Título: Brown prega união global contra a crise
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Fonte: Gazeta Mercantil, 03/04/2009, Internacional, p. A14

Londres, 3 de Abril de 2009 - Tentando reduzir as distâncias entre as filosofias políticas e financeiras, os líderes entre as vinte e quatro maiores economias do mundo concordaram ontem com um amplo leque de novas medidas fiscais e reguladoras, em um esforço desesperado para revitalizar a paralisada economia global.

Ao término da primeira reunião de cúpula que atraiu a atenção do mundo em décadas, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, anunciou que os líderes se comprometeram a fornecer empréstimos adicionais e garantias de US$ 1,1 trilhão para financiar o comércio e ajudar os países com dificuldades.

Injeção direta

Porém os fundos que anunciou não irão constituir uma injeção direta de incentivo na corrente sanguínea econômica mundial - resultado de uma contínua divisão entre a Europa continental e grande parte do resto do mundo a respeito de se agir agora ou esperar para ver como as medidas atuais de gastos se apresentam.

"Este é o dia em que o mundo se uniu para lutar contra a recessão global", disse Brown. "Nossa mensagem hoje é clara e positiva: acreditamos que os problemas globais requerem soluções globais."

Estreia de Obama

No final, a reunião que durou todo o dia - que também foi a estréia do presidente Barack Obama nos palcos mundiais - produziu o que pareceu ser um plano mais forte e detalhado para a recuperação do que o resultado obtido em um encontro similar em 1933, que não conseguiu eliminar o protecionismo desenfreado e a miséria da Grande Depressão.

Entre as medidas que Brown detalhou estão novas e severas regulamentações sobre os fundos hedge e as agências de classificação, assim como o veto aos paraísos fiscais, que serão publicamente apontados e sujeitos a sanções caso não concordem em compartilhar informações fiscais com as autoridades de outros países.

O Grupo dos 20 também concordou com novas regras globais para limitar os pagamentos e bônus de banqueiros, e com uma abordagem comum para lidar com os ativos tóxicos sobre os balanços patrimoniais nos bancos mundiais. Esse é um tópico que tem incomodado o governo Obama e outros.

Livre comércio

Dando uma alavancagem para o endosso do livre comércio na última reunião em Washington, os participantes do G20 concordaram em "apontar e envergonhar" países que erigiram barreiras comerciais. Também prometeram US$ 250 bilhões em financiamento para o comércio.

As medidas mais concretas dizem respeito ao apoio para o Fundo Monetário Internacional (FMI), que emergiu como a primeira instituição financeira a "reagir" nessa crise global, fornecendo empréstimos emergenciais para dezenas de países.

O G20 se comprometeu a triplicar os recursos do FMI para US$ 750 bilhões - por meio de um mix de US$ 500 bilhões em empréstimos de países, e a emissão extraordinária de US$ 250 bilhões em Special Drawing Rights (Direitos Especiais de Saque), a moeda de reserva do fundo, que serão divididos para todos os seus 185 membros.

Os países, por sua vez, poderão emprestar esse dinheiro para seus vizinhos com problemas. Os membros do FMI também concordaram em emprestar os rendimentos decorrentes de vendas das reservas de ouro do fundo para os países mais pobres.

Conselho de estabilidade

Um conselho de estabilidade financeira com autoridades do primeiro escalão também será criado para fornecer um mecanismo de alerta aos países a fim de avisar sobre riscos sistêmicos em relação à economia internacional, segundo informou o comunicado.

"No conjunto, essas medidas nos fazem confiar que a economia mundial pode voltar ao caminho do crescimento", disse Gordon Brown.

Os anúncios foram feitos depois que negociadores dos EUA e da Europa trabalharam freneticamente para negociar um acordo sobre novas regulamentações, um dia depois que França e Alemanha se desentenderam em relação ao nível de supervisão que os órgãos regu-ladores deveriam ter sobre os fundos hedge e outras instituições financeiras globais.

Enquanto os EUA estavam determinados a resistir aos esforços europeus para criar órgãos reguladores com poder além-fronteiras, altos funcionários disseram que as duas partes elaboravam normas de transparência e alertas sobre riscos para os bancos que iriam aplacar a França e a Alemanha.

" Não será cedida a soberania para um órgão regulador global", disse uma autoridade da Casa Branca, que pediu anonimato porque as negociações eram confidenciais.

França e outros países europeus também pressionaram a China para que aceite a ação contra os paraísos fiscais, medida a qual o país oriental resistiu, devido às possíveis conseqüências para seus centros bancários costeiros, Hong Kong e Macao.

"Creio que teremos um acordo", disse Stephen Timms, secretário financeiro do Tesouro. "Estou no aguardo de sanções contra os paraísos fiscais. Queremos que essa pressão seja mantida."

A Grã-Bretanha iniciou conversações na quarta-feira sobre um acordo de troca de informações fiscais com Liechtenstein, um principado dos Alpes utilizado por europeus ricos e outros como um lugar para armazenar e ocultar dinheiro.

Financiar comércio

Os líderes também concordaram em aumentar em US$ 250 bilhões o financiamento disponível para o comércio mundial, que foi afetado pelo duplo impacto da crise financeira e do revés econômico .

"A meta é financiar os bancos e garantir o crédito para o comércio internacional", disse lorde Malloch-Brown, ministro britânico para a África, Ásia, e Nações Unidas. "Ao resgatarmos os sistemas bancários nacionais, sem intenção poderemos negligenciar os negócios internacionais desses bancos."

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 14)(The New York Times)