia, outros afirmam que algumas consequências inesperadas do Nafta têm sua parcela de culpa.

Em alguns casos, o Nafta produziu resultados que foram exatamente o oposto daquilo que foi prometido. Por exemplo, o desmantelamento de indústrias domésticas uma vez que as multinacionais passaram a importar peças de seus próprios fornecedores.

Os produtores agrícolas locais ficaram à margem do mercado com a importação de alimentos sem qualquer cobrança de impostos. Muitos agricultores simplesmente abandonaram suas terras e foram para o norte.

Embora um quarto da população mexicana viva no interior, eles respondem por 44% daqueles que emigram para os EUA. As contradições do Nafta são visíveis na região de Guadalajara, uma versão mexicana do Vale do Silício.

Grandes companhias mundiais investiram bilhões de dólares para transformar a cidade em um centro da indústria de tecnologia da informação (TI). O setor cresceu devido à mão de obra barata e à ideia de que os investimento seriam, de certa maneira, garantidos pelo Nafta. Hoje a cidade está repleta de fábricas que produzem em abundância desde BlackBerrys até bibliotecas digitais para armazenamento de informações para a Sun Microsystems.

No entanto, os investidores vieram para Guadalajara porque a cidade já era um centro de tecnologia. A IBM, HP e outras chegaram nas décadas de 1960 e 1970 quando o mercado do México ainda era fechado.

Depois do Nafta, as novas fábricas começaram a importar peças de seus fornecedores mundiais prejudicando as companhias locais, explicou Kevin P. Gallagher, professor da Universidade de Boston que tem estudado a indústria de IT em Guadalajara.

As coisas pioraram quando a bolha tecnológica estourou, a economia norte-americana esfriou e as empresas se mudaram para a China, onde podiam pagar salários ainda mais baixos. Uma vez que a China entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC), as exportações mexicanas para os EUA, que haviam sido impulsionadas pela Nafta, perderam força. Houve uma queda de 37% no número de postos de trabalho nas fábricas de IT de Guadalajara em 2001, situação que se manteve nos dois anos seguintes.

"O acordo poderia ter trazido para cá investimentos com maior valor", incluindo pesquisa, testes e design, defendeu Jesús Palomino, gerente geral do centro de design da Intel em Guadalajara. "Entretanto, nós não sabíamos como negociar ou tirar vantagem disto."

Palomino defendeu que atrair companhias manufatureiras multinacionais foi um foco muito limitado. Ele supervisiona cerca de 300 jovens engenheiros que pesquisam, desenvolvem e testam futuros produtos da Intel. O sofisticado centro de design da Intel é um exceção entre as fábricas da região. A maior parte delas remunera mal seus empregados.

"A novo fenômeno veio à tona com o Nafta: a pobreza de alta produtividade", afirmou Harley Shaiken, presidente do Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade de Berkeley na Califórnia.

Baixos salários significam baixo poder aquisitivo. "Isto não é uma boa estratégia para um mundo globalizado", acrescentou Shaiken.

Até mesmo o maior sucesso do Nafta - as exportações - se tornou um passivo, à medida que o México sente o impacto direto da queda no consumo nos Estados Unidos. A indústria de automóveis, por exemplo, que floresceu sob o Nafta, chegou a uma paralisação virtual. No geral, as exportações de automóveis mexicanos caíram mais de 50% nos primeiros dois meses deste ano em comparação com 2008, e a produção caiu quase 45%.

O banco central prevê que 340 mil pessoas poderão perder seus empregos este ano, e alguns bancos de investimento prevêem que a economia poderá encolher 5%.Esse enfraquecimento fez o peso, que perdeu cerca de um quarto de seu valor nos últimos seis meses, cair. O investimento estrangeiro direto caiu no mês passado de US$ 27,2 bilhões em 2007 para US$ 18,6 bilhões.

Ainda assim, os economistas no México dizem que muita da responsabilidade pela falta de desenvolvimento na última década e meia reside em grande parte nos líderes mexicanos e na sua falta de vontade ou inabilidade para executar reformas reais. "Temos uma economia que se atrofiou devido à falta de reformas", disse Gerardo Esquivel, economista do Colegio de Mexico.

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 12)(The New York Times)