Título: Pacote reforça investimento em produto popular
Autor: Juliana Elias
Fonte: Gazeta Mercantil, 25/03/2009, Indústria, p. C7

São Paulo, 25 de Março de 2009 - As expectativas em torno do pacote de habitação que está para ser anunciado pelo governo reforçaram o investimento em um nicho para o qual a indústria da construção já estava atenta: o mercado de baixa renda. Depois de um ano em que milhares de famílias ascenderam à classe média, e de uma crise que deve levar muitas pessoas a reduzirem seus gastos, as fabricantes de materiais de construção vêm investindo em novas linhas de produtos populares para ampliar seu portfólio.

"A construção informal, que convecionamos chamar de ""consumo formiga"", é extremamente importante para a cadeia da construção", disse o presidente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), Cláudio Conz, durante a abertura da 17ª Feira Internacional da Indústria da Construção (Feicon Batimat). "No ano passado, foram construídas 1,3 milhão de novas moradias no Brasil. Disso, apenas 260 mil foram por meio de construtoras. Imagine quanto o consumidor não movimenta direto na loja", acrescentou. Sabendo disso, indústrias de diferentes segmentos estão investindo para atender ao crescimento da demanda desse nicho.

A Deca, fabricante de louças e metais sanitários, por exemplo, está ampliando a linha voltada para esse público, resultado do desempenho conseguido no ano passado quando fez uma parceria com a construtora MRV Engenharia, especializada em imóveis populares, para desenvolver artigos de menor custo para esses empreendimentos. Também foi por causa da aposta na linha básica que venceu uma licitação do governo do Estado de São Paulo, por meio da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), para equipar um projeto de 43 mil novas casas. "Estamos participando de um mercado antes inimaginável para nós", disse Marco Antonio Milleo, diretor de desenvolvimento e marketing da Duratex, dona da marca Deca.

Empresa que sempre buscou fortalecer sua marca pelo design e alto padrão, a Deca agora tenta expandir os mesmos traços para produtos que sejam mais baratos. Um vaso padrão da marca, por exemplo, custa em média R$ 90. Na linha econômica o preço fica em torno de R$ 40, e neste mês a empresa está lançando também uma linha intermediária, na faixa dos R$ 70, para atender um segmento médio ao qual ainda não tinha acesso. "Estamos nos preparando para isso desde fevereiro do ano passado, quando houve um aumento do poder aquisitivo das classes de renda mais baixa que aqueceu a busca por produtos econômicos. Agora estamos nos focando na expansão que o governo tem apontado para a construção civil", disse Milleo.

O mesmo aconteceu com a Fabrimar, concorrente carioca da Deca. Especializada em produtos de luxo, a empresa lançou no início do ano uma nova linha popular - enquanto um chuveiro seu pode chegar a R$ 2,5 mil, e uma torneira a R$ 1,6 mil, no segmento econômico os produtos custam, respectivamente, R$ 80 e R$ 30. "É lógico que eu quero minha fatia no 1 milhão do governo", disse o diretor comercial da produtora de metais sanitários Fabrimar, José Fernando Haddad, referindo-se à principal medida prevista no pacote habitacional do governo - a construção de 1 milhão de novas casas até 2010. Com parcelas a partir de R$ 50, as unidades serão voltadas para a faixa entre zero e 10 salários mínimos.

Também aquece a base da pirâmide a ampliação do uso do FGTS, em janeiro, para o financiamento na compra de materiais de construção. Voltada para pessoas com renda de até R$ 1,9 mil, a medida ampliou o teto do financiamento de R$ 7 mil para R$ 25 mil, e projeta liberação de R$ 1 bilhão em 2009, pela Caixa Econômica Federal (CEF), apenas neste programa.

"Nós não atuávamos nas classes C e D, e a linha Gyro (marca dos novos produtos) veio cobrir essa lacuna - inclusive junto às construtoras, que também estão desenvolvendo projetos mais populares", disse Haddad. O lançamento faz parte de um plano de investimento da Fabrimar de cerca de R$ 6 milhões, entre 2008 e 2009, de reformulação, que inclui a entrada na faixa econômica, uma linha de alto luxo - mercado também inédito para a empresa - e o crescimento em mercados estratégicos onde ainda tem participação pequena, especificamente no estado de São Paulo. Com isso, a faixa popular, que teve início no ano passado, deve chegar a até 15% do faturamento da empresa nos próximos dois anos.

Tintas econômicas

Também no mercado de tintas - que teve uma queda de 15% nas vendas do primeiro bimestre, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Tinta (Abrafati) - é no segmento popular que o setor está se escorando. "Com a crise, pode haver uma diminuição do poder aquisitivo, e as tintas econômicas saem privilegiadas", disse o presidente da Abrafati, Dilson Ferreira, durante a Feicon.

Regulamentadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) nos últimos anos, as tintas foram divididas em três classificações: econômica, standard e premium, com preços que vão, em média, de R$ 50 a R$ 220 a lata de 18 litros. Segundo Ferreira, a participação da faixa econômica dentro das vendas subiu de 35%, há um ano, para 40% hoje. Premium leva outros 40% e standard, 20%.

Na paulista Universo, os investimentos dos últimos anos foram para ampliar sua atuação no segmento premium, em que não era tão forte. A linha econômico, no entanto, representa ainda 40% das vendas e será um dos motores neste ano. "Estamos na expectativa pelos incentivos do governo e o possível aumento de crédito. A construção civil é um setor que move o País. Dependemos dela em muitos outros sentidos", disse o diretor comercial da empresa, Ary Machado.

(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 7)(Juliana Elias)