Título: Planalto recebe corpo de Alencar
Autor: Pariz, Tiago ; Campbell, Ullisses
Fonte: Correio Braziliense, 30/03/2011, Política, p. 2

Despedida do ex-vice-presidente terá honras de chefe de estado. Velório será aberto ao público. governos federal e do DF decretam luto oficial de sete dias

São Paulo e Brasília ¿ A luta de 13 anos contra o câncer terminou ontem para o ex-vice-presidente José Alencar. Aos 79 anos, ele morreu por falência múltipla de órgãos em São Paulo. Alencar será velado hoje no Palácio do Planalto e receberá honras de chefe de Estado, o que não ocorre desde o falecimento do ex-presidente Tancredo Neves, em 1985. Os governos federal e do Distrito Federal decretaram luto oficial de sete dias. A presidente Dilma Rousseff, em visita a Portugal, antecipou o retorno ao Brasil.

O corpo do ex-vice-presidente chegará à Base Aérea em Brasília às 9h15 e será saudado com honras militares. Estarão presentes o presidente em exercício, Michel Temer, além dos titulares do Senado, José Sarney (PMDB); da Câmara, Marco Maia (PT); e do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso. Depois, ele seguirá em cortejo até o Palácio do Planalto em carro aberto do Corpo de Bombeiros do DF e escoltado pelas Forças Armadas. A comitiva passa pelo Eixão Sul e pela Esplanada dos Ministérios.

A chegada ao Palácio do Planalto está prevista para as 10h e a visitação pública deverá ter início às 10h30. Militares carregarão o caixão pela rampa do Planalto, enquanto as Forças Armadas fazem salva de tiros como homenagem. Dragões da Independência acompanharão a subida da rampa. Antes da abertura à visitação pública, ministros, ex-ministros do governo Lula e lideranças regionais receberão o corpo, com a família de Alencar.

A presidente Dilma, acompanhada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chega a Brasília no início da noite de hoje (leia mais na página 3). A honra de chefe de Estado foi garantida graças aos 489 dias em que Alencar assumiu a Presidência da República no lugar de Lula.

O salão do Palácio do Planalto foi organizado durante a noite de ontem por militares. A família, as autoridades e a imprensa terão local reservado. Os cidadãos que quiserem visitar também subirão a rampa do Planalto e passarão por detectores de metal. A Presidência exigirá um documento de identificação com foto. Quinze banheiros químicos foram instalados na Praça dos Três Poderes.

As pessoas passarão pelo caixão, isolado por cordas, em fila única, a uma distância de cerca de um metro e não poderão parar. O cerimonial pretende encerrar a visitação por volta das 23h. O horário pode ser estendido se houver fila muito grande. Uma cerimônia religiosa está prevista, mas será fechada à família e às autoridades. Caberá aos parentes indicar o religioso que comandará o ato. Todas as informações são da assessoria de imprensa da Presidência da República.

O corpo de José Alencar segue para Belo Horizonte amanhã pela manhã. Na capital mineira, será velado no Palácio da Liberdade, entre 8h30 e 13h. A presidente Dilma Rousseff acompanhará o velório. O desejo de Alencar era ser cremado, mas a família, por questões religiosas, não havia decidido, até o início da noite de ontem, entre a cremação e o sepultamento.

Oclusão José Alencar morreu às 14h41 no Hospital Sírio Libanês, ao lado de familiares, depois de dar entrada no dia anterior com um quadro de oclusão intestinal. Desde 1997, quando descobriu o primeiro foco do câncer, o ex-vice-presidente e ex-senador da República passou 117 dias internado. Foram 17 cirurgias.

Sempre esperançosos, os médicos mudaram o tom nas primeiras horas de ontem ao dizer que o quadro era irreversível. Fragilizado pela idade avançada e pelo excesso de intervenções, Alencar não resistiria a mais uma operação para tentar conter o sangramento no intestino. Como o tratamento contra o câncer não surtia mais efeitos, a medicação pesada já havia sido suspensa desde o ano passado e o tumor agressivo ganhou força e volume.

Na noite de segunda-feira, os médicos avisaram aos familiares que ele precisaria ser sedado para suportar as dores. O único rim do paciente (ele retirou o outro em uma cirurgia por causa do câncer) parou de funcionar por volta das 10h. Durante todo o tratamento, Alencar chamou a atenção do país ao lidar com o assunto com bom humor, transparência e demonstrando força de vontade que surpreendia até a equipe médica. Ele costumava entrar no hospital dizendo que só iria morrer quando ¿Deus quisesse¿.

¿O exemplo deixado por Alencar é uma referência entre os que lutam contra a doença¿, disse o médico Raul Cutait, coordenador da equipe que cuidou do paciente. Disciplinado, Alencar era também curioso e gostava de ser informado sobre a função de cada injeção ou pílula que tomava. Exigia que os médicos fossem 100% transparentes quanto às perspectivas de cada fase do tratamento e continuou demonstrando otimismo até mesmo quando foi desenganado.

José Alencar chegou a se submeter até a um tratamento experimental nos Estados Unidos, mas teve de suspendê-lo por não surtir o efeito desejado. Aos médicos, o político dizia que não temia morrer.

Suspensão de sessões Os poderes Legislativo e Judiciário também decretaram luto oficial e suspenderam as sessões de hoje e de amanhã. A Câmara e o Senado transferiram as votações para a próxima semana. Os estados são independentes para decretar luto e ponto facultativo de seus servidores. No governo federal, os serviços funcionarão normalmente, segundo a assessoria do Palácio do Planalto.