Título: Kirchner avisa que governo só fará uma oferta aos credores
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Fonte: Gazeta Mercantil, 23/09/2004, Internacional, p. A-12
O Produto Interno Bruto da Argentina cresceu 6% em julho, comparado com o mesmo mês de 2003, informou ontem o governo, no mesmo dia em que o presidente Néstor Kirchner declarou em Nova York que "só haverá uma oferta" aos credores. Na comparação com junho, o crescimento econômico em julho foi de 0,5%, segundo o Ministério da Economia. A expectativa é que a economia argentina cresça entre 6% a 8% neste ano. O relatório difundido ontem, denominado Estimador da Atividade Econômica, é uma antecipação provisória mensal que se utiliza para medir a variação do Produto Interno Bruto (PIB), um indicador de caráter trimestral.
Nas Nações Unidas, o presidente argentino, Néstor Kirchner, criticou o FMI e disse que o organismo precisa de uma reforma "urgente, forte e estrutural" para que deixe de ser "um credor com privilégios". "Sabemos que os superávits fiscais sustentáveis são requisito para estabilizar as economias e respeitar as obrigações com a comunidade financeira internacional, mas deve-se entender que nem todo superávit é possível", disse ele na noite de terça-feira, na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York.
"Quando se obtém o superávit com a eliminação de investimentos em infra-estrutura física ou social, se afeta a possibilidade de sustentação política e o crescimento acaba por transformar-se de algo virtuoso em instrumento de desequilíbrio negativo para o país e negativo para o funcionamento global da economia".
A Argentina enfrenta negociação com o Fundo Monetário Internacional (FMI), organismo que Kirchner acusou de cometer um sério erro no diagnóstico de sua economia, levando-o a fazer recomendações de políticas inadequadas. "A partir de nossa experiência mais recente e de outras crises de endividamento, podemos concluir que é preciso dar maior margem de ação s autoridades nacionais", disse Kirchner. "É necessária uma reforma urgente, forte e estrutural do FMI para que se possa prevenir crises".
O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, disse ontem que o país apresentará apenas uma proposta de reestruturação de sua dívida soberana não saldada. "Eu garanto que essa é a única proposta que faremos", afirmou ele para a platéia presente no auditório do Sheraton Manhattan Hotel. "Aqueles que pensam e espalham no mercado que essa não é a proposta definitiva, que apresentaremos outra ou algumas outras, quem diz isso está equivocado", continuou. Kirchner disse que não pode dar detalhes sobre a proposta, já que a Securities & Exchange Commission (SEC), a comissão de valores mobiliários americana, está analisando aspectos da proposta do país. Durante a análise da SEC, as informações que o governo pode prestar são restritas, ele disse. A reestruturação da dívida de US$ 100 bilhões é aguardada desde dezembro de 2001, quando a Argentina suspendeu os pagamentos de suas obrigações.
Kirchner sugeriu que a Argentina está ávida para reestruturar sua dívida pendente para garantir "a plena integração do país nos mercados internacionais de capital". Para alcançar esse fim, acrescentou, "é de nosso interesse avançar (no tema da dívida) com seriedade, realismo e no tempo mais curto possível". Ele contestou as críticas de que a Argentina protelou o processo de reestruturação e pressionou os credores a desistirem de somas extraordinariamente altas do atual valor líquido da dívida. "Correram muitos rumores distorcidos no mercado. Alguns indivíduos gostam de distorcer os fatos", ele disse. "Eu quero ser claro e declarar que nosso país não vai se comprometer com nada que não possa cumprir, e que nós só vamos cumprir aquilo com o qual assumimos compromisso", acrescentou Kirchner. "Não vamos fazer uma proposta irreal" só para voltar atrás e declarar outra moratória, declarou.
Ao fazer uma única e definitiva proposta, o governo de Kirchner espera reunir um número suficiente de compradores de forma que a proposta possa ser considerada amplamente aceitável pelos bancos de crédito do mercado e multilaterais, com os quais seu governo tem uma relação tensa. A presente proposta da Argentina pede uma redução de 75% no valor atual líquido da dívida. A posição pública da maior parte dos grupos de credores é que a proposta é inaceitável.